sábado, 26 de setembro de 2015

EPISTEMOLOGIA CRISTÃ CONTRA O RELATIVISMO

Bruno dos Santos Queiroz

       De acordo com o Relativismo epistemológico não existem verdades absolutas e universais, mas todas as “verdades” são construídas socialmente e dependem de um determinado contexto histórico-cultural. Michael Foucault dizia que a verdade era apenas uma questão ideológica de manutenção do poder (Reis, Assis, Cardoso e Borges, 2014):

Não existe a verdade, mas verdades. A verdade é alguma coisa subjetiva, na mente de quem interpreta um texto, mas não no texto propriamente. A verdade está na forma como eu a vejo, mas não objetivamente. O que é verdade para mim pode não ser verdade para outra pessoa. Por essa razão, ninguém pode reivindicar estar com a verdade objetivamente. Ela não está em nenhum lugar que não seja na mente do indivíduo. O pós-modernismo tem sido caracterizado por "uma aversão endêmica pelas questões da verdade." (Campos, 1997)

       Um expoente do pós modernismo, Jacques Derrida, defendia um método hermenêutico livre para a linguagem, seja falada ou escrita (Reis et al., 2014). O pós-modernismo não tem qualquer interesse de se aproximar da verdade: “Apesar de nossas teorias não se moverem inexoravelmente em direção a uma maior fidelidade com a natureza e nós não chegarmos mais perto da ‘verdade’ neste processo, oferecemos então para a cultura (...) uma amplitude crescente de inteligibilidades e práticas” (Gergen, 1997, p.92 apud Rasera e Japur, 2005).
       Argumenta-se a favor do Relativismo Epistemológico com analogias de como uma imagem pode causar diferentes percepções entre as pessoas, como pessoas podem ter diferentes acessos a diferentes partes de uma mesma "coisa" e assim oferecer descrições contraditórias sobre um mesmo fenômeno, mas igualmente verdadeiras, levanta-se também a questão de como algo pode ser válido para um contexto histórico específico mas não para outro. A partir dessas falácias argumentativas, concluem os relativistas: “Todas as verdades são relativas”. A verdade é que isso não é verdade. Essa asserção que propõe uma esquisita forma de dogmatismo (aliás, uma pressuposição que se propõe ser a única verdadeiramente verdadeira entre tantas pressuposições relativas), é totalmente estranha para o pensamento cristão. Basicamente o argumento contra o Relativismo epistemológico é este:

1.      Ao afirmar que não há uma verdade absoluta, o pós-modernismo faz, paradoxalmente, uma afirmação absoluta.
2.      Nenhum sistema filosófico pode ser sustentável se possui uma contradição interna.
3.      Logo o pós-modernismo não é sustentável (Reis et. al., 2014, p.13)

       Analisemos mais de perto cada uma das premissas. A primeira afirma que o Relativismo Epistemológico ao propor ser um princípio universal (“todas as verdades são relativas”), já se apresenta como uma verdade absoluta, criando um contradicto in adjecto. A própria alegação da relatividade da verdade fere o próprio princípio epistemológico do relativismo e acaba por assumir tacitamente uma asserção de correspondência de verdade. Alguns afirmariam que a pressuposição de que a verdade é relativa também é relativa, mas isso é autodestrutivo e levaria a uma regressão infinita:

Aqui está o dilema: Um relativista íntegro não pode dizer: “Trata-se de uma verdade absoluta para todas as pessoas o fato de que a verdade é relativa somente para mim”. Se ele disser isto, será absolutamente verdadeiro que o Relativismo é verdadeiro, mas ele não será mais relativista, mas um “absolutista”. Se por outro lado, ele disser: ‘O fato de o Relativismo ser verdadeiro é uma questão relativa” não poderemos saber se o relativismo é mesmo correto, pois ele será relativamente verdadeiro para ele (e não para todos), então o relativismo pode ser falso para mim. Por que, então, ele deveria ser aceito como verdadeiro? (Geisler, 2005, p.111).

      A segunda premissa atenta para o fato de que um sistema filosófico não se sustenta se for autocontraditório. De fato, o Relativismo fere a lei da lógica aristotélica da não-contradição, e algo que fere a lógica não é racionalmente sustentável.

A razão disso é que a lógica é essencial ao discurso inteligível. [...] O que é ilógico representa o caos, não o cosmos. E o caos absoluto não pode ser conhecido de maneira ordenada, o que torna o conhecimento ou scientia uma impossibilidade manifesta (Sproul, 2002 p. 43 apud Oliveira, 2014).

       A conclusão é inevitável: O pós-modernismo não se sustenta. O relativismo epistemológico não tem base ontológica para afirmar um relativismo conceitual. Só existiria base ontológica para afirmar o contrário, isto é, o conhecimento de semelhanças compartilhadas universalmente se existisse um Deus verdadeiro e racional (cf. Rasera e Japur, 2005). Mas refutando o relativismo conceitual, temos uma Mente universal que sirva de base ontológica para o conhecimento de semelhanças universalmente compartilhadas. Concluímos, então, a necessidade da existência de um Deus verdadeiro e racional. Entre algumas refutações ao relativismo conceitual estão os contradictos in adjectos autodestrutivos do relativismo epistemológico, visto que a própria pressuposição relativista seria relativa, gerando um segmento infinito. Se afirmarmos o relativismo conceitual o impossível seria real, mas isso não é possível. A única forma de fugir dessa confusão do relativismo epistemológico seria afirmar o conhecimento de semelhanças universalmente compartilhadas, e assim admitir que existe verdadeiramente um Deus racional. E claro, verdadeiro em sentido absoluto, universal e objetivo.
       Resumindo a Epistemologia Cristã adota que a verdade: (i) não é inventada, mas descoberta; (ii) é transcultural, (iii) é imutável; (iv) não depende das crenças subjetivas de alguém; (v) não pode ser afetada pelas atitudes de quem a professa  e (vi) são todas absolutas (Forti,2014).

REFERÊNCIAS

Campos, H. C. (1994). O Pluralismo do Pós-modernismo. Fides Reformata 2/1
Forti, F. (2014). Verdade e Moralidade - Relativos ou absolutos?  [On-line]. Disponível: http://pacocapessoal.tumblr.com/post/89735402446/verdade-e-moralidade-relativos-ou-absolutos Recuperado em: 26 de setembro de2015.
Geisler, N. (2015). Teologia Sistemática 1. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus.
Oliveira, L. A. (2015). Introdução à Lógica Aristotélica. [On-line]. Disponível: http://panaceiateoreferente.blogspot.com.br/2014/05/o-surgimentoda-logica-uma-das-maiores.html Recuperado em: 26 de setembro de2015.
Rasera, E. F. e Japur, M. (2005). Os sentidos da construção social: O convite Construcionista para a Psicologia. Paidéia, 2005, 15(30), 21-29
Reis, D., Assis, L. G., Cardoso, M. e Borges, M. (2014). O Resgate da Verdade. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira.


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

INTERDITO LEVÍTICO DO INCESTO


Bruno dos Santos Queiroz
A proibição do incesto é sem dúvida um fenômeno universal. Não há sociedade alguma em que não haja uma norma que interdite o casamento entre pessoas situadas em um determinado grau de parentesco. As pretensas exceções a essa condenação unânime ao incesto, a do casamento de irmãos nas famílias reais do Egito Antigo, do Império Inca ou do Havaí, não devem ser tomadas como um indício da inexistência, entre eles, da noção de incesto e de sua proibição, mas apenas da adoção de uma forma diversa de classificar as relações que se enquadram nessa categoria. A constatação de que as relações incestuosas têm sido consideradas, nas mais diferentes épocas e lugares, como intrinsecamente perniciosas, condenáveis, não significa a universalidade de sua observância. Psicanalistas, sacerdotes, médicos e educadores sabem muito bem que as transgressões à proibição do incesto são uma realidade bem mais freqüente [sic.] do que geralmente se imagina. (Lobato, 1999)
Para Freud, assim como para Levi-Strauss, a proibição do incesto é um fenômeno sócio-cultural de caráter universal. Este fenômeno gera nas mais diversas culturas, comportamentos, leis, instituições, regras, moral e uma ética de conformidade com a formação social de cada povo, reiterando algo que é singular em todos: o rechaço ao incesto. Esta universalidade inquietou tanto Levi-Strauss quanto Freud, embora o ponto de chegada e de partida do constructo teórico de ambos sejam distintos. (Pontes, 2004)

       Com o objetivo de fortalecer a universalidade do incesto segue abaixo o texto hebreu antigo que condena o incesto, datado pelos eruditos conservadores por volta de 1445-1405 a.C. (Stamps, 1995). O texto em questão está citado conforme a tradução da Nova Versão Internacional:
Obedeçam aos meus decretos e ordenanças, pois o homem que os praticar viverá por eles. Eu sou o Senhor.
"Ninguém poderá se aproximar de uma parenta próxima para se envolver sexualmente com ela. Eu sou o Senhor.
"Não desonre o seu pai, envolvendo-se sexualmente com a sua mãe. Ela é sua mãe; não se envolva sexualmente com ela.
"Não se envolva sexualmente com a mulher do seu pai; isso desonraria seu pai.
"Não se envolva sexualmente com a sua irmã, filha do seu pai ou da sua mãe, tenha ela nascido na mesma casa ou em outro lugar.
"Não se envolva sexualmente com a filha do seu filho ou com a filha da sua filha; isso desonraria você.
"Não se envolva sexualmente com a filha da mulher do seu pai, gerada por seu pai; ela é sua irmã.
"Não se envolva sexualmente com a irmã do seu pai; ela é parenta próxima do seu pai.
"Não se envolva sexualmente com a irmã da sua mãe; ela é parenta próxima da sua mãe.
"Não desonre o irmão do seu pai aproximando-se da sua mulher para com ela se envolver sexualmente; ela é sua tia.
"Não se envolva sexualmente com a sua nora. Ela é mulher do seu filho; não se envolva sexualmente com ela.
"Não se envolva sexualmente com a mulher do seu irmão; isso desonraria seu irmão.
"Não se envolva sexualmente com uma mulher e sua filha. Não se envolva sexualmente com a filha do seu filho ou com a filha da sua filha; são parentes próximos. É perversidade.
"Não tome por mulher a irmã da sua mulher, tornando-a rival, envolvendo-se sexualmente com ela, estando a sua mulher ainda viva.
                                                                                                                   (Levítico 18:5-18)

REFERÊNCIAS
Lobato, J. P. (1999). A proibição de incesto em Lévi-Strauss. Revista Oficina: Família, seus conflitos e perspectivas sociais9, 14-20.
Pontes, A. M. (2004). O tabu do incesto e os olhares de Freud e Levi-Strauss. Trilhas1,7-14.
Stamps, D. C. (1995). Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD


FAMÍLIA CASAMENTO E ARRANHO EM ADÃO E EVA


Bruno dos Santos Queiroz
       Etimologicamente família remete a ideia de um conjunto de escravos e servos sob a jurisdição do pai de família (Nogueira, 2007). No entanto, faz-se necessária cautela para não tomarmos etimologia como significado, na medida em que o significado de uma palavra não é definido por sua etimologia. De fato, embora possa haver ligações entre a concepção judaico-cristã de família e a etimologia de tal palavra, uma falácia etimológica quanto a mesma acarretaria perdas na compreensão de seu real significado.
       Esse trabalho buscou apresentar a concepção de família ao longo do texto judaico que narra o relato de Adão e Eva. Preferiu-se usar o termo “relato”, ao invés de mito, em respeito as vertentes religiosas que fazem uma leitura literal do texto (ver Schwertley, s.d.), embora a mitologização do relato venha sendo favorecida pela ampla utilização do método histórico-crítico no ambiente acadêmico (Neto, 2009). Foi realizada uma análise histórica-objetiva do texto desse relato, considerado canônico pelos judeus e pela ortodoxia cristã tradicional, com o o propósito de apresentar a ideia de família derivada do texto.
       A leitura do escrito utilizado foi procedida tendo maior proximidade com o método hermenêutico histórico-gramatical do que com métodos modernos e pós-modernos mais subjetivistas. Geralmente estes métodos acabam por metaforizar os textos, dando uma compreensão mais simbólica. O objetivo deste trabalho, no entanto não foi encontrar a aplicação de algum simbolismo ou analogia que se possa abstrair desse relato, mas apenas analisar as contribuições objetivas desse relato para a concepção de família apreendida do texto. Assim, se “tem por objetivo achar o significado de um texto sobre a base do que suas palavras expressam em seu sentido simples, à luz do contexto histórico em que foram escritas. A interpretação é executada de acordo com regras gramaticais e semânticas comuns à exegese de qualquer texto literário, baseada na situação do autor e do leitor de seu tempo. ” (Kunz, 2008, p.1).
        As justificativas para essa análise é a importância do texto para a concepção predominante de família na tradição judaico-cristã:
Causa surpresa a muitos observadores que os padrões tradicionais de moralidade e de comportamento marital entre os judeus tenham sobrevivido com seus traços mais característicos até os nossos dias. Essa sobrevivência tem-se dado apesar das assimilações culturais dos judeus e a desintegração dos valores morais na sociedade moderna. Para essa preservação, um fator decisivo foi o longo condicionamento histórico dos judeus à fidelidade conjugal, mesmo os pouco religiosos ou secularistas. (Glasman, s.d., p. 68)
       Tendo definido as questões epistemológicas e metodológicas desse trabalho, bem como de seu objetivo façamos uma breve análise do conceito de família no relato de Adão e Eva:     
       Segundo o relato do primeiro capítulo “Deus criou homem e mulher” e lhes deu a ordem de procriar precedida pela “bênção de Deus”. No entanto, no capítulo segundo a criação do Homem e da Mulher são abordados sob um prisma um pouco diferente: A criação de Adão antecede o da mulher, estabelecendo-se portanto uma concepção de família patriarcal. Assim, quanto ao homem Adão é dado uma posição de liderança e quanto a mulher é dito que ela seria “ajudadora”.
       Apesar dessa submissão econômica da função feminina à masculina, não é necessário enxergar no relato uma hierarquia ontológica entre Adão e Eva, na medida em que ambos recebem a “imagem e semelhança do Criador” e são apresentados como “uma só carne”.
       Alguns tem proposto que o mito de Lilith devesse fazer parte do relato. Sobre isso Sicuteri (1998, apud Rodrigues, 2007) escreveu:
O mito de Lilith pertence à grande tradição dos testemunhos orais que estão reunidos nos textos da sabedoria rabínica definida na versão jeovística, que se colocada lado a lado, precedendo-a de alguns séculos, da versão bíblica dos sacerdotes (...) a lenda de Lilith, primeira companheira de Adão, foi perdida ou removida durante a época de transposição da versão jeovística para aquela sacerdotal, que logo após sofre as modificações dos pais da Igreja. (p. 23)
       A suposição de que o mito de Lilith, pudesse fazer parte do texto original se baseia na Teoria JDPD ou Hipótese Documentária. No entanto, “estas teorias documentárias continuam hipotéticas e as fontes alegadas permanecem como motivo de debate e sem reconhecimento pelos críticos” (Lopes, 2005). Também não parece estar em harmonia com o estilo de Gênesis atribuir uma androgenização a Adão, na medida em que o primeiro capítulo de Gênesis constitui um prólogo do segundo.
       Deixando de lado essas discussões epistemológicas, as conclusões que se pode tirar do relato de Adão e Eva são: (i) O homem é funcionalmente superior a mulher no arranjo familiar (criado primeiro); (ii) O homem e a mulher são ontologicamente iguais (“uma só carne’’); (iii) A concepção de casamento é monogâmica e heterossexual (“o homem se unirá a sua mulher’’); (iv) A procriação é um dos objetivos do sexo e do casamento (“multiplicai-vos”); (v) Adão tinha a função de liderança (criado primeiro); (vi) A mulher tinha a função de ajudadora (“far-lhe-ei uma ajudadora”); (v) o casamento precede a relação sexual (Deus “abençoou” e depois ordenou a procriação).
       Esse modelo de casamento apresentado no relato de Adão e Eva reverberará em toda a tradição judaico-cristã e no modelo patriarcal e nuclear de família. Assim a análise desse relato é importante para a compreensão da imagem tradicional de família e mostra a antiguidade desse modelo. No entanto, têm havido uma desconstrução desse modelo judaico-cristão na sociedade atual “possibilitando a inclusão das uniões homoafetivas como entidades familiares” (Mariano, 2009), bem como outras alterações na dinâmica familiar.
REFERÊNCIAS

GlASMAN, J. B. (s.d.).  Amor, Sexo e Casamento no Judaísmo.  [On-line]. Disponível em:http://www.revistanearco.uerj.br/arquivos/numero8/4.pdf. Recuperado em 03 de Setembro de 2015
KUNZ C. A. (2008). MÉTODO HISTÓRICO-GRAMATICAL: Um estudo descritivo. Via teológica2, 23-53. 
LOPEZ, A. N. (2005). O dilema do método histórico-crítico na interpretação bíblica. Fides Reformata, X, 115-138
MARIANO, A. B. P. (2009). As Mudanças no modelo familiar tradicional e o afeto como pilar de sustentação destas novas entidades familiares. [On-line]. Disponível emhttp://www.unibrasil.com. br/arquivos/direito/20092/ana-beatriz-parana-mariano.pdf . Recuperado em 03 de Setembro de 2015
NETO, J. O. R. (2005). Os problemas e limites do Método Histórico-Crítico Revista Theos, 5, 1-12.

NOGUEIRA, M. B. (2007). A Família: Conceito E Evolução Histórica E Sua Importância. [On-line]. Disponível em: http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/files/anexos/18496-18497-1-PB.pdf.Recuperado em 03 de Setembro de 2015.
RODRIGUES, Cátia Cilene Lima. Lilith e o arquétipo do feminino contemporâneo. In: Ética, religião e expressão artística. Anais do III Congresso Internacional de Ética e Cidadania. 2007.

SCHWERTLEY, B. (s.d.). A Historicidade de Adão. [On-line]. Disponível em:http://www.monergismo.com/textos/criacao/historicidade_adao_schwertley.pdf. Recuperado em 06 de Setembro de 2015.


CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEGALIZAÇÃO DO CASAMENTO GAY

Bruno dos Santos Queiroz

       Algumas pessoas, ainda algumas que se denominam cristãs, não veem qualquer problema na legalização do casamento gay. Ora, qual o problema de duas pessoas que se amam terem reconhecidas pelo Estado, ou mesmo por alguma igreja, sua união? Por que gozariam os heterossexuais de um direito ao casamento, enquanto esse direito seria negado aos homossexuais? Ainda, se estamos em um Estado laico, não deveriam os cristãos, mesmo sendo contra o casamento gay religioso, ser a favor das pessoas se casarem no civil? Alguns pensam “Sou contra a homossexualidade, mas a favor das pessoas se casarem”, ou “Sou contra o casamento gay apenas religiosamente falando, mas não generalizo meus princípios religiosos privados para a vida secular”. Será mesmo coerente este tipo de posicionamento? Como os cristãos devem enxergar o casamento gay?

A ESFERA BIOLÓGICA DO CASAMENTO

       Para começar, definamos "casamento".  Mesmo sem recorrer a argumentos essencialmente religiosos, a definição de casamento permanece sendo a união de duas pessoas de sexos diferentes. Isso porque a definição de casamento se sustenta sobre três pilares básicos: (i) sexo; (ii) quantidade e (iii) espécie. Existem dois sexos biológicos básicos na espécie humana: masculino e feminino. Com base nesse aspecto biológico se estabelece o casamento como sendo entre duas pessoas (quantidade), sendo elas (um homem e uma mulher). Em seguida, o casamento é delineado como sendo constituído por pessoas da espécie humana. Esses três pilares (i) sexo: homem e mulher; (ii) quantidade: duas pessoas; (iii) espécie: humana, são a essência que define o que é casamento. Sabe-se, no entanto, que o biológico não é a única coisa a se levar em conta na questão da conjugabilidade, e que nesse sentido, o casamento precisa ser constituído de laços afetivos. No entanto, será um erro ignorar o biológico e assumir somente a afetividade na conceituação de casamento. A definição de casamento se sustenta sobre os três pilares biológicos e sobre a afetividade, e não apenas sobre um ou outro. Uma sociedade hedonista, em que se valoriza o amor eros e se ignora a biologia humana, acaba por fazer com que o termo “casamento” perca seu rigor conceitual, o que por sua vez gera uma palavra vazia de significados, plástica e flexível, reflexo da fluidez de nossa sociedade.  Casamento é, na própria definição do termo, heterossexual pois, carrega consigo a alteridade biológica. “Casamento gay” é um contradicto in adjecto, uma contradição nos próprios termos.

O CAMPO DA AFETIVIDADE E A CONJUGABILIDADE

       Baseado na teoria dos campos de poder de Weber, alguns teóricos têm desenvolvido a ideia da emergência de um novo campo de poder, o campo da afetividade. Até o fim da Idade Média, campos de poder, como a política, a ética, a economia e a religião, estavam todos em torno da Igreja. Com o secularismo, teria havido uma delimitação mais distinguível dos campos de poder. O campo de poder da religião separou-se do campo de poder do Estado, a Ciência moderna, filha do escolasticismo, foi se tornando um campo cada vez mais independente, separando-se, ao menos pretensamente, de pressupostos religiosos e subjetivistas. Desse modo, houve um processo que poder-se-ia chamar de uma complexificação dos campos de poder.
       Um campo de poder que também surgiu na Idade Moderna teria sido o campo da afetividade. Tal campo emergiria englobando ciências afetivas, como a Psicologia, o estudo da socioafetividade, a Teoria das Relações Humanas na Administração, o conceito de Inteligência Emocional, dentre outros, além de lançar o solo para o Feminismo, os movimentos de diversidade, o Pentecostalismo e as religiões carismáticas. O surgimento deste novo campo não deixou de ter certa importância para uma maior consideração da dimensão afetiva do ser humano, seus aspectos psicológicos, suas emoções e sua subjetividade.
       O campo afetivo trouxe também consequências no que diz respeito às visões sobre o casamento. O casamento, a partir do século XVIII, passou a estar cada vez mais vinculado à noção de amor. O casamento ficou mais ligado às ideias de erotismo e amor-paixão, do que às ideias de contrato familiar e propriedade. Surge então na Modernidade a ideia do amor-paixão como fundamento do casamento. E de fato, não negamos a importância da esfera psicológica e afetiva do casamento.      
       No entanto, existe algo que podemos chamar de violência simbólica de um campo de poder sobre os outros. Alguns campos de poder podem lançar seus tentáculos e querer usurpar outro campo. O Estado pode querer interferir nas relações familiares, proibindo os pais de darem “palmadas” nos filhos, por exemplo. Um campo de poder pode também, querer reduzir toda a realidade em torno de si, como o fizeram o psicologismo, o positivismo e o biologismo. Assim, alguns podem interpretar que todos os fenômenos são psicológicos, ou passarem a enxergar o ser humano como um animal biológico tal como qualquer outro “produto do processo evolucionário”.
       Ultimamente, é isso que temos visto fazer o campo afetivo. Ele se ergue sobre outros campos, querendo lançar fora as bases biológicas para a definição do casamento e prepotentemente buscando definir casamento sobre a base do sentimento. O resumo da conjugabilidade pelo afetivismo se vê naqueles que pensam “Qual o problema de duas pessoas que se amam, se casarem?” ou “Deixem as pessoas serem felizes”– como se o sentimento afetivo resumisse a questão. Isso tem reverberações até no crescimento do divórcio – o separar-se porque o “amor acabou”. Assim, o casamento, tanto conceitualmente, como pragmaticamente, passa a estar resumido e sustentado tão somente pela afetividade. O fato de dois homens ou duas mulheres se amarem eroticamente, não os torna um casal, pois o casamento não se reduz a esfera afetiva.

A ESFERA TRANSCENDENTAL DO CASAMENTO

       Para os cristãos a questão é ainda mais profunda, o casamento não tem só uma esfera biológica e afetiva, mas também uma dimensão ética-transcendental. Ele foi criado com um propósito e um sentido. A união de dois sexos diferentes é o símbolo da distinção e unidade da Trindade, reflexo do arquétipo uno/múltiplo da natureza divinaA unidade essencial e a pluralidade pessoal do divino são refletidas na união conjugal dos gêneros. A alteridade dos sexos é um elemento necessário para o casamento enquanto reflexo do Transcendente. É, por isso, que em sua dimensão transcendental o casamento só pode ser casamento se for heterossexual, e a união sexual entre duas pessoas do mesmo sexo é uma perversão narcísica que ignora a alteridade.
       Há ainda uma esfera mítica no casamento. Ele revela um mistério, a união mística entre Cristo e a Igreja. O casamento tem uma esfera espiritual. Ele existe como encenação da união amorosa entre o Deus Filho e Seu povo eleito. O homem é o representante da autoridade de Cristo na família, e a mulher manifesta a glória da Igreja no matrimônio. Os cristãos devem ter em mente toda essa esfera ética – transcendental – espiritual, antes de darem as mãos ao reducionismo afetivo do casamento gay.

O CASAMENTO GAY E O POSICIONAMENTO CRISTÃO

       Lúcio Oliveira pontua que “Platão, em a ‘República’ observa que tal como é a sanção pública em torno da moralidade, dos valores, do que ela acha legal e ilegal, será a formação da mentalidade ética da geração posterior. Trocando em miúdos, quando as crianças em formação olharem para o mundo e virem que tudo isso é considerado normal, uma questão de 'direito' e até mesmo algo comemorado pelo povo - inclusive por seus pais cristãos—é bem possível que tenha sua percepção de mundo influenciada. E, não, ela não assimilará os valores de tolerância e afins. Os valores antropológicos dos pais cristãos e sua concepção a respeito do ser humano serão solapados pelo fenômeno que se desdobra na sociedade. Um bom adolescente perceberá que esses valores da 'velha religião' são obsoletos para o seu tempo. E estes cristãos estarão em maus lençóis quando tiverem que evangelizar seus filhos. Se é que têm esse interesse. Se é que são cristãos”.
       Assim, a legalização do casamento gay não significa uma mera concessão de direitos, mas uma nova, e quase uma revolução, no modo de pensar da sociedade, uma sociedade que vai tomar uma prática imoral como moralmente aceitável. Consentir com isso é consentir com que a sociedade adote um modo de pensar que é contrário aos princípios da moral, em especial levando em consideração que os cristãos consideram a moral como absoluta, universal e objetiva, e não relativa. Ser conivente com a legalização do casamento gay seria contribuir também para que o modo de pensar da próxima geração seja modificado, de modo a prejudicar e dificultar os cristãos a continuarem a manter seu posicionamento diante da nova mentalidade social.
       Além disso, cremos que a Lei de um Governo acaba por refletir a moral do seu povo. De fato, as nossas leis são alicerçadas nos princípios da moral judaico-cristã, e seria profundamente prejudicial se perdêssemos esses princípios, pois é a moralidade cristã que sustenta os princípios de justiça social, respeito, amor e tolerância. Opor-se à legalização do casamento gay é justamente uma manifestação do amor cristão, que jamais consentiria com que as decisões de hoje fizessem produzir uma mentalidade social desvinculada dos princípios morais.
       O casamento não é simplesmente um “direito civil inerente ao ser humano” e uma pessoa pode ser plenamente realizada sem se casar. A questão é que o Estado ao aprovar o casamento gay está concedendo benefícios a esse tipo de união, como direito a herança, repartição de bens, etc. Ao fazer isso o Estado está incentivando um tipo de prática imoral. Ao conceder benefícios à união homossexual, legalizando o casamento, o Estado já está adotando um posicionamento moral, a saber, que o casamento homo-afetivo é benéfico para a sociedade. Mas, nós cristãos não concordamos com esse posicionamento moral, já que cremos que a prática da homossexualidade é moralmente nociva. Sendo assim, não faz o menor sentido para o Cristianismo ser favorável a legalização do casamento gay.
       A posição do Estado em favor do casamento gay não é uma posição "neutra", ao contrário, é uma posição em benefício de uma união imoral, pervertida e prejudicial. Aliás, a legalização do casamento gay favorece uma concepção relativista ou utilitarista de moral em detrimento a uma concepção ética metafísica ou objetiva. No entanto, a negação da objetividade e universalidade da ética e da moral é um contradictio in adjecto, o relativismo moral se for levado a sério conduz a resultados desastrosos. A concepção utilitarista de moral, no entanto, continua não sendo um padrão satisfatório, na medida em que os efeitos de um posicionamento não determinam sua moralidade.

RESPOSTA À OBJEÇÃO DO CASAMENTO COMO SENDO “PRIVADO”

       Alguns dizem que o casamento é uma questão de fórum privado, que o fato de duas pessoas se casarem não interfere na vida de um religioso contrário ao casamento gay. Mas será essa objeção coerente? O difícil estará em definir o que seria pertencente à vida privada, visto que de toda forma, nossa subjetividade não pode ser separada do social, e até mesmo aquilo que fazemos no âmbito privado, na medida em que se relaciona com a nossa subjetividade, e visto que esta última, está intimamente relacionada com a vivência em sociedade, torna a linha entre social e privado extremamente difícil de definir. Mas a legalização do casamento gay não é algo meramente "privado" pois ela carrega várias questões ideológicas, que como se percebe claramente, tem um impacto social muito significativo. Somente um cego não percebe as profundas modificações sociais e os impactos públicos, que têm a legalização do casamento gay.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

     Precisamos levar vários pontos em questão, para que a Igreja ao invés de ser "sal da Terra", não se converta em uma contribuidora para a degradação moral que se desdobra em nossa sociedade. A legalização do casamento gay é uma violência simbólica entre campos de poder, em que a afetividade quer concentrar sobre si as prerrogativas de dominar sobre a ética, a religião, o transcendental e o biológico. Não existe casamento gay, justamente porque o termo casamento por si só já designa uma união heterossexual. Nós, cristãos, não compactuamos com a ideia de casamento gay, nem reconhecemos a existência real de tal união conjugal. Antes, obedecemos às Escrituras, quando dizem:
 “Quanto à fornicação, à impureza, sob qualquer forma, ou à avareza, que disto nem se faça menção entre vós, como convém a santos. Nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm; em vez disto, ações de graças. Porque sabei-o bem: nenhum dissoluto, ou impuro, ou avarento - verdadeiros idólatras! - terá herança no Reino de Cristo e de Deus. E ninguém vos seduza com vãos discursos. Estes são os pecados que atraem a ira de Deus sobre os rebeldes. Não vos comprometais com eles...  Procurai o que é agradável ao Senhor, e não tenhais cumplicidade nas obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, condenai-as abertamente. Porque as coisas que tais homens fazem ocultamente é vergonhoso até falar delas. Mas tudo isto, ao ser reprovado, torna-se manifesto pela luz...  Vigiai, pois, com cuidado sobre a vossa conduta: que ela não seja conduta de insensatos, mas de sábios” - Efésios 5.3-15

FONTES


FALÁCIAS ARGUMENTATIVAS DOS ANTITRINITÁRIOS

FALÁCIA 1: ARGUMENTO DO SILÊNCIO:

Defende que para uma doutrina ser bíblica ela precisa aparecer de maneira explícita nas Escrituras. Assim é comum vermos antitrinitários perguntando: “Onde a palavra “trindade” aparece na Bíblia?’’, ou ainda “só acredito na Trindade se você me mostrar o verso que diz ‘o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só’”. Evidentemente, como a Bíblia não é um tratado de teologia sistemática, não se deve esperar encontrar nela a palavra trindade, mas sim seu conceito e textos sobre as quais está embasada.

FALÁCIA 2: ARGUMENTO DA ADULTERAÇÃO

Argumenta que se um texto apoia a Trindade, ele foi adulterado. Ainda que não haja argumentos sólidos e consistentes, e até mesmo fortes evidências contrárias, atribuem adulterações a textos como Mateus28.19 e Isaías 9.6. No entanto as credências desses textos estão acima de qualquer contestação séria. Geralmente, os antitrinitários preferem o duvidoso Textus Criticus do que o tradicional Textus Receptus, comumente cometendo uma falácia cronológica, como se a veracidade de um manuscrito fosse determinada por sua antiguidade.

FALÁCIA 3: ARGUMENTO DA POSSIBILIDADE DE TRADUÇÃO

Textos como Tito 2.13 e Romanos 9.6 podem ser traduzidos tanto se referindo a divindade do Filho, quanto do Pai. Na realidade as duas possibilidades de tradução não só não contrariam a Trindade, como a apoiam. É importante ressaltar que uma possibilidade de tradução que ignora o contexto pode levar ao erro, a exemplo de traduções equivocadas de João 1.1 “um deus” e Hebreus 1.6 “prestar homenagem”, quando o contexto favorece mais a tradução “Deus” e “adorar”.

FALÁCIA 4: EXIBICIONISMO CRONOLÓGICO

Afirma que a Trindade é falsa porque foi desenvolvida e sistematizada após o término da escrita bíblica. No entanto, embora tenha sido sistematicamente formulada tempo depois do término da escrita bíblica, a Trindade sempre esteve presente nas Escrituras. Desde o início do Cristianismo tinha-se a noção de que o próprio Cristo, enquanto Logos, era Deus absoluto (Jo1.1), em Paulo ele preexiste na forma de Deus (Fp2.6), em hebreus, Ele é o Senhor que no princípio fundou a Terra (Hb1.10). Nas cartas paulinas os Três são vistos como constituindo um só, “Jeová é o Espírito” (2Co3.17), e o Espírito de Deus é o Espírito de Cristo (Rm8.9). A Trindade foi espiritualmente revelada nas Escrituras, mas precisava-se de tempo e distância para chegar-se a uma formulação dos conteúdos revelados. A Trindade está presente espiritualmente, desde os primeiros tempos da Igreja, e seria pura questão de palavras insistir que a Trindade só foi descoberta tempo depois.

FALÁCIA 5: PARALELISMO INDEVIDO DE PASSAGENS

Deve-se tomar muito cuidado com o método comparativo e o paralelismo textual. Nem sempre uma expressão ou construção textual de uma passagem tem o mesmo sentido da de outra. Não é porquê “deus” se refere a Moisés e juízes num sentido que deverá ter o mesmo sentido para Cristo. Nem que “espírito” por poder se referir a um aspecto antropológico humano ou a um elemento impessoal, que terá o mesmo sentido ao se referir ao Espírito Santo. Palavras em contextos diferentes tem significados diferentes.

FALÁCIA 6: INVALIDAÇÃO PRESSUPOSICIONALISTA

Existem três pressupostos básicos na fórmula trinitária: (i) Unidade; (ii) Divindade e (iii) Distinção. (para mais detalhes clique aqui). A falácia 6 argumenta que uma pressuposição da Trindade invalida a outra. Assim pensa-se que o primeiro pressuposto (unidade), contraria os outros dois. Assim é comum vermos antitrinitários citando textos que falam que “há um só Deus”, no entanto isso não é argumento contra a Trindade, mas sim a favor. Além do mais o pressuposto primeiro não invalida os outros dois, pois estes se referem a hipóstase, e aquele a essência.

FALÁCIA 7: CONFUSÃO CONCEITUAL 

Alguns confundem a Trindade com o modalismo, e assim querem refutar a Trindade mostrando que o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são a mesma pessoa, enquanto é justamente isso que a Trindade ensina. Outros confundem também com tríade, e assim alegam que a Trindade é um politeísmo disfarçado, ou “três deuses” ou ainda com tripartidismo, e assim acham que a Trindade ensina que existem três seres divinos em um só Deus, ou ainda que Jesus é parte de uma Trindade, ou que para a Trindade Deus é uma unidade composta, que
Jesus é uma pessoa separada de Jeová, ou mesmo que a Trindade ensina um Deus com divisões e separações.

FALÁCIA 8: PAGANIZAÇÃO

Ensina que a Trindade é pagã por usar termos filosóficos ou por haver conceitos semelhantes em culturas pagãs. O erro desse argumento é esquecer-se da Revelação Geral de Deus, da origem comum das culturas e geralmente se baseia numa confusão conceitual dos pressupostos da Trindade ou em um uso equivocado do método histórico-comparativo.

FALÁCIA 9: ANTIFILOSOFISMO

Afirma que a Trindade é falsa por usar termos filosóficos gregos em sua formulação. Esquecem-se da Revelação Geral de Deus e ignoram que a Trindade é derivada primariamente das Escrituras e não da filosofia. A realidade é que por influência da filosofia grega pagã, argumentos neoplatônicos foram usados para defender tanto a trindade como o unitarismo, nas discussões de Atanásio e Ário, por exemplo. Ário, um antitrinitário fez uso da filosofia platônica da ideia de Monas. Vários elementos da filosofia grega invadiram o Cristianismo, e foram usados tanto para defender doutrinas bíblicas como antibíblicas. Existe uma falsa ideia, entre aqueles que querem 'purificar' o Cristianismo do paganismo, segundo a qual tudo o que possui influência da filosofia grega é heresia. É verdade que não podemos menosprezar a Bíblia (nossa única regra de fé) em favor de filosofias humanas, nem ignorar que muitas heresias têm sua origem no pensamento greco-romano. No entanto, será um equívoco de nossa parte achar que a filosofia grega não trouxe nenhuma contribuição positiva para a epistemologia cristã, embora não como fundamento base para derivar uma doutrina. O próprio apóstolo Paulo não ignorou a literatura grega (At17.28). Segundo Gordon Clark: "Não importa o quanto um estudante principiante gostaria de evitar a filosofia, mais cedo ou mais tarde ele enfrentará essas dificuldades ou resignará a teologia em desespero."

FALÁCIA 10: ANTICATOLICISMO

Há por parte de alguns, um ódio contra tudo que possa remeter às palavras, “pagã” e “católico”, de modo que qualquer dogma que supostamente tenha alguma ligação com essas palavras são atacadas com todas as forças. Alguns só negam a Trindade por amor ao judaísmo e ódio ao catolicismo, e não por apreço a verdade. É comum vermos pessoas levantando fatos históricos como a inquisição para invalidar a Trindade. Ignoram que quem revelou a doutrina da Trindade foi Deus e não a Igreja Romana.

FALÁCIA 11: CONFUSÃO ENTRE ECONOMIA E ONTOLOGIA


Por economicamente o Pai ser maior que o Filho e o Filho maior que o Espírito, acreditam que isso também seja válido ontologicamente. Boa parte das críticas levantadas contra a Trindade erra justamente neste ponto, apresentado a hierarquia funcional como argumento contra a igualdade essencial das Pessoas da Trindade. Esse equívoco se vê por aqueles que insistem em provar que o Pai é maior que o Filho e o Espírito menor que o Filho e que assim a Trindade é invalidada. É comum insistirem, a partir daí, que um sabe mais que o outro, que há diferença de poderes entre Eles, etc.. Tais argumentos acabam por confundir função com essência e por isso conduzem a essas conclusões desastrosas. Uma compreensão clara da hierarquia funcional entre as hipóstases da divindade e da igualdade essencial entre elas eliminaria muito dos argumentos falaciosos levantados contra a Trindade.

AMOR ERÓTICO EM CANTARES DE SALOMÃO


       Um preconceito que alguns tem é que a sexualidade só aparece nas Bíblia tendo por finalidade única a procriação e reprodução. No entanto, o Cântico dos Cânticos (também conhecido como Cantares de Salomão) nos mostra como mesmo dentro de um livro sacro judaico a sexualidade ganha nuances eróticas. "Quanto à temática do erótico, percebe -se que no poema “Cântico dos cânticos”, o erotismo, seja masculino, seja feminino, é ecoado pelo eu lírico presente em cada poema" (Alexandre, s.d., p.15). É importante perceber que a erotização presente no livro não restringe-se ao coito genital, mas também às carícias eróticas, o toque no corpo e o amor entre um casal. Salomão também fala disso em um outro livro que escreveu chamado Provérbios: “como cerva amorosa e donzela graciosa; saciem-te seus seios em todo o tempo; e pelo seu amor sê atraído perpetuamente.” (5.19)

O 'Cântico dos Cânticos de Salomão', vigésimo segundo livro da Bíblia, significa o maior e mais belo canto. Como o título sugere, provavelmente, na época em que foram compostos o Cântico dos Cânticos de Salomão eram cantados e não recitados, e seriam utilizados nas festividades do calendário judaico, com estrutura literária que nos remete à musicalidade. A autoria de Cântico dos Cânticos é atribuída a Salomão, filho e sucessor de Davi no reinado de Israel que ... foram compostos nos primeiros do reinado de Salomão que durou quarenta anos (971-931a.C.). (Dutra, 2011, p. 3)

Segue-se abaixo algumas passagens erotizadas do livros, citados conforme a versão O Livro (OL):

O meu amado é como uma macieira no meio das árvores do pomar, quando comparado com outros rapazes. Sento-me à sua desejada sombra; seu fruto é doce ao meu paladar. Leva-me até à sala do banquete, e toda a gente pode ver como me ama. Sustem-me com fruta, com uvas, com maçãs, pois que estou desfalecendo de amor. Põe-me a sua mão esquerda debaixo da cabeça e com a direita abraça-me ...Já o ouço, o meu amor! Lá vem ele, galopando sobre os montes, saltando por cima das colinas. O meu querido é como um gamo, ou o filho dum veado. Vejam, aí está ele, por detrás do nosso muro; agora, está já a olhar pelas janelas. Disse-me o meu amor: — Levanta-te, querida, minha bela, e vem. (2.3-6, 8-10)

Como são bonitos os teus pés ágeis, ó princesa! As voltas das tuas coxas são como joias, trabalhadas por mãos de artista. O teu umbigo, como uma artística taça, cheia de fino licor; teu ventre é um campo de trigo cercado de lírios. Teus dois seios parecem-me com gémeos de gazela... Como és formosa, como és encantadora, ó delícia de amor! Tens o porte altivo e elegante de uma palmeira. Teus peitos são como cachos de uvas. Disse eu assim: Hei-de subir à palmeira, e agarrar-me aos seus ramos. Que os teus seios são como cachos de vide e o hálito da tua respiração como o rescender de maçãs. Teus beijos dão a mesma alegria que o melhor dos vinhos, suave e doce, fazendo até com que falem os lábios dos que dormem. Eu sou do meu amado, e ele deseja-me. Vem, meu amor; vamos para os campos; passemos as noites nas aldeias. Levantemo-nos de manhã cedo e saiamos até às vinhas, a ver se já florescem as vides, se já se abrem as flores e se brotam as romeiras; ,ali te darei o meu grande amor. As mandrágoras exalam a sua fragrância, às nossas portas há toda a espécie de fruta, da mais excelente, nova e velha. Guardei-a para ti, meu amor.(7.1-3, 6-11)


REFERÊNCIAS

Alexandre, S. F. (s.d.). A IMAGÉTICA DO AMOR E DO SEXO URDIDOS PELA VOZ POÉTICA: em Cântico dos cânticos de Salomão. Artigo.

Dutra, D. T. C. (2011). CÂNTICO DOS CÂNTICOS DE SALOMÃO: Representação poética do iealismo amoroso. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade Estudual da Paraíba, Guarabira.