sábado, 31 de outubro de 2015

O QUE A BÍBLIA REALMENTE ENSINA ? - CAPÍTULO 4 - COMENTADO

Capítulo 4:  Quem é Jesus Cristo? (pp.37-46)
Bruno dos Santos Queiroz

Capítulo 4 de Testemunhas de Jeová, 2009.
Todos os versículos citados de acordo com Testemunhas de Jeová, 2015 (grifos meus).

“Ainda alguns acreditam que Jesus é Deus e deve ser adorado. Deve mesmo ser adorado?” (2)
Vamos responder essas duas perguntas: Jesus é Deus?

Vamos ver alguns versículos na Tradução do Novo Mundo:

Porque um menino nos nasceu, Um filho nos foi dado; E o reinado estará sobre os seus ombros. Ele receberá o nome de Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz. – Isaías9.6
Essa é a sabedoria que nenhum dos governantes deste sistema de coisas veio a conhecer, pois, se a tivessem conhecido, não teriam executado o glorioso Senhor.– 1 Coríntios 2.8
E: ‘Ó Senhor, no princípio lançaste os alicerces da terra, e os céus são obras das tuas mãos. – Hebreus 1.10
para nós há realmente um só Deus, o Pai, de quem procedem todas as coisas, e nós existimos para ele; e há um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem são todas as coisas, e nós existimos por meio dele. – 1 Coríntios 8.6
A razão é que se infiltraram entre vocês certos homens que há muito tempo foram designados pelas Escrituras para este julgamento; eles são homens ímpios, que transformam a bondade imerecida de nosso Deus numa desculpa para conduta insolente e que se mostram falsos para com o nosso único dono e Senhor, Jesus Cristo. – Judas.4

       Veja que Jesus é chamado de Deus Poderoso, Pai Eterno, Glorioso Senhor, o Senhor que criou o Universo, o único Senhor e o único Dono. Não está claro que Jesus é Deus?

Jesus deve ser adorado?

Vamos para uma outra passagem na Tradução do Novo Mundo:

E cantam um novo cântico: “O senhor é digno de pegar o rolo e de abrir os seus selos, pois foi morto e com o seu sangue comprou pessoas para Deus, de toda tribo, língua, povo e nação, e fez deles um reino e sacerdotes para o nosso Deus e eles reinarão sobre a terra.” Eu olhei, e ouvi a voz de muitos anjos em volta do trono, das criaturas viventes e dos anciãos, e o número deles era de miríades de miríades e milhares de milhares, e eles estavam dizendo em alta voz: “O Cordeiro que foi morto é digno de receber o poder, as riquezas, a sabedoria, a força, a honra, a glória e a bênção. E eu ouvi toda criatura no céu, na terra, debaixo da terra e no mar, sim, tudo que há neles, dizer: “Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro seja a bênção, a honra, a glória e o poder para todo o sempre.” As quatro criaturas viventes diziam: “Amém!” e os anciãos se prostraram e adoraram. – Apocalipse 5.9-14

       Note que o Cordeiro (Jesus) é digno de honra, glória, força, bênção e riqueza, e milhares de criaturas e miríades de anjo se prostram diante dele. Que é isso senão adoração? Compare isso com Apocalipse 4.11.

       Pensemos em uma terceira pergunta: Deve-se orar a Jesus? A oração é uma forma de adoração, vejamos algumas passagens na Tradução do Novo Mundo em que são dirigidas orações a Jesus:

Enquanto apedrejavam Estêvão, este fez o apelo: ‘Senhor Jesus, receba o meu espírito.’– Atos 7.59
Três vezes supliquei ao Senhor, pedindo que isso se afastasse de mim. Mas ele me disse: ‘A minha bondade imerecida é suficiente para você, pois o meu poder está sendo aperfeiçoado na fraqueza. ’ Com muita alegria, então, eu me gabarei das minhas fraquezas, para que o poder do Cristo permaneça sobre mim como uma tenda.  – 2Corintios 12.8-9

       Será que Estêvão e Paulo estavam errados ao orar à Jesus?

De onde Jesus veio? (p.41)

       Será que Jesus foi criado ou existe desde sempre? Vejamos o que dizem algumas passagens na Tradução do Novo Mundo:

Quando o vi, caí como que morto aos seus pés. Então ele pôs a mão direita sobre mim e disse: “Não tenha medo. Eu sou o Primeiro e o Último, – Apocalipse 1.17

       O título Primeiro e Último aduz ao texto de Isaías 44.6 (“Assim diz Jeová, O Rei de Israel e seu Resgatador, Jeová dos exércitos: ‘Sou o primeiro e sou o último; Além de mim não há Deus.”) e só pode ser aplicado a Jeová, como Aquele que existe desde sempre e para sempre. Dizer que Jesus é o Primeiro e o Último significa dizer que Ele é o princípio e o fim de todas as coisas, o Eterno.

Todas as coisas vieram a existir por meio dele, e sem ele nem mesmo uma só coisa veio a existir. – João 1.3

       Observe que nada existia antes de Jesus, tudo o que veio a existir veio a existir por meio dele. O tempo veio a existir por meio de Jesus, o que significa que Jesus é antes do tempo, eterno, atemporal.

O que significa dizer que Jesus é “primogênito de toda a criação” – Colossenses 1.15? (11)

       O termo “Primogênito” é um título, e não se refere a origem, mas sim a posição de Jesus, como Rei Soberano da Criação. Primogênito em Jesus significa “Soberano”, como mostra Salmos 89.27, em que Davi tipifica a Jesus como o Rei dos reis: E eu farei dele o primogênito, O maior dos reis da terra.’’

O que significa dizer que Jesus é “o Filho unigênito”– João 3.16? (11)

       A expressão Filho unigênito, não é usado em sentido de Filho biológico, mas de filiação de natureza. Unigênito significa que Jesus é Filho de Deus em sentido único, e “Filho” significa filiado a mesma natureza. Assim como a expressão Filho de Homem significa que Jesus possui uma natureza humana (Mateus26.64), a expressão Filho de Deus significa que Jesus possui uma natureza divina (Colossenses 2.9).  Veja esses versículos em que o termo Filho não significa “filho biológico”, ou “criado”, mas tem um sentido especial: Lucas 20.36, João 12.36, Efésios 5.8; 1 Tessalonicenses 5.5. A expressão “Filho” é uma maneira de destacar o relacionamento especial que só Jesus tem com o Pai. Tanto é que um pouco antes do versículo que chama Jesus de Filho unigênito, esse relacionamento especial é destacado: “Além disso, nenhum homem subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem.” (João3.13)

Em que sentido o Pai é maior que o Filho – João 14.28; 1 Coríntios 11.3? (12)

       Quando se fala da doutrina da Trindade é importante diferenciar “ontologia” de “economia”. Ontologia se refere a natureza divina que é compartilhada pelas pessoas da Trindade. Economia se refere às diferentes funções exercidas por essas pessoas. Em natureza (ontologia) as três pessoas da Trindade são iguais, mas no que diz respeito a economia existe uma hierarquia de funções. Isso é comparado com a submissão da mulher ao marido, que são iguais em valor, mas diferentes em funções. Jesus humildemente escolheu cumprir uma função menor que a do Pai, se submetendo ao domínio dEle:

Pelo contrário, ele abriu mão de tudo que tinha, assumiu a forma de escravo e se tornou humano. Mais do que isso, quando veio como homem, ele se humilhou e se tornou obediente a ponto de enfrentar a morte, sim, morte numa estaca.– Filipenses 2.7-8
No entanto, quando todas as coisas lhe tiverem sido sujeitas, então o próprio Filho também se sujeitará Àquele que lhe sujeitou todas as coisas, para que Deus seja todas as coisas para com todos. – 1 Coríntios 15.28

       Durante um período Jesus cumpriu uma função menor até mesmo que a dos seus discípulos: “Pois quem é maior: aquele que está à mesa ou aquele que serve? Não é quem está à mesa? Mas eu estou no meio de vocês como quem serve.” (Lucas 22.27) e foi feito inferior aos anjos: “Tu o fizeste um pouco menor que os anjos; tu o coroaste de glória e honra, e deste-lhe domínio sobre as obras das tuas mãos.” (Hebreus 2.7). Por isso é importante não confundir as funções (papeis) que Jesus cumpre com sua natureza que é igual à do Pai.  É como um humilde servo do Pai, que como destaca o final do capítulo 4, que Jesus foi fiel até o fim: “Jesus deu o melhor exemplo de obediência leal a Deus. Permaneceu fiel ao Pai celestial nas mais diferentes situações e com todo tipo de oposição e sofrimento.”(20)
       Respondendo a pergunta do capítulo 4: Quem é Jesus? Jesus é o Deus Todo Poderoso, Criador dos céus e da Terra, o Soberano dos reis de todo o mundo, que humildemente assumiu a função de servo permanecendo fiel até a morte.

REFERÊNCIAS

Testemunhas de Jeová (2009). O que a Bíblia realmente ensina? Cesário Lange: Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados.
Testemunhas de Jeová (2015). Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada. Cesário Lange: Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados: Cesário Lange.


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

REFORMA PROTESTANTE (PARTE V)

O Texto abaixo foi escrito por Lúcio Reis de Andrade, e portanto pode não apresentar ponto a ponto minha opinião. Caso você também queira colaborar com um texto para este Blog, é só me enviá-lo em arquivo word (texto em Times New Roman 12, espaçamento 2 e justificado) que ele pode ser publicado com os devidos créditos a quem escreveu. Email para enviar o arquivo word: araguaribrunosqueiroz@gmail.com

Enquanto que o luteranismo se expandia nas atuais Alemanha, Suécia, Dinamarca e Noruega, na Suíça se desenvolvia um tipo diferente de protestantismo. Iniciado por Ulrico Zuínglio, Guilherme Farel e João Calvino, o movimento protestante iniciado na Suíça foi chamado de reformado ou calvinista. Este movimento não só se limitou na área religiosa, também influenciou as áreas política, econômica e social.
Podemos dizer que este movimento foi bem mais radical que o luteranismo, pois se livrou totalmente das marcas da Igreja Católica: imagens, ícones, relíquias, quadros, peregrinações, peregrinações, roupas especiais para o dirigente do culto, etc. Outra diferença marcante é que o calvinismo quase não sofreu perseguição, dando mais tempo e mais tranquilidade para realizar a completa reforma da Igreja aos padrões bíblicos. Na época, a Suíça ainda era um estado centralizado, era uma confederação de cidades, independentes entre si, que formavam a nação suíça.

A Peregrinação Espiritual de Ulrico Zuínglio
O reformador suíço nasceu em janeiro de 1484, em uma pequena aldeia suíça. Dedicou-se aos estudos, logo aos 9 anos de idade, quando foi entregue aos cuidados de seu tio, o deão de Wesen. Após estudar com seu tio, estudou nas Universidades de Basileia, Berna, Viena e retornou a estudar em Basileia. Na época, o humanismo chegara ao apogeu na Suíça, e certamente Zuínglio foi fortemente influenciado, abrindo sua mente para a Reforma.
Após receber o título de Mestre em Artes em 1506, tornou-se sacerdote da aldeia de Glarus e dominou o grego. Zuínglio passou a se dedicar ao estudo profundo das Escrituras, examinou com atenção as doutrinas e as práticas da Igreja primitiva e logo percebeu que a Igreja Católica estava muito distante dos padrões bíblicos. O mais curioso disto tudo é que Zuínglio chegou a conclusão que a Igreja precisava de uma reforma urgente e retornar aos padrões sem qualquer dependência de Lutero. Ou seja, a reforma suíça não teve origem, nem ligação com a da Alemanha, era paralela a de Lutero.
Após passar dez anos em Glarus, Zuínglio foi nomeado sacerdote na Abadia de Einsiedeln, um centro de peregrinações. Neste lugar, Zuínglio pregou a necessidade urgente da reforma na Igreja e vários monges adotaram os princípios da Reforma.
Em 1519, o reformador suíço se tornou pároco da Catedral de Zurique, onde novamente pregou sobre as doutrinas reformadas e contra as superstições católicas, a venda de indulgências, o celibato, a missa e a corrupção que havia dentro do clero. Sua influência se tornou muito grande em Zurique, até mesmo sobre o governo da cidade. Quando alguém vendia indulgências, o reformador exigia a expulsão e com sucesso ao governo da cidade. Quando Francisco I pediu soldados à Confederação Suíça para enfrentar o exército de Carlos V, somente a cidade de Zurique se recusou, graças a influência do pregador.

O Rompimento com a Igreja Católica
O reformador suíço estava debaixo da autoridade do episcopado de Constança, que dava sinais de preocupação ao que ele pregava em Zurique. Quando foi acusado de heresia, o pregador suíço se defendeu ao rebater de forma bíblica as acusações. Assim, o reformador continuou autorizado pelo governo a pregar na cidade.
Para calar o pregador, o papa Adriano VI lhe ofereceu o cargo de cardeal, mas o reformador recusou o convite e ainda conseguiu que o governo da cidade convocasse um debate público entre ele e o vigário do bispo sobre as doutrinas reformadas. Centenas de pessoas se reuniram para ver o debate. Após Zuínglio defender as doutrinas reformadas dentro dos padrões bíblicos, o vigário se negou a provar que o reformador estava enganado e ninguém teve coragem para refutá-lo. Sendo assim, o governo da cidade decretou que o reformador continuaria pregando na cidade e que qualquer ministro religioso estava proibido de pregar uma doutrina fora das Escrituras Sagradas. Este fato marcou o rompimento do reformador e de Zurique com a Igreja Católica.
A partir daí, com o apoio do governo, a Reforma avançou rapidamente, a qual consistia na restauração da fé e das práticas bíblicas. Este era um ponto que a Reforma da Alemanha e da Suíça se diferenciavam. Lutero cria que as práticas tradicionais deveriam ser preservadas, e as que contradiziam as Escrituras deveriam ser eliminadas. Já Zuínglio cria que tudo aquilo que não encontrava base bíblica deveria ser eliminado (o princípio regulador). Até mesmo o órgão da igreja (um instrumento de música) foi eliminado por não ter base bíblica.
Sob a direção de Zuínglio, aconteceram rápidas e profundas mudanças: a hóstia foi substituída pela Santa Ceia, os sacerdotes, monges e freiras abandonaram o celibato por não ter respaldo bíblico, a missa foi substituída pelo culto bíblico e as imagens foram destruídas. Enquanto isso, os princípios da Reforma se espalhavam para outras cidades, principalmente em Berna, Basileia, Estrasburgo e Genebra.
Em 1529, Lutero e Zuínglio se encontraram no Colóquio de Marburgo, uma tentativa de unificar a Reforma suíça e alemã. Ambos os reformadores concordaram em 14 das 15 questões teológicas, a discordância era a respeito da Ceia. Enquanto que Lutero cria na consubstanciação, ou seja, Cristo estava presente fisicamente no pão e no vinho, Zuínglio cria acertadamente que o pão e o vinho eram símbolos do sacrifício de Cristo. Essa diferença de opinião entre ambos impediu a unificação da Reforma.
Enquanto isso, a rivalidade entre as cidades católicas e reformadas aumentava e a Suíça estava a um passo de uma guerra civil. A situação ficou insuportável quando as cidades católicas se aliaram ao imperador Carlos V, e foram consideradas traidoras pelas cidades reformadas. Em outubro de 1531, a cidades católicas atacaram de surpresa e derrotaram o exército de Zurique, no qual Zuínglio morreu em combate. Após um mês do conflito, foi firmada a paz de Cappel, no qual cada região escolhia qual religião ia professar. Sendo assim, a maioria das regiões se tornou protestante e o restante se tornou católico.

Guilherme Farel
De origem francesa, Farel aprendeu as doutrinas reformadas com Tiago Lefrèvre em Paris, e depois com o bispo de Meaux. Como a perseguição aos huguenotes (calvinistas franceses) estava muito forte, Farel se refugiou na Suíça, onde pregou com muito êxito as doutrinas reformadas.
Apesar do sucesso que as doutrinas reformadas causaram na Suíça francesa, na cidade de Genebra o trabalho do reformador francês avançava lentamente, com muita dificuldade. Diversas vezes os padres tentaram assassiná-lo, inúmeras vezes foi apedrejado e espancado e até foi envenenado, mas o Senhor o livrou da morte. Apesar das dificuldades, o trabalho na cidade de Genebra avançava aos poucos. Conseguiu que o governo aprovasse a abolição da missa, só era permitido pregar as doutrinas da Bíblia e a idolatria a imagens cessou. Depois disso, pregou com o mesmo êxito na cidade de Lausane.

A Peregrinação Espiritual de João Calvino
O futuro reformador francês nasceu na cidade de Noyon, em 10 de julho de 1509. Seu pai era advogado do clero local, secretário do bispo e procurador da biblioteca da catedral. Mais tarde, Calvino foi estudar na Universidade de Paris, visando se preparar para o sacerdócio, onde estudou sobre a escolástica e as humanidades, nas quais estudou principalmente o latim e a literatura clássica. De 1528-1531, Calvino estudou Direito em Orléans e Bourges e aprendeu grego com o luterano Melchior Wolmar.
Foi nesta época que Calvino se tornou admirador de Erasmo de Roterdã e se dedicou aos estudos humanistas. Depois, voltou à cidade de Paris, onde publicou um comentário do tratado ‘’Sobre a Clemência’’, do antigo filósofo romano, Sêneca. Ainda há poucas informações sobre como Calvino abandonou a fé católica e se tornou adeptos das doutrinas reformadas, mas o mais provável é que tenha sido por causa dos estudos humanistas, das Escrituras e da Patrística (período da Igreja primitiva). No ano de 1533, seu amigo Nicolau Cop, tornou-se reitor da Universidade de Paris, onde pregou sobre os ideais protestantes e exigia reforma na Igreja.
Em 1534, Francisco I deixou de tolerar os huguenotes e passou a persegui-los, assim Calvino teve que se refugiar na cidade de Basileia. Foi nesta cidade que o reformador francês concluiu seu projeto de resumir a fé cristã do ponto de vista protestante, em sua obra ‘’Institutas da Religião Cristã’’. A primeira edição foi escrita em latim, tinha 516 páginas e tratava apenas de 6 capítulos. O sucesso de sua obra foi tão grande que se esgotou em apenas nove meses. Assim, Calvino aprimorou e escreveu várias edições da sua maior obra. Sua última edição saiu em 1560, tratava de 80 capítulos reunidos em 4 volumes e escritos em latim e francês. Esta foi a primeira obra de teologia sistemática, o que fez de Calvino como o mais importante sintetizador da teologia protestante do século XVI.

O Reformador de Genebra
Enquanto aperfeiçoava as sucessivas edições das Institutas, Calvino estava determinado a prosseguir com seus estudos e ajudar os protestantes através de seus escritos. Sequer tinha sonho de se tornar pastor, muito menos pensava em se tornar um dos líderes da Reforma Protestante, pois se achava impotente para tais funções e se contentava em ser ótimo escritor. Para isso, seu próximo objetivo era estudar em Estrasburgo. Porém, depois que viajou para Ferrara (atual Itália) e depois para a França, não podia passar pelo caminho direto a Estrasburgo, devido a ocorrência de uma guerra. Assim, viu-se forçado a passar pela cidade de Genebra, para depois no outro dia chegar à cidade de Estrasburgo. Isso aconteceu no ano de 1536.
Na época, o trabalho missionário na cidade de Genebra avançava com muita dificuldade, pois o povo ainda estava preso as doutrinas da Igreja Católica, embora não houvesse perseguição aos protestantes na cidade. Assim que Guilherme Farel, missionário enviado da cidade de Berna, avistou Calvino, tentou com o todo o seu esforço convencer o reformador francês a ficar na cidade para ajudar a evangelizar e a reformar a cidade, mas Calvino se negou, dizendo que não podia interromper seus estudos. Quando não tinha esperança para convencer o jovem reformador de 28 anos, disse: ‘’Deus amaldiçoe teu descanso e a tranquilidade que buscas para estudar, se diante de uma obra tão grande te retiras e te negas a prestar socorro e ajuda’’. Calvino ficou espantado com a declaração de Farel e percebeu que estava fugindo da vontade de Deus, interrompeu sua viagem a Estrasburgo e ficou na cidade para auxiliar Farel na causa protestante.
A partir deste momento, Calvino se tornou pastor da cidade e professor de teologia e Farel era o seu colaborador. O reformador francês pregava contra a imoralidade do povo, entendia que os membros da Igreja deveriam viver de acordo com a Palavra de Deus e expulsava os membros mundanos e impenitentes. Porém, o povo ainda estava agarrado aos seus vícios, ainda obedecia aos padres, não gostava das restrições e proibições que Calvino fazia aos seus divertimentos mundanos e a Reforma ainda não tinha entrado no coração do povo. Assim, o povo expulsou Calvino da cidade, e Farel seguiu-o, isso em 1538.
Calvino viu o exílio como uma oportunidade para prosseguir seus estudos em Estrasburgo. Porém, nesta cidade, o reformador Martin Bucer, que já havia ajudado Lutero, encarregou Calvino de ajudar e reanimar os ânimos dos reformados franceses refugiados na cidade. Foi nesta cidade que Calvino conheceu e se casou com a viúva Idelete de Bure, que viveu até o ano de 1549.
Enquanto vivia em Estrasburgo, a cidade de Genebra estava em desordem. Assim, os mesmos que expulsaram o reformador, agora clamavam pela sua volta. No início o reformador resistiu em voltar à Genebra, mas depois aceitou o convite e voltou em 1531. Diferente da primeira vez na cidade, o reformador não teve oposição e trabalhou como pastor e pregador em Genebra por 24 anos.
O reformador francês dava muita importância a educação, e fundou a Universidade de Genebra em 1559. Assim, os estudantes se formavam segundo os princípios calvinistas. Sob sua liderança, a cidade de Genebra se tornou inspiração e modelo para outros reformadores. A cidade também se tornou centro de refugiados protestantes e de visitantes, inclusive o reformador escocês John Knox passou pela cidade e conheceu as doutrinas reformadas. Não só isso, como também o calvinismo se espalhou para a Escócia, Inglaterra, França, Holanda, Hungria, Espanha e Itália. Por isso, entre os reformados, Calvino se tornou o maior destaque, até mesmo sobre o fundador do calvinismo, Ulrico Zuínglio. O reformador francês morreu em 14 de maio de 1564, Teodoro Beza o sucedeu como líder religioso da cidade e na reitoria da Universidade.

Bibliografia:
GONZÁLEZ, Justo L. – História Ilustrada do Cristianismo, 2 vol. 2ª Ed. São Paulo: Vida Nova, 2012
KNIGHT, A. e ANGLIN, W. – História do Cristianismo. 2ª Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1983
MCGRATH, Alister – A Revolução Protestante. 1ª Ed. Brasília: Editora Palavra, 2012
SILVA, Paulo André Barbosa da – História da Igreja. Porto Alegre: Instituto Bíblico Esperança, 2013

Site de referência:



  Parte I

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

REFORMA PROTESTANTE (PARTE IV)

O Texto abaixo foi escrito por Lúcio Reis de Andrade, e portanto pode não apresentar ponto a ponto minha opinião. Caso você também queira colaborar com um texto para este Blog, é só me enviá-lo em arquivo word (texto em Times New Roman 12, espaçamento 2 e justificado) que ele pode ser publicado com os devidos créditos a quem escreveu. Email para enviar o arquivo word: araguaribrunosqueiroz@gmail.com


Em primeiro lugar, antes de estudarmos a Reforma promovida no Sacro Império Romano-Germânico (atual Alemanha) por Martinho Lutero, precisamos entender porque a Reforma não aconteceu e nem poderia acontecer nos tempos dos pré-reformadores. Em seguida, precisamos entender porque a Reforma aconteceu nos tempos de Lutero.
Na época dos pré-reformadores, apesar da crise moral que passava a Igreja, ainda gozava de muito prestígio e poder temporal. Nessa época, a Igreja ainda tinha muita influência no cenário político das nações européias e dominava a mentalidade do povo. Pouquíssimas pessoas ousavam contrariar as decisões e o poder do papa, nem mesmo os soberanos tinham essa coragem.
Porém, os rumos do continente estavam mudando a partir do século XIII. A Igreja Católica, além da crise moral, também passou por crise de liderança, mais conhecida como o Cativeiro da Babilônia (1378-1410), em que três papas chegaram a governar ao mesmo e disputavam o poder entre si, enfraquecendo o poder e a influência sobre o cenário político e o povo. Enquanto isso, os soberanos europeus (Henrique VIII da Inglaterra, Francisco I da Inglaterra e Carlos V da Espanha e do Sacro Império) ficavam cada vez mais poderosos e acabaram com a hegemonia política da Igreja Católica. Somando este fator com o brilhante trabalho feito pelos humanistas e os pré-reformadores, a mentalidade da população começou a mudar, passaram a duvidar e a questionar os dogmas católicos e a autoridade do papa. Assim, lentamente o caminho para a Reforma foi se abrindo. Em 1517, quando Martinho Lutero protestou contra a venda de indulgências, já era o momento certo de iniciar a Reforma.
Neste artigo, será abordado sobre a origem e o desenvolvimento da Reforma Protestante na atual Alemanha, promovida por Martinho Lutero a partir de 31 de outubro de 1517, quando fixou o documento que continha as 95 teses na porta da igreja de Wittenberg contra a venda de indulgências e as heresias católicas.

A Peregrinação Espiritual

O reformador alemão era filho de pais humildes e camponeses, nasceu em 10 de novembro de 1483, na cidade de Eisleben, na província alemã de Mansfield. Durante a infância, seus pais lhe deram uma rígida e reta educação religiosa, ensinando-o a ter respeito pela Igreja Católica. Na escola, Lutero também recebeu uma educação rígida. Aos 13 anos, seu pai mandou-o estudar na escola franciscana de Magdeburgo, onde praticava penitências e boas obras para absolver seus pecados diante de Deus. Foi o aluno mais devoto e dedicado da escola.
Com o tempo, sua família melhorou de condições de vida após seu pai possuir três fornos para a fundição de cobre e ser eleito vereador na cidade. Assim, aos 18 anos, Lutero passou a estudar direito na Universidade de Erfurt, onde se destacou como o aluno mais brilhante. Porém, aos 22 anos, enquanto passava por uma terrível tempestade, temeu a morte e o inferno, clamou: ‘’Santa Ana, salva-me e eu quero ser monge’’. Apesar do desgosto de seu pai e dos estudantes da Universidade, Martinho Lutero cumpriu a promessa e se tornou monge agostiniano.
Em 1507, aos 24 anos, Lutero se tornou padre e celebrou a primeira missa. Mais uma vez, Lutero se destacou e se tornou um monge exemplar, submetendo-se a todo tipo de disciplinas, jejuns, penitências e flagelações. Lutero seguia o caminho da igreja medieval, praticava boas obras para se salvar. Entretanto, por mais que tentava ser um monge perfeito, tornava-se cada vez mais culpado pelos seus pecados, sentia-se cada vez mais dominado pelo pecado. Sua alma era perturbada pela consciência que era pecador, não tinha paz. Em meio a luta contra o pecado, o vigário da ordem dos agostinianos, Staupitz, dava conselhos para Lutero sobre a misericórdia de Deus.
Em 1508, Staupitz nomeou Lutero para ser professor na Universidade de Wittenberg, fundada em 1502. A princípio, foi graduado a doutor em filosofia, e em 1509 se formou em bacharelado em teologia. Embora fosse cada vez mais íntimo da Palavra de Deus, ainda considerava o papa como representante de Cristo na Terra e ainda procurava se dedicar inteiramente à Igreja Católica.
No inverno de 1510, Lutero foi escolhido para ser o representante do convento agostiniano de Wittenberg para ir à cidade de Roma. Lutero fez a peregrinação à pé, achando que na cidade ia encontrar a paz que tanto procurava. Ficou um mês na cidade, fazendo peregrinações e missas. Todavia, só o que viu em Roma foi luxúria, adultério e todo o tipo de iniqüidade. A partir deste momento, deixou de ser leal a Roma e se agarrou mais firme do que nunca às Escrituras.
Quando Lutero leu ‘’O justo viverá da fé’’ (Rm 1:17), alcançou a paz que tanto almejava, logo a culpa pelos seus pecados foi embora e ele mesmo se sentiu como se tivesse ‘’nascido de novo’’ (Jo 3:3). Lutero finalmente entendeu que o homem é salvo por Deus através de Jesus Cristo, não pelas boas obras, e que a salvação depende unicamente da graça de Deus. A vida monástica e as ordenanças externas da religião perderam importância para o coração de Lutero, e passou a estudar profundamente as Escrituras em grego e em hebraico, principalmente as epístolas de Paulo. Depois que voltou para a cidade de Wittenberg, Lutero alcançou o título de doutorado da Bíblia e foi nomeado pregador de Wittenberg.

O Estopim da Reforma

Como já vimos, uma das maiores fontes de arrecadação de dinheiro para a Igreja Católica era a venda de indulgências para obter o perdão de pecados. Na época, o papa Leão X (1513-1521) necessitava arrecadar mais dinheiro para terminar de construir a Basílica de São Pedro. Portanto, autorizou o arcebispo Alberto de Brandemburgo, por meio do frade dominicano João Tetzel, a vender indulgências na atual Alemanha. Tetzel era muito famoso por vender indulgências, e dizia que ao comprar uma indulgência, o pecador ficava ‘’mais limpo que saíra do batismo’’, ‘’mais limpo do que Adão antes de cair’’, que ‘’a cruz do vendedor de indulgências tinha tanto poder quanto a cruz de Cristo’’ e quando comprava uma indulgência para um parente já morto, ‘’tão pronto a moeda que caísse no cofre, a alma saía do purgatório’’. Teztel também dizia que já tinha salvo mais almas do que Pedro com os seus sermões.
Foi então que Martinho Lutero fixou as 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, contra a venda de indulgências e outras heresias católicas e desafiou a cristandade para um debate sobre o assunto. Esta data é considerada como o estopim para a Reforma Protestante, iniciando o maior avivamento da história da Igreja. Por meio da imprensa, as cópias das 95 teses se espalharam por toda a atual Alemanha.
Subestimando o problema como uma simples ‘’briga de monges’’, o papa convocou a ordem dos agostinianos em Heidelberg, para debater sobre o assunto. Para a surpresa de Lutero, muitos monges aprovaram seus ideais. Percebendo que estava enganado, o papa ordenou o cardeal Cajetano de convencer a Lutero a se retratar. Caso o reformador se negasse, deveria ser levado prisioneiro a Roma, mesmo que contasse com o salvo-conduto do eleitor Frederico da Saxônia. Como se negou, Lutero saiu da cidade e se escondeu no meio da noite. Na manhã seguinte, regressou a Wittenberg e apelou a um concílio geral.
Quando o imperador Maximiliano morreu, seu trono ficou vago. Havia dois candidatos: Carlos I (rei da Espanha) e Francisco I (rei da França). Mais tarde, vamos explicar como a disputa pelo trono alemão influenciou os rumos da Reforma alemã.

A Disputa de Leipzig

Em 1519, o teólogo católico e professor da Universidade de Ingolstadt, João Eck, promoveu um debate com Carlstadt, professor de Wittenberg e adepto das idéias de Lutero. Ao saber do debate, o reformador alemão também se envolveu. Lutero declarou no debate que a autoridade dos concílios e do papa eram contrárias às Escrituras.
A partir deste momento, a causa do movimento protestante ficou mais forte, pois Lutero ganhava cada vez mais simpatizantes de suas idéias. Os professores das universidades alemãs e os sacerdotes mais zelosos criam que o monge agostiniano era defensor da fé bíblica, os humanistas apoiaram o reformador por verem nele como o defensor da reforma que os próprios discutiam há muito tempo. Já os nacionalistas viram no monge como o porta-voz diante dos abusos de Roma ao cobrar enormes quantias de dinheiro ao povo alemão. E, por último, os cavaleiros alemães lhe prometeram até apoio armado, caso se estourar algum conflito.
Enquanto isso, Lutero desenvolveu uma atividade literária fora do comum, escrevendo os livros ‘’À Nobreza da Nação Alemã’’, ‘’Sobre a Liberdade do Cristão’’ e o ‘’Cativeiro Babilônico da Igreja’’. Em 1520, o papa excomungou o monge e ordenou que seus escritos fossem queimados. Como resposta ao papa, o reformador queimou a bula de excomunhão e os livros com doutrinas católicas em praça pública, marcando o rompimento entre Lutero e a Igreja Católica.

A Dieta de Worms

 O rei da Espanha, Carlos I (foi chamado de Carlos V na atual Alemanha), foi eleito imperador do Sacro Império Romano-Germânico, tornando-se o monarca mais poderoso da terra, com possessões na Espanha, nas atuais Holanda e Bélgica, algumas regiões na atual Itália, Áustria e grande parte da América. Para o rei que era católico convicto, um império unido precisa de uma igreja unida. Ele teria acabado prontamente com o reformador, se não tivesse a disputa contra Francisco I e ameaça dos turcos otomanos de invadirem a Áustria. Assim, Carlos V dependia da ajuda dos príncipes alemães que apoiavam a causa do movimento protestante.
Sendo assim, o imperador convocou a Dieta (Parlamento ou Assembléia) de Worms para derrotar Lutero. Antes de comparecer a cidade de Worms, o reformador exclamou: ‘’mesmo que houvesse tantos demônios como telhas nos telhados em Worms, assim mesmo eu iria’’. Para que não fosse torturado durante o julgamento, Frederico I da Saxônia e os demais príncipes lhe concederam o salvo-conduto.
Quando chegou a Dieta de Worms, o imperador lhe perguntou se havia escrito os livros presentes no julgamento. Lutero afirmou que escreveu os livros e outros que não estavam presentes na dieta. Em seguida, o imperador lhe perguntou se retrataria. Lutero disse: ‘’Não posso, nem quero me retratar a menos que seja convencido de erro por meio da palavra bíblica ou por outros argumentos claros, porque não é aconselhável agir contra a consciência. Aqui estou, de outra maneira não posso. Que Deus me ajude. Amém’’.
A Dieta acabou em grande confusão. Enquanto os espanhóis presentes na ocasião gritavam ‘’fogueira com ele!’’, os príncipes alemães protegeram Lutero. Mesmo assim, o imperador publicou o edito de Worms, que tornou Lutero um criminoso, entretanto foi ignorado no Sacro Império.  

Lutero em Wartburgo

Enquanto retornava para a Saxônia, o imperador comandava um plano de assassinar o reformador assim que chegasse em Wittenberg. Porém, a carruagem do reformador foi atacada no meio do caminho por cavaleiros encapuzados, que o levaram para o castelo de Wartburgo, salvando a vida de Lutero. Estes cavaleiros eram súditos do príncipe da Saxônia. Enquanto estava no castelo, o reformador deixou a barba crescer e foi chamado de ‘’Cavaleiro Jorge’’. Foi neste castelo que Lutero começou a traduzir o Novo Testamento para a língua alemã, que terminou em dois anos. Depois, levou dez anos para traduzir o Antigo Testamento para o povo. A tradução da Bíblia para o alemão foi sua maior contribuição.
O exílio em Wartburgo chegou no momento certo, pois Carlos V estava disposto a exterminar o reformador. Porém, o imperador tinha problemas maiores para resolver, como por exemplo, as tensões com Francisco I e a ameaça de invasão na Áustria pelos turcos. O monarca francês estava com inveja do imenso poder do imperador e diversas vezes entrou em combate armado. As batalhas só cessaram quando o rei francês foi feito prisioneiro pelas tropas imperiais. Ambos os soberanos firmaram um tratado de paz, porém Francisco I se uniu ao papa Clemente VII e declararam guerra ao imperador. Em 1527, as tropas imperiais invadiram e saquearam a cidade de Roma. Somente em 1529, os franceses, o papa e o imperador assinaram um tratado de paz. Quando parecia livre para exterminar o luteranismo, novamente sofria ameaças externas. Os turcos invadiram a cidade Viena, capital da Áustria, e o imperador se viu obrigado a deixar questão luterana de lado e expulsar os invasores.
Enquanto isso, a cidade de Wittenberg passava por uma reforma conduzida por Filipe Melanchton e Carlstadt. Muitos monges e monjas deixaram seus conventos e se casaram, o culto foi simplificado e o alemão tomou o lugar do latim nos cultos, o culto aos mortos foi extinto e os dias de jejum foram cancelados.
Tudo isso era visto como agrado para Lutero. Porém, quando Carlstadt organizou um levante formado por camponeses em Münster, Lutero resolveu sair do castelo. Retornando a Wittenberg, convenceu Carlstadt de desistir do levante em oito dias de pregação. Já no caso da revolta dos anabatistas, o reformador exigiu dos príncipes que a rebelião fosse esmagada. A conseqüência da repressão impiedosa contra os camponeses foi terrível para a causa protestante alemã. Os príncipes católicos culparam Lutero pela revolta e impediram de pregar a reforma em seus territórios. Já os camponeses, abandonaram o luteranismo e regressaram à velha fé ou se tornaram anabatistas.
Mais tarde, Erasmo de Roterdã debateu com Lutero sobre predestinação ou livre-arbítrio, onde lançou o livro ‘’O Livre Arbítrio’’, onde defendia o sinergismo, isto é, o homem coopera na sua própria salvação com Deus. Em resposta, Lutero lançou o livro ‘’Arbítrio Escravo’’, que refuta o livre arbítrio, dizendo que se o homem crê em Deus para a salvação, é porque primeiro Deus o elegeu antes da fundação do mundo (Ef 1:4-6, Rm 8:29-30), pois por causa do pecado original, herdado de Adão, o homem por si próprio está totalmente incapacitado de crer em Deus para a salvação (Rm 1:20-21, 3:10-12). Por causa deste debate, Lutero rompeu a aliança com Erasmo e os demais humanistas.   

 As Dietas do Império

Em 1523, enquanto Carlos V estava ocupado na guerra contra a França e o papa, foi convocado a Dieta de Nuremberg, onde o luteranismo foi tolerado na Alemanha. Depois, em 1529, na primeira Dieta de Spire, foi decidida a anulação do edito de Worms e cada província tinha liberdade de professar sua religião. Áustria e os principados do sul da Alemanha se manteram católicos, enquanto o restante da Alemanha se tornou luterano.
Em 1529, após firmar um tratado de paz com Francisco I, o imperador voltou para a Alemanha mais poderoso e vários principados se voltaram para o lado católico, o edito de Worms foi validado. Assim, o luteranismo estava ameaçado de ser perseguido. Por isso, os príncipes luteranos protestaram formalmente, passando a ser chamados de ‘’protestantes’’, a origem do nome do movimento revolucionário.
No ano seguinte, Carlos V convocou a Dieta de Augsburgo. No momento, o imperador não estava disposto a debater sobre o edito de Worms, mas por causa dos acontecimentos posteriores, pediu que apresentassem uma exposição ordenada dos pontos em discussão. O documento foi preparado por Filipe Melanchton, aliado de Lutero, mais conhecido como Confissão de Augsburgo. Na ocasião, a maioria dos principados alemães aderiu a confissão de fé. Com o resultado, o imperador pediu aos protestantes se retratarem até abril do ano seguinte.
Diante da ameaça do imperador em unir a força dos espanhóis com os príncipes alemães católicos, o luteranismo estava ameaçado de ser exterminado. Assim, os príncipes protestantes formaram a União de Esmalcalda, cujo principal objetivo era de fornecer resistência ao edito imperial, caso Carlos V o impusesse pelas armas.
Porém, novamente a política externa atrapalhou os planos do imperador. Francisco I estava se preparando para uma nova guerra, e os turcos queriam vingança após a campanha fracassada em Viena, na Áustria. Assim, o imperador teve que contar com o apoio de todos os príncipes alemães, inclusive os protestantes. Com isso, os católicos e os protestantes voltaram a negociar, chegando ao acordo, chamado de Paz de Nuremberg, em 1532. Segundo o acordo, os protestantes estavam livres para praticar sua religião e o edito de Augsburgo foi cancelado, mas em troca não deveriam estender o luteranismo para os principados católicos, ofereceriam ajuda ao imperador contra os turcos e não iriam além dos termos assinados na Confissão de Augsburgo. Mesmo após o acordo, o luteranismo continuar a se expandir nos territórios católicos. Não só isso, como também o movimento se expandiu para a Noruega, Suécia e Dinamarca.

Bibliografia:

BOYER, Orlando – Heróis da Fé. Rio de Janeiro: CPAD, 2013
GONZÁLEZ, Justo L. – História Ilustrada do Cristianismo, 2 vol. 2ª Ed. São Paulo: Vida Nova, 2012
KNIGHT, A. e ANGLIN, W. – História do Cristianismo. 2ª Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1983
SILVA, Paulo André Barbosa da – História da Igreja. Porto Alegre: Instituto Bíblico Esperança, 2013