segunda-feira, 26 de outubro de 2015

REFORMA PROTESTANTE (PARTE IV)

O Texto abaixo foi escrito por Lúcio Reis de Andrade, e portanto pode não apresentar ponto a ponto minha opinião. Caso você também queira colaborar com um texto para este Blog, é só me enviá-lo em arquivo word (texto em Times New Roman 12, espaçamento 2 e justificado) que ele pode ser publicado com os devidos créditos a quem escreveu. Email para enviar o arquivo word: araguaribrunosqueiroz@gmail.com


Em primeiro lugar, antes de estudarmos a Reforma promovida no Sacro Império Romano-Germânico (atual Alemanha) por Martinho Lutero, precisamos entender porque a Reforma não aconteceu e nem poderia acontecer nos tempos dos pré-reformadores. Em seguida, precisamos entender porque a Reforma aconteceu nos tempos de Lutero.
Na época dos pré-reformadores, apesar da crise moral que passava a Igreja, ainda gozava de muito prestígio e poder temporal. Nessa época, a Igreja ainda tinha muita influência no cenário político das nações européias e dominava a mentalidade do povo. Pouquíssimas pessoas ousavam contrariar as decisões e o poder do papa, nem mesmo os soberanos tinham essa coragem.
Porém, os rumos do continente estavam mudando a partir do século XIII. A Igreja Católica, além da crise moral, também passou por crise de liderança, mais conhecida como o Cativeiro da Babilônia (1378-1410), em que três papas chegaram a governar ao mesmo e disputavam o poder entre si, enfraquecendo o poder e a influência sobre o cenário político e o povo. Enquanto isso, os soberanos europeus (Henrique VIII da Inglaterra, Francisco I da Inglaterra e Carlos V da Espanha e do Sacro Império) ficavam cada vez mais poderosos e acabaram com a hegemonia política da Igreja Católica. Somando este fator com o brilhante trabalho feito pelos humanistas e os pré-reformadores, a mentalidade da população começou a mudar, passaram a duvidar e a questionar os dogmas católicos e a autoridade do papa. Assim, lentamente o caminho para a Reforma foi se abrindo. Em 1517, quando Martinho Lutero protestou contra a venda de indulgências, já era o momento certo de iniciar a Reforma.
Neste artigo, será abordado sobre a origem e o desenvolvimento da Reforma Protestante na atual Alemanha, promovida por Martinho Lutero a partir de 31 de outubro de 1517, quando fixou o documento que continha as 95 teses na porta da igreja de Wittenberg contra a venda de indulgências e as heresias católicas.

A Peregrinação Espiritual

O reformador alemão era filho de pais humildes e camponeses, nasceu em 10 de novembro de 1483, na cidade de Eisleben, na província alemã de Mansfield. Durante a infância, seus pais lhe deram uma rígida e reta educação religiosa, ensinando-o a ter respeito pela Igreja Católica. Na escola, Lutero também recebeu uma educação rígida. Aos 13 anos, seu pai mandou-o estudar na escola franciscana de Magdeburgo, onde praticava penitências e boas obras para absolver seus pecados diante de Deus. Foi o aluno mais devoto e dedicado da escola.
Com o tempo, sua família melhorou de condições de vida após seu pai possuir três fornos para a fundição de cobre e ser eleito vereador na cidade. Assim, aos 18 anos, Lutero passou a estudar direito na Universidade de Erfurt, onde se destacou como o aluno mais brilhante. Porém, aos 22 anos, enquanto passava por uma terrível tempestade, temeu a morte e o inferno, clamou: ‘’Santa Ana, salva-me e eu quero ser monge’’. Apesar do desgosto de seu pai e dos estudantes da Universidade, Martinho Lutero cumpriu a promessa e se tornou monge agostiniano.
Em 1507, aos 24 anos, Lutero se tornou padre e celebrou a primeira missa. Mais uma vez, Lutero se destacou e se tornou um monge exemplar, submetendo-se a todo tipo de disciplinas, jejuns, penitências e flagelações. Lutero seguia o caminho da igreja medieval, praticava boas obras para se salvar. Entretanto, por mais que tentava ser um monge perfeito, tornava-se cada vez mais culpado pelos seus pecados, sentia-se cada vez mais dominado pelo pecado. Sua alma era perturbada pela consciência que era pecador, não tinha paz. Em meio a luta contra o pecado, o vigário da ordem dos agostinianos, Staupitz, dava conselhos para Lutero sobre a misericórdia de Deus.
Em 1508, Staupitz nomeou Lutero para ser professor na Universidade de Wittenberg, fundada em 1502. A princípio, foi graduado a doutor em filosofia, e em 1509 se formou em bacharelado em teologia. Embora fosse cada vez mais íntimo da Palavra de Deus, ainda considerava o papa como representante de Cristo na Terra e ainda procurava se dedicar inteiramente à Igreja Católica.
No inverno de 1510, Lutero foi escolhido para ser o representante do convento agostiniano de Wittenberg para ir à cidade de Roma. Lutero fez a peregrinação à pé, achando que na cidade ia encontrar a paz que tanto procurava. Ficou um mês na cidade, fazendo peregrinações e missas. Todavia, só o que viu em Roma foi luxúria, adultério e todo o tipo de iniqüidade. A partir deste momento, deixou de ser leal a Roma e se agarrou mais firme do que nunca às Escrituras.
Quando Lutero leu ‘’O justo viverá da fé’’ (Rm 1:17), alcançou a paz que tanto almejava, logo a culpa pelos seus pecados foi embora e ele mesmo se sentiu como se tivesse ‘’nascido de novo’’ (Jo 3:3). Lutero finalmente entendeu que o homem é salvo por Deus através de Jesus Cristo, não pelas boas obras, e que a salvação depende unicamente da graça de Deus. A vida monástica e as ordenanças externas da religião perderam importância para o coração de Lutero, e passou a estudar profundamente as Escrituras em grego e em hebraico, principalmente as epístolas de Paulo. Depois que voltou para a cidade de Wittenberg, Lutero alcançou o título de doutorado da Bíblia e foi nomeado pregador de Wittenberg.

O Estopim da Reforma

Como já vimos, uma das maiores fontes de arrecadação de dinheiro para a Igreja Católica era a venda de indulgências para obter o perdão de pecados. Na época, o papa Leão X (1513-1521) necessitava arrecadar mais dinheiro para terminar de construir a Basílica de São Pedro. Portanto, autorizou o arcebispo Alberto de Brandemburgo, por meio do frade dominicano João Tetzel, a vender indulgências na atual Alemanha. Tetzel era muito famoso por vender indulgências, e dizia que ao comprar uma indulgência, o pecador ficava ‘’mais limpo que saíra do batismo’’, ‘’mais limpo do que Adão antes de cair’’, que ‘’a cruz do vendedor de indulgências tinha tanto poder quanto a cruz de Cristo’’ e quando comprava uma indulgência para um parente já morto, ‘’tão pronto a moeda que caísse no cofre, a alma saía do purgatório’’. Teztel também dizia que já tinha salvo mais almas do que Pedro com os seus sermões.
Foi então que Martinho Lutero fixou as 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, contra a venda de indulgências e outras heresias católicas e desafiou a cristandade para um debate sobre o assunto. Esta data é considerada como o estopim para a Reforma Protestante, iniciando o maior avivamento da história da Igreja. Por meio da imprensa, as cópias das 95 teses se espalharam por toda a atual Alemanha.
Subestimando o problema como uma simples ‘’briga de monges’’, o papa convocou a ordem dos agostinianos em Heidelberg, para debater sobre o assunto. Para a surpresa de Lutero, muitos monges aprovaram seus ideais. Percebendo que estava enganado, o papa ordenou o cardeal Cajetano de convencer a Lutero a se retratar. Caso o reformador se negasse, deveria ser levado prisioneiro a Roma, mesmo que contasse com o salvo-conduto do eleitor Frederico da Saxônia. Como se negou, Lutero saiu da cidade e se escondeu no meio da noite. Na manhã seguinte, regressou a Wittenberg e apelou a um concílio geral.
Quando o imperador Maximiliano morreu, seu trono ficou vago. Havia dois candidatos: Carlos I (rei da Espanha) e Francisco I (rei da França). Mais tarde, vamos explicar como a disputa pelo trono alemão influenciou os rumos da Reforma alemã.

A Disputa de Leipzig

Em 1519, o teólogo católico e professor da Universidade de Ingolstadt, João Eck, promoveu um debate com Carlstadt, professor de Wittenberg e adepto das idéias de Lutero. Ao saber do debate, o reformador alemão também se envolveu. Lutero declarou no debate que a autoridade dos concílios e do papa eram contrárias às Escrituras.
A partir deste momento, a causa do movimento protestante ficou mais forte, pois Lutero ganhava cada vez mais simpatizantes de suas idéias. Os professores das universidades alemãs e os sacerdotes mais zelosos criam que o monge agostiniano era defensor da fé bíblica, os humanistas apoiaram o reformador por verem nele como o defensor da reforma que os próprios discutiam há muito tempo. Já os nacionalistas viram no monge como o porta-voz diante dos abusos de Roma ao cobrar enormes quantias de dinheiro ao povo alemão. E, por último, os cavaleiros alemães lhe prometeram até apoio armado, caso se estourar algum conflito.
Enquanto isso, Lutero desenvolveu uma atividade literária fora do comum, escrevendo os livros ‘’À Nobreza da Nação Alemã’’, ‘’Sobre a Liberdade do Cristão’’ e o ‘’Cativeiro Babilônico da Igreja’’. Em 1520, o papa excomungou o monge e ordenou que seus escritos fossem queimados. Como resposta ao papa, o reformador queimou a bula de excomunhão e os livros com doutrinas católicas em praça pública, marcando o rompimento entre Lutero e a Igreja Católica.

A Dieta de Worms

 O rei da Espanha, Carlos I (foi chamado de Carlos V na atual Alemanha), foi eleito imperador do Sacro Império Romano-Germânico, tornando-se o monarca mais poderoso da terra, com possessões na Espanha, nas atuais Holanda e Bélgica, algumas regiões na atual Itália, Áustria e grande parte da América. Para o rei que era católico convicto, um império unido precisa de uma igreja unida. Ele teria acabado prontamente com o reformador, se não tivesse a disputa contra Francisco I e ameaça dos turcos otomanos de invadirem a Áustria. Assim, Carlos V dependia da ajuda dos príncipes alemães que apoiavam a causa do movimento protestante.
Sendo assim, o imperador convocou a Dieta (Parlamento ou Assembléia) de Worms para derrotar Lutero. Antes de comparecer a cidade de Worms, o reformador exclamou: ‘’mesmo que houvesse tantos demônios como telhas nos telhados em Worms, assim mesmo eu iria’’. Para que não fosse torturado durante o julgamento, Frederico I da Saxônia e os demais príncipes lhe concederam o salvo-conduto.
Quando chegou a Dieta de Worms, o imperador lhe perguntou se havia escrito os livros presentes no julgamento. Lutero afirmou que escreveu os livros e outros que não estavam presentes na dieta. Em seguida, o imperador lhe perguntou se retrataria. Lutero disse: ‘’Não posso, nem quero me retratar a menos que seja convencido de erro por meio da palavra bíblica ou por outros argumentos claros, porque não é aconselhável agir contra a consciência. Aqui estou, de outra maneira não posso. Que Deus me ajude. Amém’’.
A Dieta acabou em grande confusão. Enquanto os espanhóis presentes na ocasião gritavam ‘’fogueira com ele!’’, os príncipes alemães protegeram Lutero. Mesmo assim, o imperador publicou o edito de Worms, que tornou Lutero um criminoso, entretanto foi ignorado no Sacro Império.  

Lutero em Wartburgo

Enquanto retornava para a Saxônia, o imperador comandava um plano de assassinar o reformador assim que chegasse em Wittenberg. Porém, a carruagem do reformador foi atacada no meio do caminho por cavaleiros encapuzados, que o levaram para o castelo de Wartburgo, salvando a vida de Lutero. Estes cavaleiros eram súditos do príncipe da Saxônia. Enquanto estava no castelo, o reformador deixou a barba crescer e foi chamado de ‘’Cavaleiro Jorge’’. Foi neste castelo que Lutero começou a traduzir o Novo Testamento para a língua alemã, que terminou em dois anos. Depois, levou dez anos para traduzir o Antigo Testamento para o povo. A tradução da Bíblia para o alemão foi sua maior contribuição.
O exílio em Wartburgo chegou no momento certo, pois Carlos V estava disposto a exterminar o reformador. Porém, o imperador tinha problemas maiores para resolver, como por exemplo, as tensões com Francisco I e a ameaça de invasão na Áustria pelos turcos. O monarca francês estava com inveja do imenso poder do imperador e diversas vezes entrou em combate armado. As batalhas só cessaram quando o rei francês foi feito prisioneiro pelas tropas imperiais. Ambos os soberanos firmaram um tratado de paz, porém Francisco I se uniu ao papa Clemente VII e declararam guerra ao imperador. Em 1527, as tropas imperiais invadiram e saquearam a cidade de Roma. Somente em 1529, os franceses, o papa e o imperador assinaram um tratado de paz. Quando parecia livre para exterminar o luteranismo, novamente sofria ameaças externas. Os turcos invadiram a cidade Viena, capital da Áustria, e o imperador se viu obrigado a deixar questão luterana de lado e expulsar os invasores.
Enquanto isso, a cidade de Wittenberg passava por uma reforma conduzida por Filipe Melanchton e Carlstadt. Muitos monges e monjas deixaram seus conventos e se casaram, o culto foi simplificado e o alemão tomou o lugar do latim nos cultos, o culto aos mortos foi extinto e os dias de jejum foram cancelados.
Tudo isso era visto como agrado para Lutero. Porém, quando Carlstadt organizou um levante formado por camponeses em Münster, Lutero resolveu sair do castelo. Retornando a Wittenberg, convenceu Carlstadt de desistir do levante em oito dias de pregação. Já no caso da revolta dos anabatistas, o reformador exigiu dos príncipes que a rebelião fosse esmagada. A conseqüência da repressão impiedosa contra os camponeses foi terrível para a causa protestante alemã. Os príncipes católicos culparam Lutero pela revolta e impediram de pregar a reforma em seus territórios. Já os camponeses, abandonaram o luteranismo e regressaram à velha fé ou se tornaram anabatistas.
Mais tarde, Erasmo de Roterdã debateu com Lutero sobre predestinação ou livre-arbítrio, onde lançou o livro ‘’O Livre Arbítrio’’, onde defendia o sinergismo, isto é, o homem coopera na sua própria salvação com Deus. Em resposta, Lutero lançou o livro ‘’Arbítrio Escravo’’, que refuta o livre arbítrio, dizendo que se o homem crê em Deus para a salvação, é porque primeiro Deus o elegeu antes da fundação do mundo (Ef 1:4-6, Rm 8:29-30), pois por causa do pecado original, herdado de Adão, o homem por si próprio está totalmente incapacitado de crer em Deus para a salvação (Rm 1:20-21, 3:10-12). Por causa deste debate, Lutero rompeu a aliança com Erasmo e os demais humanistas.   

 As Dietas do Império

Em 1523, enquanto Carlos V estava ocupado na guerra contra a França e o papa, foi convocado a Dieta de Nuremberg, onde o luteranismo foi tolerado na Alemanha. Depois, em 1529, na primeira Dieta de Spire, foi decidida a anulação do edito de Worms e cada província tinha liberdade de professar sua religião. Áustria e os principados do sul da Alemanha se manteram católicos, enquanto o restante da Alemanha se tornou luterano.
Em 1529, após firmar um tratado de paz com Francisco I, o imperador voltou para a Alemanha mais poderoso e vários principados se voltaram para o lado católico, o edito de Worms foi validado. Assim, o luteranismo estava ameaçado de ser perseguido. Por isso, os príncipes luteranos protestaram formalmente, passando a ser chamados de ‘’protestantes’’, a origem do nome do movimento revolucionário.
No ano seguinte, Carlos V convocou a Dieta de Augsburgo. No momento, o imperador não estava disposto a debater sobre o edito de Worms, mas por causa dos acontecimentos posteriores, pediu que apresentassem uma exposição ordenada dos pontos em discussão. O documento foi preparado por Filipe Melanchton, aliado de Lutero, mais conhecido como Confissão de Augsburgo. Na ocasião, a maioria dos principados alemães aderiu a confissão de fé. Com o resultado, o imperador pediu aos protestantes se retratarem até abril do ano seguinte.
Diante da ameaça do imperador em unir a força dos espanhóis com os príncipes alemães católicos, o luteranismo estava ameaçado de ser exterminado. Assim, os príncipes protestantes formaram a União de Esmalcalda, cujo principal objetivo era de fornecer resistência ao edito imperial, caso Carlos V o impusesse pelas armas.
Porém, novamente a política externa atrapalhou os planos do imperador. Francisco I estava se preparando para uma nova guerra, e os turcos queriam vingança após a campanha fracassada em Viena, na Áustria. Assim, o imperador teve que contar com o apoio de todos os príncipes alemães, inclusive os protestantes. Com isso, os católicos e os protestantes voltaram a negociar, chegando ao acordo, chamado de Paz de Nuremberg, em 1532. Segundo o acordo, os protestantes estavam livres para praticar sua religião e o edito de Augsburgo foi cancelado, mas em troca não deveriam estender o luteranismo para os principados católicos, ofereceriam ajuda ao imperador contra os turcos e não iriam além dos termos assinados na Confissão de Augsburgo. Mesmo após o acordo, o luteranismo continuar a se expandir nos territórios católicos. Não só isso, como também o movimento se expandiu para a Noruega, Suécia e Dinamarca.

Bibliografia:

BOYER, Orlando – Heróis da Fé. Rio de Janeiro: CPAD, 2013
GONZÁLEZ, Justo L. – História Ilustrada do Cristianismo, 2 vol. 2ª Ed. São Paulo: Vida Nova, 2012
KNIGHT, A. e ANGLIN, W. – História do Cristianismo. 2ª Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1983
SILVA, Paulo André Barbosa da – História da Igreja. Porto Alegre: Instituto Bíblico Esperança, 2013 

Nenhum comentário: