quarta-feira, 25 de novembro de 2015

DIFERENTES PERSPECTIVAS SOBRE A DEPRESSÃO



O MODELO PSIQUIÁTRICO DE DEPRESSÃO 

        A depressão é uma psicopatologia conforme os principais manuais de psiquiatria (Vasconcellos, Rocha & Maciel, 2010). A depressão é um transtorno mental incapacitante (Fleck, Laer, Del Porto, Brasil & Juruena, 2001), sendo relativamente comum e de curso crônico (Fleck, Berlim, Lafer, Sougey, Porto, Brasil; Juruena & Hetem, 2009). Esse transtorno é resultado de um desequilíbrio neuroquímico no cérebro, não sendo, portanto uma tristeza profunda, mas uma doença desencadeada por um problema cerebral.
       Desse modo podem-se localizar regiões cerebrais que em geral se encontram em desequilíbrio num paciente grandemente depressivo, tais como redução do volume e aumento do metabolismo no lobo frontal do cérebro, nos núcleos da base, nas regiões medianas e temporais do cérebro e no sistema límbico. Este último está relacionado com as emoções que são desencadeadas no corpo como um sistema de ações complexas atuantes no corpo que são sentidas a nível cortical como “sentimentos”.  As disfunções relacionadas aos núcleos da base são as responsáveis por alterações motoras. Desequilíbrios no córtex pré-frontal esquerdo relacionam-se com disfunções cognitivas. Alterações hipotalâmicas são a causa de distúrbios do sono, do apetite e do comportamento sexual. Os eixos hipotálamo – hipófise – adrenal e hipotálamo – hipófise – tireóide, também estão relacionados com anormalidades no sono e perturbações no ciclo circadiano (Bahls, 1999).
       De acordo com o DSM – IV, a depressão pode se apresentar como episódio depressivo maior (EDM), sendo os sintomas de critérios presentes, o humor deprimido, a redução de interesse na maioria das atividades, perda ou ganho de massa, insônia ou hipersonia, agitação ou retardo motor, fadiga, sentimentos de desamparo ou culpa inapropriados e idealização de morte ou suicídio. Para o diagnóstico, esses sintomas devem aparecer durante no mínimo duas semanas e um deles deve ser necessariamente, humor deprimido e redução de interesse na maioria das atividades. Segundo o CID-10, o episódio depressivo pode ser leve, moderado ou grave. O diagnóstico depende da presença de dois ou três desses sintomas: humor deprimido, perda de interesse ou prazer e energia reduzida (Powell, Abreu, Oliveira e Sudak, 2008).

A DEPRESSÃO NA PERSPECTIVA DO BEHAVIORISMO RADICAL


       A Análise do Comportamento, ao estudar o comportamento depressivo busca estabelecer suas determinações em uma tríplice contingência: história bibliográfica, fatores biológicos e variáveis atuais. O repertório comportamental da pessoa com comportamento depressivo apresenta baixa frequência de respostas que produzam reforçadores positivos. Para os analistas do comportamento, tanto a genética, a história de vida e as contingências atuais podem fazer parte da determinação da depressão. Essa baixa frequência pode estar relacionada com o fato de que o sujeito aprende que seus comportamentos não levam a nada, e por isso não os emite. A diminuição na emissão desses comportamentos evidentemente leva o indivíduo a ter menos reforçadores (Tavares, 2005). O comportamento depressivo, desse modo, é aprendido. O Comportamentalismo enfatiza o papel das consequências e dos esquemas de reforçamento, salientando o papel do ambiente na determinação do comportamento depressivo (Relvas, 1988).
       Existem três modelos de depressão na Análise do Comportamento: (i) desamparo aprendido, (ii) anedonia e (iii) separação. No modelo da separação, a relação resposta-reforço diminui devido à ausência do agente reforçador. Segundo o modelo da anedonia, a depressão se dá por dois motivos: perda de interesse e de prazer e humor deprimido (Vasconcellos, Rocha & Maciel, 2010). O “desamparo aprendido” pode ser definido como a aprendizagem de que resposta e reforço são independentes, o que diminui a emissão de futuras respostas (Relvas, 1988).
       O desamparo aprendido é característico dos momentos iniciais do comportamento depressivo, em que ocorre uma diminuição da frequência de respostas comportamentais. Esta situação tem início com o processo de perda de controle, sobre seu reforçamento. Assim o princípio da depressão é a “crença” de que todo comportamento é inútil (Tavares, 2005). Assim o sujeito com depressão perde a expectativa do estímulo reforçador. Essa expectativa é definida como, não uma entidade mentalista, mas a probabilidade avaliada pelo sujeito de uma resposta produzir determinado reforço. É importante salientar que essa expectativa não é unívoca, mas subjetiva, a depender da singularidade do repertório comportamental de cada indivíduo (Relvas, 1988).
    

O MODELO COGNITIVO DA DEPRESSÃO


       O modelo cognitivo da depressão está assentado em três pressupostos básicos: a tríade cognitiva, os esquemas e atitudes depressogênicos, e os pensamentos automáticos e processamento falho das informações. A Tríade cognitiva permite observar que o paciente tem uma visão negativa a respeito de si mesmo. Os esquemas e modos depressogênicos revelam que há distorções nas percepções do indivíduo para se adequarem a esquemas disfuncionais dominantes. A depressão está relacionada a um padrão de pensamentos negativos automáticos. Os sintomas da depressão são consequências da ativação dos padrões negativistas da tríade, dos esquemas e modos e dos pensamentos automáticos (Tavares, 2005).
      A tríade cognitiva consiste no fato de o paciente apresentar uma visão negativa e persistente em relação a três pontos básicos: sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre o futuro. A organização cognitiva da pessoa deprimida produz a inversão no modo de interpretar a realidade. Assim a pessoa deprimida tem uma interpretação distorcida da realidade e de si mesmo, o que o faz sentir encurralado, gerando sofrimento, decepções, desamparo e desesperança. A depressão se caracteriza por uma distorção da natureza humana (Bahls, 1999). 
         Para o Cognitivismo os sentimentos são secundários, o fator determinante na depressão é a cognição. O transtorno cognitivo é o principal fator patológico. Pessoas depressivas apresentam expectativas extremamente elevadas sobre si mesmas, o que as deixam frustradas por não corresponderem a essas elevadas expectativas (Bahls, 1999). Beck, um cognitivista, chegou à conclusão de que a depressão resulta de hábitos de pensamentos extremamente enraizados. Ele observou que humor e comportamentos negativos eram usualmente resultados de pensamentos e crenças distorcidas e não de pulsões advindas de um inconsciente cheio de angústias (Powell, Abreu, Oliveira, & Sudak, 2008).


UM OLHAR PSICANALÍTICO SOBRE DEPRESSÃO 

       A Psicanálise não atribui à depressão a classificação de diagnóstico, mas de uma consequência do lugar ocupado pelo sujeito, um atributo da própria condição existencial humana (Clemente, 2013). A depressão não é nem uma psicose, nem uma neurose propriamente dita, mas pode ser chamada de ‘neurose narcísica’, diferenciando-se da psicose, e localizando-se num lugar intermediário entre neurose e psicose (Coser, 2003).
       Freud, em 1915, um ano após o início da Primeira Guerra Mundial, publicou o artigo “Luto e melancolia”. Neste tempo melancolia e depressão eram termos praticamente intercambiáveis. Enquanto o luto se caracterizaria pela perda de um objeto real, na depressão o que foi perdido não é o objeto real, mas o objeto psiquicamente concebido enquanto símbolo de amor. Freud ensinava que não somos donos da nossa própria casa, somos controlados, determinados e dirigidos por pulsões que emergem do mundo intrapsíquico, impulsos e forças dominadoras do inconsciente. Freud, também, ressaltava, o papel do narcisismo, o sentimento de importância sobre si mesmo. Quando este sentimento é traído, isso desencadeia complexos inconscientes de inferioridade e desamparo que remontam ao desenvolvimento infantil (Lopez, 2005).
       Pode –se dizer que há dois tipos de pessoas propensas a ficarem deprimidas quando perdem o objeto simbólico: aquelas, cujas necessidades não foram adequadamente suprimidas por uma mãe suficientemente boa (conforme Winnicott) e aquelas cujos pais atenderam em excesso a essas necessidades. Ambos os casos estão relacionados a uma fixação na fase oral do desenvolvimento psicossexual. Do primeiro caso resultarão pessoas excessivamente dependentes dos outros para tudo na vida e com baixa autoestima. Já o segundo tipo de pessoa terá maior propensão a ficar deprimida quando perder algum ente querido (Lopez, 2005).

UMA ANÁLISE JUNGUIANA DA DEPRESSÃO 


       O psiquiatra Carl Gustav Jung entende que a doença mental é a melhor condição da mente humana diante da realidade. A mente adoece para preservar a sobrevivência da própria alma.  A depressão possibilita o novo nascimento, o batismo para uma nova vida, a regeneração, o renascer das cinzas da fênix, a reencarnação a um estágio maior de evolução e a passagem por um rito enriquecedor. Na depressão, a libido ou energia psíquica volta-se para o mundo interior do próprio indivíduo e ao permanecer introjetada precisa ser consumida no sofrimento, na dor, na angústia e na impassibilidade. Por um mecanismo de introjeção, o sujeito redireciona a energia psíquica contra si mesmo. A libido passa a ser consumida na depressão. Todo o medo, toda a angústia, todo o sofrimento provocado pela perda do objeto amado volta-se contra o self (a totalidade da personalidade). A abordagem junguiana procura fortalecer aquilo que ainda resta de saudável no deprimido. Procura-se reforçar os laços familiares e suas crenças religiosas, possibilitando uma transformação da consciência individual, a ascensão a uma nova gnose, a transfiguração em corpo glorificado, a mudança alquímica dos elementos interiores e uma revolução existencial do espírito (Gomes, 2011).
       Nossa consciência cultural dominante parece identificada com o mito do sucesso, da extroversão, da força de vontade, do esforço, do trabalho, da superação, da conquista, da evolução e do crescimento. É o mito do Herói, o herói solar mitraítico que luta contra a noite, a escuridão, as trevas e a morte. O mundo inferior infernal das trevas e da morte não cabe em nosso universo heroico. Os “mortos”, os reprimidos, seriam a nossa introjeção, nossas fraquezas, derrotas, preguiça, impotência, regressão e estagnação. O Hades obscuro e sombreado, o mundo subterrâneo dos mortos, a morada dos espíritos em prisão, o tártaro das trevas, o poço do abismo dos demônios e o berço de trevas e escuridão (Gomes, 2011).
       Nossa era cristã abandonou a clássica ideia grega de que o mundo seria composto de três elementos o corpo, a alma e o espírito. Essa alteração resultou na exclusão da alma (psique). A alma imortal foi morta, sofreu a segunda morte. Vivemos em uma sociedade desalmada, sem anima, desanimada.  Passamos a conceber o mundo como uma dualidade platônica espírito/corpo e quando a alma é mencionada, passa então a ser entendida no mesmo sentido que o espírito ou o corpo. Isso foi reforçado pela filosofia cartesiana e ainda hoje vivemos nessa perspectiva dualista de mundo que não reserva um lugar para a alma, que é ignorada e esquecida. Não é de espantar-se que o desanimo e a depressão sejam as características de nossa sociedade: uma cultura desalmada (Anjos, 2002).

FENOMENOLOGIA DA DEPRESSÃO


       Na Fenomenologia a depressão é entendida como um sintoma de crise do sentido da experiência vivida. A depressão é um sintoma que acoberta um sentimento de fracasso, que o deprimido percebe e passa a se culpar por ele.  A liberdade do ser humano lançado no mundo é a realização de infinitas possibilidades de seu existir. A conquista da liberdade fez o homem pós-moderno perder a segurança. É possível que o sujeito deprimido viva a falta de suas possibilidades de existir. A depressão fortalece as limitações de liberdade na realização das possibilidades concretas e específicas de existir do indivíduo com depressão. O homem pós-moderno está mergulhado num sentimento de fracasso por perceber a insuficiência de seu poder-ser que não consegue corresponder, em grande parte, a todas as possibilidades que a excessiva liberdade, conferida pelo contexto social atual, pode lhe oferecer. O deprimido vive numa protestação e numa negativa das suas possibilidades de existir. Não conseguindo dar conta das possibilidades inúmeras apresentadas pelas condições exteriores numa sociedade de estruturas depressivizadoras, o indivíduo se frustra e percebe a inutilidade e insuficiência de sua existência. A depressão denuncia o vazio interior do homem pós-moderno. Há um sentimento de perdição, um mal estar psíquico e existencial de que a vida perdeu o sentido. Ocorre uma total desorientação com consequente prejuízo identitário. A depressão é um sintoma social que denuncia a falência, em parte, de alguns regimes de vida que não atendem às necessidades mais básicas da natureza humana. Um mundo de incerteza, uma sociedade fluída e demasiadamente plástica que não oferece uma base segura para que o sujeito construa sua identidade.  A depressão pode ser concebida como uma reação diante de uma sociedade que não oferece base sólida para o desenvolvimento da identidade (Júnior, 2006).
       Desse modo, a Fenomenologia não entende a depressão como um transtorno mental, ou como resultado de uma causalidade determinista psíquica ou orgânica, mas como um fenômeno que aparece ao indivíduo na relação entre sujeito e realidade objetiva. O que se vive e se experiência, em termos de sentido, no fenômeno depressivo, não é uma alteração do sentimento, mas do humor. Desse modo a depressão não é uma tristeza profunda, mas uma transformação que afeta a totalidade de sentido do ser no mundo. Ser deprimido é necessariamente um sentimento de não-poder-viver, de ser impotente para a vida, um vazio existencial ou uma existência no vazio (Barbosa, 2012).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


Anjos, H. O. (2002). Depressão e cultura: uma abordagem arquetípica. [On-line]. Disponível em: http://www.cefacbahia.org.br/pag_internas/publicacoes/pdf/historico/artigo_ha000402.pdf. Recuperado em 11 de Novembro de 2015.

Bahls, S. C. (1999). Depressão: Uma breve revisão dos fundamentos biológicos e cognitivos. InterAÇÃO, Curitiba, 3, 49 – 60.

Barbosa, S. L. R. (2012). A experiência de corpo na depressão: um estudo fenomenológico existencial. Dissertação. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Universidade Federal do Rio Grande do Norte: Natal.

Clemente, A. S. (2013). As perspectivas psiquiátrica e psicanalítica sobre os “transtornos de humor”. Opção Lacaniana online nova série, 4, 12, 1-11.

Coser, O. (2003) Depressão: clínica, crítica e ética. Rio de Janeiro: Fiocruz.

Fleck, M. P.; Berlim, M. T.; Lafer, B.; Sougey,E. B.; Porto, J. A. d.; Brasil, M. A.; Juruena, M. F. e Hetem, L. (2009). A. Revisão das diretrizes da Associação Médica Brasileira para o tratamento da depressão. Ver. Bras.  Psiquiatr., 31, (Supl I):S7-17.

Fleck M. P. A., Lafer B., Sougey E. B., Del Porto J. A., Brasil M. A. e Juruena M. F (2001). Diagnóstico e Tratamento da Depressão. Associação Brasileira de Psiquiatria.

Gomes (2011). Um olhar sobre depressão e religião numa perspectiva compreensiva. Estudos de Religião,  25, 40, 81-109.

Júnior, J. A. S. H. J. (2006). Depressão: Resistência ou desistência existencial. Dissertação. Departamento de Psicologia. Universidade Católica de Pernambuco: Recife.

Lopez, J. P.(2005).  Depressão: uma doença da contemporaneidade. Uma visão analítico-comportamental.  Monografia. Faculdade de Ciências da Saúde. Centro Universitário de Brasília: Brasília.

Powell, V. B.; Abreu, N.; Oliveira, I. R. e Sudak, D. (2008). Terapia cognitivo-comportamental da depressão. Rev Bras Psiquiatr., 30, (Supl II):S73-80.

Relvas, J. S. (1988). Modelos psicológicos da Depressão e expectativas de Controlo do Reforço. Análise Psicológica, 2, 6, 165-182.

Tavares, L. (2005). Abordagem Cognitivo-comportamental no atendimento de pacientes com história de depressão e déficit em habilidades sociais. Relatório de estágio. Departamento de Psicologia. Universidade Federal de Santa Catarina, Santa Catarina.


Vasconcellos, M.; Rocha, M. C. D. O. e Maciel, V. H. (2010). Revisão teórica sobre depressão pela análise do comportamento e por alguns manuais psiquiátricos. ConScientiae Saúde, 9,. 4, 719-725.

Parte integrante do trabalho: "FAMÍLIA AFETADA POR UM MEMBRO COM DEPRESSÃO"