quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A UNIDADE ABSOLUTAMENTE SIMPLES DA TRINDADE


       Muitos trinitários e neotrinitários* têm argumentado a favor da ideia de um Deus composto. Geralmente a base para esse tipo de argumentação se encontraria nas distinções das palavras hebraicas iachid e echad, tendo por base a ideia de que a natureza divina seria composta por três pessoas.
       Diferente de alguns unitaristas que muitas vezes acabam tendo que assumir uma pluralidade de divindades, por ter de ensinar que Jesus é “divino”, mas não é Deus ou do modalismo que reduz às pessoas divinas a meras manifestações, o trinitarianismo ortodoxo preserva tanto a ideia de individualidade absoluta da deidade, quanto da pluralidade de pessoas na divindade.
    De fato a doutrina da Trindade é uma fórmula que reconhece de maneira absoluta a unidade de Deus, seja por afirmar que há um só ser divino, diferente do que faz muitos unitaristas, seja por afirmar que a natureza divina é absolutamente una, diferente do que faz alguns neotrinitarios:


Existem duas palavras para “UM”, “UNO” ou “ÚNICO”: uma é “YACHID” e a outra “ECHAD”...a palavra hebraica usada para “uma” [em Gênesis 2.24] foi “echad”, que significa uma UNIDADE COMPOSTA: duas pessoas diferentes, marido e mulher se unem e formam UMA só carne...Deus é uma UNIDADE COMPOSTA de TRÊS PESSOAS...(Fernando Iglesias – Revista Princípios, p.92)

       Há um erro nessa ideia de um Deus composto. Isso porque não existem três pessoas diferentes e separadas em Deus, mas sim distintas. E também o termo “pessoa” na Trindade não tem o sentido de seres individuais que se unem, como no caso do casamento. Além disso, Deus é trino apenas na subsistentia, sua substantia é absolutamente una. Ainda, o termo echad também é usado no sentido de unidade individual (Eclesiastes 4.8). Por outro lado, não é incorreto afirmar, com base em Gênesis 2.24, que o termo echad admita o sentido de uma unidade que admita uma diversidade de pessoas.
       O trinitarianismo afirma também claramente a unidade absoluta da natureza divina. O concílio de Lateranense IV diz que a Trindade é "uma só essência, uma só substância ou natureza absolutamente simples". A Confissão de Fé de Westiminster declara que a Trindade é "uma mesma substância, poder e eternidade". A Confissão Belga também afirma: "cremos em um só Deus, que é um único ser". O dogma da Trindade sempre afirmou a unicidade de Deus como absolutamente Um em essência, uma unidade absoluta, não composta por partes. A Confissão Belga diz claramente que "Deus (não) está dividido em três".
       O Dr. Norman Geisler, no volume 1 de sua Teologia Sistemática, embora utilize do argumento do echad/yachid, mostra claramente a base histórica para a simplicidade de Deus. Ele cita Agostinho (“Pois Deus é o Ser Absoluto”, “Esta Trindade é indivisível”), Tomás de Aquino (“Deus...deve ser puro ato”), Irineu (“Ele é um Ser simples, não-composto, sem membros diversos”), Clemente de Alexandria (“Pois o Um é indivisível”), Orígenes (Deus... é uma natureza intelectual não-composta”), Apolinário (“o espírito divino... é um, de forma simples, substância simples, indivisível”), Gregório de Nazianzeno (“natureza primeira e não – composta”), Gregório de Nissa (“livre de toda natureza composta”), Anselmo (“A Natureza de Deus de forma alguma é composta”), Calvino (“Deus se entende uma essência única e simples”).
       O argumento para a simplicidade de Deus também pode ser exposto filosoficamente, como aparece mesmo em Geisler sobre o Teísmo tomístico:

(i)                 Existe uma multiplicidade de seres.
(ii)               Os seres finitos se diferenciam quando suas potencialidades são atualizadas.
(iii)             Mas nenhuma potencialidade é capaz de atualizar por si própria.
(iv)             Logo precisa haver algo que é Pura Atualidade.
(v)               Seres simples não são compostos de nenhuma forma ou matéria para se diferenciar.
(vi)             Não há multiplicidade se não há diferença.
(vii)           Portanto só existe um Ser Simples (Deus).

O argumento conclui a existência de um Deus simples, sem potencialidades ou componentes. A existência de um só Deus e a unidade absoluta simples da Trindade também é ensinada nas Escrituras:

Ouça, ó Israel: O Senhor, o nosso Deus, é o único Senhor. - Deuteronômio 6:4
Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.- 1 Timóteo 2:5
E o escriba lhe disse: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele; - Marcos 12:32
Quão grande és tu, ó Soberano Senhor! Não há ninguém como tu nem há outro Deus além de ti, conforme tudo o que sabemos. - 2 Samuel 7:22
Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão. - Romanos 3:30
Jeová será rei sobre toda a terra; naquele dia um só será Jeová, e um só o seu nome. – Zacarias 14.9
Ao único Deus, sábio, seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém. - Romanos 16:27
Ora, o mediador não o é de um só, mas Deus é um só. - Gálatas 3:20

Ao único Deus, nosso Salvador, por Jesus Cristo nosso Senhor, glória, majestade, domínio e poder, antes de todos os séculos, e agora, e para todo o sempre. Amém. – Judas 1.25


       É dito do Pai como sendo “o Único Deus Verdadeiro” (João 17.3). Ainda Jesus Cristo é retratado como o Único: Único Senhor (1 Coríntios8.6), Único Soberano (Judas 1.4), Único Mestre (Mateus 23.8, 10). Também é dito que o Espírito de Deus é o Espírito de Cristo (Rm8.9) e que “Há um só Espírito” (Efésios 4.4). De acordo com o Concílio de Florença (1442): ““Por causa desta unidade, o Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho”. Cremos e confessamos, portanto, que há absolutamente um só Deus e que Deus é absolutamente um só. No entanto, essa crença firme na unidade de Deus não deve nos levar a pensar que a unidade é mais importante que a diversidade em Deus. Há uma distinção real entre as pessoas divinas, que não são meros modos de Deus se manifestar. Os membros da Divindade são sujeitos reais e verdadeiramente distintos que se relacionam entre si. Afirmar o contrário é cair na heresia do modalismo. Deus nos guarde disso!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

JOÃO1.1 E A DEIDADE DO FILHO

       O texto de João 1.1 parece ser um dos mais claros a respeito da deidade de Jesus. Nele lemos:


“No início era a Palavra, e a Palavra estava com o Deus, e Deus era a Palavra. ”

       Em geral, ninguém discorda que o Pai ao ser chamado de “ton Theón” (o Deus), seja identificado com a essência divina absoluta. Alguns discordariam, no entanto, em dizer que a aplicação de Theós ao Filho assuma esse sentido. Sabemos que a palavra “Deus”, na Bíblia, possui 4 sentidos:

·         Metafórico: Esse sentido aparece em Êxodo 7.1: “O Senhor disse a Moisés: Vê: vou fazer de ti um deus para o faraó, e teu irmão Aarão será teu profeta ”. Nesse caso Moisés aparece chamado de "deus". Na realidade a metáfora é simples. Moisés seria "deus" e Arão "profeta" para faraó. Uma comparação da relação DEUS-PROFETA-OUVINTES com MOISÉS-ARÃO-FARAÓ. Nada que implique natureza. Não parece sensato pensar que “Deus” tenha esse sentido em João1.1.

·         Idolátrico: O termo também é usado para falar dos ídolos, ou mesmo do “deus deste século” (2 Coríntios 4.4). É evidente que Jesus não é um “ídolo” ou um “deus falso”. Certamente não é esse o significado que devemos pensar ter o termo em João 1.1.

·         Representacional: O termo “deus” também é usado para falar daqueles que representam a Deus ou Sua Justiça. “Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo. ” (Salmos 82:6).  Se diz dos juízes como “deuses”. Não há porque pensar que isso implique natureza já que ser juiz não tem a ver com a natureza de alguém. Na realidade os juízes eram "representantes da justiça divina" ou "representantes de Deus". Parece ser também esse o sentido que se chama os anjos que representam a Deus “Prostrai-vos diante dele (Jeová), todos os deuses. ” (Salmos 97.7). Jesus parece assumir esse significado, mas transcendê-lo. Ele raciocina com os fariseus, com o argumento mais ou menos assim: “Se os juízes foram chamados de deuses, quanto mais eu posso ser chamado assim” (cf. João10.34-37). Salmos 97.7: “todos os deuses se prostrem diante de Jeová” também é aplicado a Jesus, mas agora para dizer “Todos os anjos adorem a Jesus” (Hebreus1.6). Assim embora o termo “Deus” aplicado a Jesus signifique “representante de Deus”, o termo requer ainda um sentido mais profundo.

·         Ontológico: O termo Deus é usado para fala do Ser que possui “natureza divina” ou “essência divina”. Evidentemente só pode haver uma essência ou natureza divina (Deuteronômio 6.4; 1 Timóteo 2.5; Marcos12.32; 2 Samuel 7.22; Romanos3.30; Tiago 3.19). Assim Deus seria aquele que reúne os atributos essencialmente divinos, como onipotência, onipresença e onisciência. João 1 favorece esse sentido. Isso porque pela ordem das palavras o texto parece exigir uma unidade de significado no uso da palavra Deus. Dificilmente um leitor entenderia a mesma palavra aparecendo lado a lado numa construção como não tendo o mesmo significado. Ainda mais no caso de termos "estava com o Deus e Deus era”: “a Palavra estava com o Deus, e Deus era a Palavra”. O contexto continua a favorecer essa ideia, João 1.3 diz: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; e sem ele nem mesmo uma só coisa veio à existência”. Temos claramente o Pai criando tudo através do Filho. Obviamente que é tudo mesmo até todos os anjos e as coisas não animadas foram criadas por meio de Jesus, de modo que sem Ele nada existiria (Colossenses1.16). Salmos 102.25 diz: "(Jeová) há muito lançaste os alicerces da terra, e os céus são obras das tuas mãos" é citado em Hebreus 1.10 para dizer: "Tu, ó Senhor (Jesus) lançaste no princípio os alicerces da terra, e os céus são obras de suas mãos".  Interessante que em Isaías 44.24 lemos sobre o Eterno: “Eu sou o Senhor (Jeová), que fiz todas as coisas, que sozinho estendi os céus, que espalhei a terra por mim mesmo”. Colossenses 1.17 diz que Jesus existe "antes de todas as coisas". Teremos um problema se as palavras de João1.3 não identificarem Jesus com o Eterno. Isso porque sabemos que tanto o espaço como o tempo foram criados por Deus. Se tudo Deus criou por Jesus, Jesus precisa estar antes do espaço e do tempo. Isso significa ser "atemporal" e "extra espacial", ou em outras palavras "Eterno" e "Onipresente”, que são atributos naturalmente divinos. O Evangelho de João foi escrito por volta do ano 95d.C., já em 110 d.C. Inácio escreveu: " Temos também nosso Médico o Senhor nosso Deus, o único unigênito Filho e a palavra, antes que o tempo começasse..." 
       Evidentemente que o anartro no texto não exige o uso do artigo indefinido “um” ("um deus").  A definição ou indefinição na tradução de um anartro depende do contexto, e não pode ser determinada pela gramática.  O anartro neste caso reforça a ideia de que o Pai e o Filho embora da mesma natureza são duas pessoas distintas. Aliás, o texto diz que "a Palavra estava com o Deus" (ēn pros ton - "diante de", "para com"), de modo que não podem ser a mesma pessoa. Nesse sentido o contexto e a ordem das palavras em João 1, indicam que o termo Deus tem tanto o sentido representacional, quanto o ontológico ao se referir a Jesus. Isto é ,Cristo é o Representante de Deus: “a expressa imagem da sua pessoa” (Hebreus 1:3) e também aquele que reúne os atributos essências da natureza divina, como eternidade e onipresença: “Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Colossenses 2:9).  Veja que Jesus não é alguém que participa da natureza divina (cf. 2 Pedro1.4), mas sim uma pessoa em quem habita  plenamente todos os atributos essenciais de Deus.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O ERRO DA IDEIA DE ''MÚSICA DO MUNDO''


        Muitos cristãos ainda cultivam um pensamento dicotômico entre “santo” e “profano”, uma espécie de maniqueísmo na maneira de enxergar a realidade. Embora haja de fato uma distinção entre o sistema mudano e o Reino de Deus (cf. 1 Coríntios 6.14-18), a identificação da ‘cultura secular’ com o profano e da ‘cultura cristã’ com o sagrado, é um erro. Tal concepção tem resultado em muitos legalismos e costumes de homens, tais como a definição de um vestuário exclusivo para os crentes, a proibição do uso de cosméticos, a aversão por práticas esportivas, a condenação do envolvimento com a política e a interdição do uso de certas tecnologias. Essa concepção produziu também uma rejeição da música secular, que passou a receber o epíteto de “música do mundo’’, enquanto os cristãos foram instruídos a ouvir apenas hinos evangélicos.
       Tal concepção, além de produzir um pensamento legalista e farisaico, também é uma ignorância quanto às doutrinas teológicas da Revelação Geral e da Graça Comum. Nesse sentido, o apóstolo Paulo, alerta contra o pensamento dualista da realidade:

Considerando que morrestes com Cristo para as tradições humanas e a falsa religiosidade deste mundo, por que vos sujeitais ainda a tais ordenanças como se pertencêsseis a este sistema de valores? Não mais obedeçais a regras como estas: “Não toques!”, “Não proves!”, “Não manuseies!” Todas essas regras estão destinadas a desaparecer pelo uso, pois se baseiam em ordenanças e ensinos meramente humanos. Esses regulamentos têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e rígida disciplina para com o corpo, mas não têm valor algum para refrear as paixões da carne – Colossenses 2. 20-23

A DOUTRINA DA REVELAÇÃO GERAL


       Deus escolheu se revelar a humanidade de duas formas: por meio da natureza e por meio da Bíblia Sagrada. A Revelação Geral se refere à manifestação de Deus por meio da natureza, e está presente em várias esferas: na natureza física, na natureza humana, na História e nas artes. Na medida em que Deus é Formoso, as produções artísticas e culturais da humanidade são uma amostra da beleza estupenda do Amoroso Criador. Nesse sentido a música humana também é uma manifestação de Deus e uma expressão de sua glória (Geisler, 2015).
       É possível encontrar na música secular, canções que falam de princípios cristãos e expressam verdades divinas. Algumas até mesmo exaltam virtudes morais, como o amor. É evidente, no entanto, que devido à humanidade estar caída em pecado, muitas músicas revelam aspectos negativos e anticristãos. Mas isso não é motivo para generalizar todas as produções musicais humanas como profanas.

A DOUTRINA DA GRAÇA COMUM

       Deus derrama ricas bênçãos e manifesta Sua maravilhosa graça não só aos crentes, mas também aos incrédulos. Jeová não é Deus apenas dos eleitos, mas também de toda a humanidade (cf. Salmos 24.1). É Ele quem sustenta e abençoa os iníquos. O Meigo Jesus ensinou sobre isso em um dos seus sermões:

Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. - Mateus 5.44 – 45

       O homem ímpio só pratica boas obras devido a operação da graça comum. Dessa forma, do coração do Soberano emana um favor imerecido pelo qual o Senhor dá aos homens o raiar do sol, as chuvas, as estações e a própria vida (Lima, 2015). É por meio da graça comum que os homens, mesmo os não-salvos, podem desenvolver a arte, a ciência, a filosofia e a tecnologia. A música secular não deixa ser uma produção humana tornada possível pela operação graciosa de Deus. De acordo com Grudem (1994):

Deus distribuiu medidas significativas de capacidade em áreas artísticas e musicais, assim como em outras esferas nas quais a criatividade e a habilidade podem expressar-se, como praticar esportes, cozinhar, escrever, e assim por diante. Além disso, Deus nos dá a capacidade de apreciar a beleza em muitas áreas da vida. E nessa área, assim como na esfera física e intelectual, as bênçãos da graça comum são às vezes derramadas sobre os descrentes até mais abundantemente que sobre os crentes. Todavia, em todos os casos, ela é resultado da graça de Deus. (cf. pp. 297-304)

O PERIGO DA VISÃO DUALISTA

       Um erro terrível em dividir a música entre profana (secular) e sagrada (gospel), está em achar que toda música secular é ruim e que toda música gospel é santa. Assim, Os crentes, muitas das vezes acabam tomando músicas de cantores como Damares, Thales Roberto, Ludmila Ferber e outros artistas gospels como hinos abençoados. Não raro as letras de muitas músicas do mundo gospel estimulam a vingança e estão permeadas de jargões neopentecostais e da famigerada teologia da prosperidade.
       Sendo assim, o critério para classificar uma música como “do mundo” ou como uma manifestação da graça de Deus, não é identificando se ela é secular ou gospel.  Antes de escutar alguma música, deve-se analisar:
·         Seu conteúdo: Qual é o assunto da música? A Bíblia é clara: “Vocês fazem parte do povo de Deus: portanto qualquer tipo de imoralidade sexual, indecência ou cobiça não pode ser nem mesmo assunto de conversa entre vocês. ” (Efésios 5.3). Não ouça uma música que faça apologia ao sexo vulgar, ao crime ou a ideias contrárias aos padrões bíblicos. No caso da música gospel, cuidado com aquelas cujas letras são um perigoso banquete de heresias. Tome cuidado com certos ritmos, geralmente acompanhados por danças sensuais que desagradam o Senhor.
·         Os pensamentos que ela produz: No que essa música te faz pensar? Será que ouvi-la pode tornar difícil pensar em “...tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama...”(Filipenses 4.8)? Cuidado com músicas que te fazem pensar em coisas que desagradam a Deus (cf. Gálatas 5.19-21).

       Apesar de tudo o que já foi dito aqui, muitos cristãos sinceros ainda cultivam um pensamento maniqueísta e dualista sobre a realidade. Há irmãos que poderiam ficar escandalizados, caso nos vejam ouvindo uma “música do mundo”. Faríamos bem, como uma atitude de respeito, em evitar ouvir músicas não-evangélicas na presença desses irmãos (cf. 1Coríntios 8.13). No entanto, não podemos deixar de falar-lhes com amor sobre as doutrinas cristãs da graça comum e da Revelação Geral e suas implicações na nossa cosmovisão, vida cristã e evangelismos.

REFERÊNCIAS

Geisler, N. (2015). Teologia Sistemática 1. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus.

Lima, E. R. (2015). A Igreja e o seu testemunho. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus.

Grudem, W. (1994). Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Vida. [págs. 297-304. On-line] Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/pneumatologia/graca_comum_grudem.htm Recuperado em 21 de Dezembro de 2015.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

NATUREZA TEOLÓGICA DO MILAGRE

       A Teologia Cristã está sustentada sobre o sobrenatural (Geisler, 2015). O próprio ministério do Cristo foi marcado por milagres, como a repreensão do vento e do mar (Mateus8.23-27), a ressurreição do filho da viúva de Naim (Lucas7.11-17), a ressurreição da filha de Jairo (Marcos 5.21-43), a ressurreição de Lázaro (João 11.1-45) dentre outros (Renovato, 2014). Desse modo, a natureza teológica do milagre tem um valor essencial para a cosmovisão cristã, na medida em que grandes doutrinas do Cristianismo estão edificadas com base nos milagres da história bíblica, a exemplo do milagre da criação, que traz importantes implicações teontológicas. Existem também os milagres relacionados às doutrinas cristológicas, como o nascimento virginal, a ressurreição literal e a ascensão de nosso Senhor Jesus Cristo. Os milagres que atestaram o ministério e a mensagem apostólica sinalizam para o próprio axioma da fé cristã. De fato, não se pode negar a importância dos milagres.

DIMENSÃO TRÍPLICE DO MILAGRE


       O milagre pode ser teologicamente definido como intervenção divina no curso regular do mundo que produz um evento com um objetivo definido e que não poderia ocorrer de outra forma. Nesse sentido, milagres são eventos sobrenaturais, mas não antinaturais, o que significa que quando ocorre um milagre não há uma violação da lei natural da causalidade, mas sim uma superadição de uma causa sobrenatural que produz um novo efeito (Geisler, 2015).
       A Bíblia Sagrada emprega três palavras para falar de eventos miraculosos que nos ajudam a compreender a arqueologia, a teleologia e a ontologia do milagre. Com arqueologia refiro-me a origem ou fonte dos milagres divinos. Essa origem é representada pela palavra poder (hb. Koak; gr. Dunamis), que traz consigo a ideia de força ou energia. Quanto a teleologia do milagre, fala-se dos propósitos dos eventos sobrenaturais causados por Deus, tendo, em especial, o fim de servir de sinal (hb. Oth; gr. Semeion) para confirmar a origem de uma mensagem divina. Por fim, a palavra maravilha (hb. Mophet; gr. Teras) revela a ontologia do milagre, como sendo naturalmente um evento incomum e que por seu carácter espantoso atrai a atenção dos observadores (Geisler, 2015).

ARQUEOLOGIA DO MILAGRE

       Com a expressão, arqueologia do milagre faço referência a fonte do milagre como sendo a Onipotência divina. O termo bíblico relacionado a isso é “poder”. A Bíblia usa a palavra energetma (derivado de energes: “ativo”, “energético”) para descrever os dons espirituais como operações diretas do poder do Deus Onipotente visando resultados definidos. Usa também o termo dunamis, ressaltando o fato de que os milagres são, na sua origem, de carácter sobrenatural (Stamps,1995).
       Desse modo, a origem ou fonte dos milagres está no Poder de Deus, revelando a Sua Onipotência. Sendo assim, John Frame, descreve os milagres como “acontecimentos causados de modo incomum pelo poder de Deus, acontecimentos tão extraordinários que em geral os consideramos impossíveis. ” (Monteiros, 2015). Os milagres também atestam o poder do Evangelho (Cabral, 2011), o que nos faz lembrar as palavras paulinas:

Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu, depois do grego. - Romanos 1:16

       Sabe-se que Satanás e seus anjos podem fazer certos “prodígios”, mas enquanto seres limitados não possuem poder parta operar verdadeiros milagres, entendidos dentro do seu significado teológico e teleológico: “Além disso, todo o poder que o diabo possui lhe foi dado por Deus, sendo cuidadosamente limitado e monitorado (cf. Jó 1:10-12).”  (Marinho, 2015).  Assim, em sua natureza teológica, o milagre é entendido como sendo de origem divina, operado pelo poder de Deus e revelando a onipotência do Altíssimo:

Ó Soberano Senhor, tu começaste a mostrar a teu servo a tua grandeza e a tua mão poderosa! Que Deus existe no céu ou na terra que possa realizar as tuas obras e os teus feitos poderosos? - Deuteronômio 3:24

TELEOLOGIA DO MILAGRE

       Quanto aos objetivos do milagre, ele é um evento que tem como propósito glorificar a Deus. Portanto, ele não é antropocêntrico, nem visa chamar atenção para a habilidade de algum homem. É a Deus, e não aos homens que se atribui a glória revelada no milagre (Gonçalves, 2013). Por conseguinte, o milagre não tem como propósito produzir shows ou espetáculos, como o que ocorre nas igrejas neopentecostais (Andrade, 2011).
       Donald Stamps apresenta a teleologia do milagre:

Os propósitos dos milagres no reino de Deus são pelo menos três: (a) dar testemunho de Jesus Cristo, autenticando a veracidade de sua mensagem e comprovando a sua identidade como o Cristo de Deus ([João] 2.23; 5.1-21; 10.25; 11.42); (b) expressar o amor compassivo de Cristo (At10.38; Mc8.2; Lc 7.12-15) (c) evidenciar a era da salvação (Mt11.2ss), a vinda do reino de Deus... e a invasão do domínio de Satanás por Deus... (Stamps,1995, p.1582)

       Mais especialmente os milagres são sinais que servem de credencial para uma mensagem incomum da parte de Deus. Vemos isso em Moisés, cujos sinais miraculosos objetivavam confirmar e credenciar seu chamado (Êxodo 4.1-8). O ministério e a mensagem apostólica também foram confirmados por sinais:

O poder de realizar milagres estava ligado ao ofício apostólico e tinha como seu propósito a autenticação dos apóstolos como servos especiais de Cristo e a confirmação da doutrina deles como o evangelho de Deus. Isso não implica que somente os apóstolos poderiam realizar milagres; de fato, outros santos também possuíram o dom de operação de milagres. (Engelsma, 2007, p.15).

ONTOLOGIA DO MILAGRE

       Por fim, o milagre é, em sua natureza e por definição, uma ocorrência rara, singular e incomum, que causa espanto nos seus observadores e atrai a atenção do povo de Deus. O escritor dos Hebreus descreve muito bem isso, apresentando também a arqueologia, teleologia e ontologia do milagre:

Como escaparemos nós, se tivermos negligenciado uma salvação de tal magnitude, sendo que começou a ser anunciada por intermédio do Senhor e nos foi confirmada por aqueles que o ouviram, ao passo que Deus se juntou em dar testemunhos em sinais, e também com maravilhas e por múltiplos poderes, e dons do Espírito Santo, distribuídos por sua vontade? – Hebreus 2.3-4

       Ante a ontologia do milagre como um evento incomum, alguns filósofos céticos têm argumentado contra a possibilidade ou credibilidade dos milagres. Pode-se falar de dois tipos de argumento: argumento da imutabilidade da lei natural e argumento do princípio da repetibilidade:

ARGUMENTO DA IMUTABILIDADE DA LEI NATURAL


       Este argumento contra milagres aparece em Baruch Spinoza e afirma que as leis naturais são imutáveis e portanto não podem ser violadas. O problema desse argumento é um petitio principii (‘mendigar a pergunta’), isto é, a definição de leis naturais como imutáveis já pressupõe uma visão anti-sobrenaturalista. Poderíamos apontar simplesmente um erro conceitual, e a partir de então definiríamos as leis naturais, como fazem alguns cientistas, como médias estatísticas ou probabilidades a respeito de como as coisas funcionam e não padrões que não possibilitem exceções (Geisler, 2015). Também já foi dito, alhures, que milagres não são antinaturais, mas sim sobrenaturais, pois são uma adição de uma causa sobrenatural e não quebras da lei da causalidade.

ARGUMENTO DO PRINCÍPIO DA REPETIBILIDADE

       Este argumento aparece em David Hume e Antony Flew. Huxley faz o seguinte resumo do argumento de Hume: “Quanto mais a afirmação da ocorrência de um fato conflita com a experiência prévia, tanto mais completa deve ser a evidência que porventura possa justificar a crença em sua ocorrência” (Chaves, n.d.). As premissas do argumento seriam as seguintes:

Premissa 1 - A, lei natural é, por definição, uma descrição de uma ocorrência regular.
Premissa 2 - O milagre é, por definição, uma ocorrência rara.
Premissa 3 - A evidência em favor do regular é sempre maior do que a evidência em favor do raro.
Premissa 4 - Quem é sábio sempre baseia sua crença na evidência mais convincente.
Conclusão - Portanto, um sábio não deveria acreditar em milagres. (Forti, 2014)

       Antony Flew, de modo similar, também argumenta que na prática as evidências a favor do geral e repetível são sempre maiores que aquelas a favor do particular e não-repetível, portanto, na prática, as evidências contra os milagres sempre serão maiores do que aquelas a favor deles (Geisler, 2015).
       O argumento baseado no princípio da repetibilidade é incoerente com a própria epistemologia de Hume caindo na falácia de uma conjunção constante e de uma espécie de consensus gentium. Não podemos com base na uniformidade de experiências passadas negar eventos futuros. O argumento baseado no princípio da repetibilidade eliminaria alguns dos próprios pressupostos naturalistas, que admitem algumas singularidades não-repetíveis, além de, se for levado a sério, servir de base para negar eventos históricos singulares ocorridos no passado (Geisler, 2015). O argumento de Hume faz uma confusão entre “probabilidade” e “credibilidade” (Forti, 2014):

O que Hume parece deixar passar em branco é que as pessoas sábias, na verdade, baseiam as suas crenças em fatos, não em probabilidades. Às vezes, a probabilidade contrária a um evento é muito alta, mas a evidências a favor desse evento é muito boa. (Geisler, 2015, p. 51).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

      Do ponto de vista bíblico, os milagres são sinais de Deus, operados pelo poder divino, para a glória dele e para chamar a atenção e atrair o povo da Aliança. As operações sobrenaturais de Deus não são apenas verdades biblicamente fundamentadas, mas também eventos filosoficamente possíveis. Diante do valor dos milagres para a Teologia e ortodoxia evangélica, os cristãos precisam afirmar a veracidade e historicidade dos milagres, rejeitando todo ensino, que influenciado pelo positivismo, pelo liberalismo ou pelo ceticismo, querem levar dos crentes a fé nos milagres de Deus.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Cabral, E. (2011). Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus (Revista EBD).

Chaves, E. O. C. (n.d.). Milagres, a Historia e a Ciência: uma análise do argumento de Hume. [On-line] Disponível em: https://ateus.net/artigos/filosofia/milagres-a-historia-e-a-ciencia-uma-analise-do-argumento-de-hume/ Recuperado em 04 de Dezembro de 2015.

Engelsma, D. J. (2007). Provai os Espíritos – Uma Análise Reformada do Pentecostalismo. Monergismo.

Forti, F. (2014). As Evidencias Históricas da Ressurreição de Jesus. [On-line] Disponível em: http://pacocapessoal.tumblr.com/post/82847448351/as-evidencias-hist%C3%B3ricas-da-ressurrei%C3%A7%C3%A3o-de-jesus  Recuperado em 04 de Dezembro de 2015.

Geisler, N. (2015). Teologia Sistemática 1. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus.

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