quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A UNIDADE ABSOLUTAMENTE SIMPLES DA TRINDADE


       Muitos trinitários e neotrinitários* têm argumentado a favor da ideia de um Deus composto. Geralmente a base para esse tipo de argumentação se encontraria nas distinções das palavras hebraicas iachid e echad, tendo por base a ideia de que a natureza divina seria composta por três pessoas.
       Diferente de alguns unitaristas que muitas vezes acabam tendo que assumir uma pluralidade de divindades, por ter de ensinar que Jesus é “divino”, mas não é Deus ou do modalismo que reduz às pessoas divinas a meras manifestações, o trinitarianismo ortodoxo preserva tanto a ideia de individualidade absoluta da deidade, quanto da pluralidade de pessoas na divindade.
    De fato a doutrina da Trindade é uma fórmula que reconhece de maneira absoluta a unidade de Deus, seja por afirmar que há um só ser divino, diferente do que faz muitos unitaristas, seja por afirmar que a natureza divina é absolutamente una, diferente do que faz alguns neotrinitarios:


Existem duas palavras para “UM”, “UNO” ou “ÚNICO”: uma é “YACHID” e a outra “ECHAD”...a palavra hebraica usada para “uma” [em Gênesis 2.24] foi “echad”, que significa uma UNIDADE COMPOSTA: duas pessoas diferentes, marido e mulher se unem e formam UMA só carne...Deus é uma UNIDADE COMPOSTA de TRÊS PESSOAS...(Fernando Iglesias – Revista Princípios, p.92)

       Há um erro nessa ideia de um Deus composto. Isso porque não existem três pessoas diferentes e separadas em Deus, mas sim distintas. E também o termo “pessoa” na Trindade não tem o sentido de seres individuais que se unem, como no caso do casamento. Além disso, Deus é trino apenas na subsistentia, sua substantia é absolutamente una. Ainda, o termo echad também é usado no sentido de unidade individual (Eclesiastes 4.8). Por outro lado, não é incorreto afirmar, com base em Gênesis 2.24, que o termo echad admita o sentido de uma unidade que admita uma diversidade de pessoas.
       O trinitarianismo afirma também claramente a unidade absoluta da natureza divina. O concílio de Lateranense IV diz que a Trindade é "uma só essência, uma só substância ou natureza absolutamente simples". A Confissão de Fé de Westiminster declara que a Trindade é "uma mesma substância, poder e eternidade". A Confissão Belga também afirma: "cremos em um só Deus, que é um único ser". O dogma da Trindade sempre afirmou a unicidade de Deus como absolutamente Um em essência, uma unidade absoluta, não composta por partes. A Confissão Belga diz claramente que "Deus (não) está dividido em três".
       O Dr. Norman Geisler, no volume 1 de sua Teologia Sistemática, embora utilize do argumento do echad/yachid, mostra claramente a base histórica para a simplicidade de Deus. Ele cita Agostinho (“Pois Deus é o Ser Absoluto”, “Esta Trindade é indivisível”), Tomás de Aquino (“Deus...deve ser puro ato”), Irineu (“Ele é um Ser simples, não-composto, sem membros diversos”), Clemente de Alexandria (“Pois o Um é indivisível”), Orígenes (Deus... é uma natureza intelectual não-composta”), Apolinário (“o espírito divino... é um, de forma simples, substância simples, indivisível”), Gregório de Nazianzeno (“natureza primeira e não – composta”), Gregório de Nissa (“livre de toda natureza composta”), Anselmo (“A Natureza de Deus de forma alguma é composta”), Calvino (“Deus se entende uma essência única e simples”).
       O argumento para a simplicidade de Deus também pode ser exposto filosoficamente, como aparece mesmo em Geisler sobre o Teísmo tomístico:

(i)                 Existe uma multiplicidade de seres.
(ii)               Os seres finitos se diferenciam quando suas potencialidades são atualizadas.
(iii)             Mas nenhuma potencialidade é capaz de atualizar por si própria.
(iv)             Logo precisa haver algo que é Pura Atualidade.
(v)               Seres simples não são compostos de nenhuma forma ou matéria para se diferenciar.
(vi)             Não há multiplicidade se não há diferença.
(vii)           Portanto só existe um Ser Simples (Deus).

O argumento conclui a existência de um Deus simples, sem potencialidades ou componentes. A existência de um só Deus e a unidade absoluta simples da Trindade também é ensinada nas Escrituras:

Ouça, ó Israel: O Senhor, o nosso Deus, é o único Senhor. - Deuteronômio 6:4
Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.- 1 Timóteo 2:5
E o escriba lhe disse: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele; - Marcos 12:32
Quão grande és tu, ó Soberano Senhor! Não há ninguém como tu nem há outro Deus além de ti, conforme tudo o que sabemos. - 2 Samuel 7:22
Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão. - Romanos 3:30
Jeová será rei sobre toda a terra; naquele dia um só será Jeová, e um só o seu nome. – Zacarias 14.9
Ao único Deus, sábio, seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém. - Romanos 16:27
Ora, o mediador não o é de um só, mas Deus é um só. - Gálatas 3:20

Ao único Deus, nosso Salvador, por Jesus Cristo nosso Senhor, glória, majestade, domínio e poder, antes de todos os séculos, e agora, e para todo o sempre. Amém. – Judas 1.25


       É dito do Pai como sendo “o Único Deus Verdadeiro” (João 17.3). Ainda Jesus Cristo é retratado como o Único: Único Senhor (1 Coríntios8.6), Único Soberano (Judas 1.4), Único Mestre (Mateus 23.8, 10). Também é dito que o Espírito de Deus é o Espírito de Cristo (Rm8.9) e que “Há um só Espírito” (Efésios 4.4). De acordo com o Concílio de Florença (1442): ““Por causa desta unidade, o Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho”. Cremos e confessamos, portanto, que há absolutamente um só Deus e que Deus é absolutamente um só. No entanto, essa crença firme na unidade de Deus não deve nos levar a pensar que a unidade é mais importante que a diversidade em Deus. Há uma distinção real entre as pessoas divinas, que não são meros modos de Deus se manifestar. Os membros da Divindade são sujeitos reais e verdadeiramente distintos que se relacionam entre si. Afirmar o contrário é cair na heresia do modalismo. Deus nos guarde disso!

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