sábado, 2 de janeiro de 2016

A BÍBLIA ADMITE MUITAS INTERPRETAÇÕES?

       Há três possíveis respostas a essa pergunta, não obstante apenas uma é verdadeira. Uma primeira resposta possível seria dizer que sim, a Bíblia admite muitas interpretações que dependem de um jogo de linguagem e da leitura subjetiva do fiel. A Escritura é um livro de fé, sendo a fé de natureza mística e subjetiva, logo o texto sagrado admitiria muitas interpretações. Nesse sentido, a Bíblia teria muitos “significados”, “Ela se renova a cada manhã”. Cada texto traria um significado oculto que precisaria ser escavado, “A Bíblia seria um poço profundo”, mas esse significado não seria universal, mas subjetivo. Cada crente retiraria do texto um sentido especial para a sua vida. Esse “sentido” seria algo que dependeria de fatores contextuais. Em um dia triste, um texto bíblico poderia ser interpretado para significar “consolo”, numa situação de dúvida para tomar uma decisão, como um “manual de autoajuda”, num momento em que se exige esperança uma “caixa de promessas”. Essa visão parece de fato atraente, e não é isso que percebemos hoje no mundo cristão? Quantas interpretações tem surgido do texto bíblico. Alegaríamos que só uma está com a verdade? Ou reconheceríamos que existem muitas interpretações verdadeiras? Esse ponto de vista pode ser chamado de “Relativismo hermenêutico”. Essa visão entende que UMA linguagem bíblica admite MUITAS interpretações
       A segunda resposta possível pode ser chamada de Esssencialismo hermenêutico. A Bíblia admite apenas UMA interpretação que pode ser expressa apenas de UMA maneira e possuindo uma única implicação. O texto bíblico não pode ter muitos sentidos e interpretações, pois senão estaríamos diante de uma bagunça. Como defender uma verdade bíblica se essa verdade pode ser interpretada de várias formas? Como várias interpretações contraditórias poderiam ser igualmente verdadeiras? A Bíblia portanto só tem um sentido e uma aplicação. Não devemos pensar na aplicação do texto para um contexto especial, mas lê-lo por si só. Deveríamos evitar “interpretar” o texto e mesmo tentar achar as aplicações dele para nossa vida. Isso porque o texto não tem uma aplicação subjetiva, ele simplesmente diz o que ele diz. Nesse sentido são desnecessários os comentários bíblicos, bem como a reflexão sobre como o texto se aplica na nossa vida. O texto quer dizer simplesmente o que ele fala e ponto final, nada mais deve ser buscado, não deve se buscar a aplicação para nossa vida, nem o que o texto implica para nós. Basta ler o texto e pronto, o que ele falou está dito, não tem nenhuma aplicação subjetiva, nem poderia ser expresso de outra forma. Seria sensato substituir as pregações e mensagens, pela simples leitura do texto bíblico, não podemos “parafrasear” nem dizer “em outras palavras” o que o texto está querendo dizer. Isso seria corromper o seu significado. A Bíblia, ela é perfeita, por isso o que ela diz está dito de maneira perfeita, não pode ser expresso de outra forma. Essa visão também aparenta ser atraente, de fato ela nos ensina a deixar a Bíblia dizer o que ela diz somente do jeito que ela diz e sem querer procurar “aplicações” pessoais – isso parece valorizar a verdade da Bíblia.

       Essas duas visões expostas acima estão erradas. A posição alternativa que defendo pode ser chamada de “Realismo Hermenêutico”. A Bíblia possui UMA única interpretação correta, mas que possui MUITAS aplicações e implicações, e que também pode ser expressa de diferentes formas linguisticamente. Por exemplo, quando as Escrituras dizem “O Senhor é meu Pastor” (Salmos 23.1), isso só possui uma interpretação correta, a de que Deus cuida de nós como um pastor cuida de suas ovelhas – não se deve pensar que exista outras “interpretações”, nem sair procurando outros sentidos e significados ocultos para o texto. Por outro lado, essa interpretação pode ser aplicada em diferentes contextos. Essas palavras podem ser aplicadas para falar que Deus cuida de mim quando estou doente, num momento de dificuldades financeiras, diante de um momento de angústias, etc. Não obstante, essas aplicações não fogem do significado básico, que é único. Um mesmo significado também pode ser expresso de diversas formas linguisticamente. A expressão “Toda Escritura é divinamente inspirada” (2 Timóteo 3.16) pode também ser expressa linguisticamente como “A Bíblia inteira é inspirada por Deus”.  Duas expressões linguísticas, mas o mesmo significado. O texto bíblico, portanto, possui um único significado, um só sentido e apenas uma única interpretação correta, mas que pode ser aplicadas e expressas de diversas formas, possuindo várias implicações.

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