sexta-feira, 18 de março de 2016

BASES TEOLÓGICAS DA SUBMISSÃO FEMININA

             A feminista Simone de Beauvoir observou que aos homens sempre pertenceu a vontade de dominar a mulher. Tal dominação teria sido favorecida até mesmo por uma questão biológica. Enquanto o homem transcende a Vida pela Existência, a mulher teria sido biologicamente destinada a repetir a Vida, o que, duma ótica feminista, poderia ser considerado uma “desgraça”. Seria possível então enxergar nas relações de dominação do homem sobre a mulher não só uma questão da ordem da dialética hegeliana senhor-escravo, mas uma opressão em que mesmo a mulher visa e reconhece os valores do homem. Logo, a submissão feminina teria sido uma etapa necessária e natural da humanidade e não questão de um mero acaso ou revolução violenta.
       Beauvoir evoca a ideia platônica do binário para analisar como o homem olha para a mulher. No binarismo platônico se sai do uno e se vai para o duo, criando-se duas forças antagônicas, como na relação “bem e mal”, “luz e trevas”, “paz e guerra”. Esse par de contrários estaria, por sua vez, refletido nas relações “homem e mulher”. Desse modo, o homem seria o “Bom” que pensa no Outro (a mulher) como o seu par contrário, isto é, o mal. Segundo essa visão um tanto maniqueísta de realidade a própria diferença por si só já estabeleceria um mecanismo de dominação.
      De certo modo, o governo masculino sobre a mulher seria universal. A mulher em todas as culturas encontrou-se sob a dominação do homem. Mesmo naquelas sociedades em que seria possível identificar a presença de uma mulher-chefe ou como no caso do Brasil em que uma mulher ocupou a presidência, o prestígio que a mulher usufrui nessa posição é apreendido pela consciência masculina e somente é venerada porque o homem a coloca neste lugar.
       Em certo sentido, poder-se-ia separar duas coisas que muitas vezes são más compreendidas numa lógica dialética. Há que se concordar que de algum modo existe um princípio natural que estabelece a submissão feminina, segundo, que é um erro pensar que toda relação de submissão pressupõe uma dominação opressiva. De fato, há uma hierarquia funcional nas relações humanas e tais relações são necessárias em vários âmbitos. Tomemos como exemplo a aprendizagem, se pretendemos aprender algo de alguém, pressupomos que necessariamente tal pessoa sabe mais do que nós mesmos sobre esse determinado assunto, caso contrário não haveria aprendizagem. Poderia se dizer corretamente que no que diz respeito a esse determinado assunto, tal pessoa está em uma posição “superior” à nossa, o que não significa dar a ela uma condição ontológica superior, nem estabelecer mecanismos de dominação opressiva.
       Reivindicar a crença na moralidade da submissão feminina nos âmbitos eclesiástico e familiar, não significa, ou ao menos não deveria significar, uma relação de opressão. Nem o fato de reconhecer a autoridade masculina deve implicar num rebaixamento ontológico da dignidade feminina. A mulher não é um “Outro” mal em relação ao homem, ao contrário, é tão humano quanto o mesmo.  Deve ficar claro, então, que: (i) a submissão feminina é um princípio moral universal; (ii) a submissão feminina não implica necessariamente um mecanismo de dominação opressiva e; (iii) a submissão feminina não significa rebaixamento do valor ontológico da feminilidade. Portanto, precisamos rejeitar o pensamento que tende a pensar na diferença e na hierarquia econômica como necessariamente pressupondo mecanismos de dominação opressiva. Tendo isso em mente, vamos conceituar "submissão feminina" e em seguida tratar das suas bases teológicas:

CONCEITO CRISTÃO DE SUBMISSÃO FEMININA

       Primeiro, etimologicamente falando, a palavra “submissão” remete a Genesis 2.16, quando o homem recebe a MISSÃO de lavrador e dominador da terra, a mulher é criada para ajudá-lo nessa missão de extrair da Terra o seu sustento e de governar o mundo, por isso, uma subMISSÃO, o ofício de adjutora. Ainda, quando se fala de "submissão" não falamos da subjugação a uma dominação coercitiva, mas uma submissão voluntária a uma autoridade que deve ser amorosa. É claro, no entanto, que o ensino bíblico tem implicações que em geral desagradam a nós, humanos pecadores.
       O conceito cristão de submissão feminina é somente funcional, não diz respeito a algo como a mulher ser inferior ou alguma coisa assim. O sentido é que existem funções e ofícios que Deus designou como próprios do feminino (exemplo: ser uma boa mãe e edificar o lar), como existem funções próprias da masculinidade (como liderar a casa e devotar amor sacrifical à esposa). Isso não significa que um não posso auxiliar o outro em sua função. Devemos ser contra a inversão de funções entre o homem e a mulher. Tal inversão seria uma 'violência simbólica', uma usurpação do campo próprio do outro. E é justamente por isso que o que falamos é de um respeito pela diferença e pela alteridade. Assim como há no Cristianismo uma visão da feminilidade, há também uma da masculinidade. Teologicamente cremos que o dever do homem é abrir mão de toda pulsão de agressividade, a fim de que possa devotar à mulher um amor à semelhança do amor divino pela Igreja. Falamos de uma função masculina que exige sacrifício da ira, da agressividade, e de outras emoções, a fim de que o amor do marido seja o mais sublime e excelso possível.
        Sabemos que há famílias lideradas por mulheres e que há homens que não sacrificam seus impulsos agressivos e opressores no exercício de sua autoridade - nos dois casos temos uma inversão de valores. Mas novamente, é isto que deve ficar claro, estamos falando de relações funcionais visíveis naquilo que é mais próprio de cada gênero, não falamos de valor ou dignidade - pois nesse âmbito - não há homem ou mulher - ambos são igualmente importantes e interdependentes. Os homens não seriam nada sem as mulheres, e as mulheres não seriam nada sem os homens. Nenhum pode erguer seu "ego" e dizer "eu me basto", mas deve cada gênero, reconhecer a existência do outro como igualmente necessária para sua própria existência - aliás, é justamente a união mística dos dois gêneros que propiciou a nossa existência. Não cremos nem em uma mulher que não necessite do masculino, nem de um homem que não necessite do feminino. E por isso, o conceito cristão é contra o egoísmo e a autossuficiência, um golpe que abre uma ferida no narcisismo do ser humano.

BASE CRIACIONAL

       A submissão feminina não é uma consequência do pecado, mas um princípio estabelecido na criação. Primeiro foi criado o homem, depois a mulher e a esta foi dada a função de ser “uma adjutora que esteja diante dele” (Gênesis 2.18). Assim, a autoridade do homem sobre a mulher não foi uma consequência do pecado, mas é uma ordem estabelecida na Criação. Como já considerado, a submissão feminina é universal, estará presente enquanto formos humanos, pois é da ordem da própria natureza da Criação. O Livro das Origens, no entanto, revela a real consequência do pecado, quando a sentença dirigida à mulher impõe: “e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” (Gênesis 3.16). Em outras palavras, o desejo da mulher seria dominar sobre o seu marido, mas ele a dominaria. Isso explica o porquê muitas mulheres se revoltam contra “o patriarcado”, isto é, o pecado trouxe como consequência a revolta feminina contra a autoridade do homem.

BASE TRINITÁRIA

       A submissão feminina também está alicerçada sobre o dogma da Santíssima Trindade, o perfeitíssimo modelo relacional para compreender a intersubjetividade. A igualdade ontológica e a subordinação econômica entre as Pessoas divinas são refletidas nas relações familiares entre a mulher e o homem.

Igualdade Ontológica

       A igualdade ontológica das pessoas divinas é refletida na igualdade que há na natureza entre homens e mulheres, que são de igual valor e dignidade. Não há, nesse sentido, diferença entre homem e mulher (Gálatas 3.18). O valor ontológico da feminilidade é preservado na concepção cristã, e não é rebaixado pela doutrina da submissão feminina.
       Podemos observar várias evidências que revelam que a Bíblia traz uma visão do valor da mulher bem diferente das concepções misóginas de algumas religiões e pensadores antigos. O Antigo Testamento ordena a circuncisão masculina, mas não a circuncisão feminina. Também, é um ensino claro das Escrituras que tanto homem como mulher são imagem e semelhança de Deus. Diferente de outras leis machistas antigas, a Torah ordenava aos filhos a se subordinarem ao pai e a mãe. Ainda, a Bíblia é contra a poligamia, que é uma forma de machismo presente em culturas não-cristãs. Diferente do antagonismo de contrários, a Palavra de Deus considera a mulher “o bem” (Provérbios 18.22). A Bíblia, também condena o desprezo à mulher (Provérbios 19.26; 23.22). Encontramos até mesmo uma linguagem similar à de propriedade para falar do homem para com a mulher – “o meu amado é meu” (Cântares 6.3). A Lei prescrevia uma situação de humilhação que o homem sofreria de uma mulher (Deuteronômio 25.8-10). A Tanach faz ainda referência a grandes e notórias mulheres, entre elas: Sara, Agar, Rebeca, Raquel, Lia, Tamar, Sifrá, Puá, Miriã, Zípora, Débora, Rute, Noemi, Abigail, Raabe. Juízes 4.4 diz que Débora era uma profetiza que “liderava Israel” (Juízes 4.4).  Observe que até aqui foi considerada apenas a visão do Antigo Testamento sobre a mulher e seu valor: “Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor em muito ultrapassa os das mais finas joias! ” (Provérbios 31.10). Quanto mais poderíamos falar de como Jesus tratou as mulheres com dignidade, numa época em que as mulheres não eram tidas com muito respeito (cf. João 4.9,27).

Subordinação Econômica
       Sem estabelecer um rebaixamento ontológico, em termos de ofícios familiares e eclesiásticos homem e mulher não são iguais. Assim como na Trindade o Filho é subordinado ao Pai, a mulher deve ser submissa a chefia do marido. Uma família precisa de um cabeça. A esposa deve viver de acordo com os princípios da sujeição cristã, mesmo em situações provadoras ou ainda que seu marido seja descrente. Na medida em que essa subordinação existe na Trindade, Deus não está ordenando algo que não exista de algum modo nele mesmo. Mas o mais importante é que Cristo aparece como o modelo de chefia, de tal modo deve ser a relação entre marido e mulher que retrate em certo sentido o amor e glória existente entre as pessoas da divindade - 1 Coríntios 11.3.

BASE ECLESIOLÓGICA

       Por fim, a relação entre marido e esposa reflete a união mística entre Cristo e a Igreja. Efésios 5.21-33 estabelece essa questão de maneira bastante clara. De acordo com a BEP “a esposa tem a tarefa, dada por Deus, de ajudar o marido e de submeter-se a ele (v.22-24). Seu dever para com o marido inclui o amor (Tt2.4), o respeito (v.33; 1Pe3.1,2), a ajuda (Gn 2.8), a pureza (Tt2.5; 1Pe3.2), a submissão (v.22; 1Pe3.5), um espírito manso e quieto (1Pe3.4) e o ser boa mãe (Tt2.4) e dona de casa (1Tm2.15; 5.14; Tt2.5).”  Por sua vez, são responsabilidades do marido:  “ (1) provisão para as necessidades espirituais e domésticas da família (vv.23,24; Gn3.16-19; 1Tm5.8); (2) o amor, a proteção, a segurança e o interesse pelo bem – estar dela, da mesma maneira que Cristo ama a Igreja (vv.25-33); (3) honra, compreensão, apreço e consideração pela esposa (CL3.19; 1Pe3.7); (4) lealdade e fidelidade totais na vida conjugal (v.31; Mt5.27,28). ”
       Há também implicações eclesiásticas para a submissão feminina. O ministério pastoral não pode ser exercido por uma mulher. Biblicamente falando não existe “bispa”, “pastora”, “diaconisa”, “apóstola” e coisas do tipo. Uma mulher não deve ensinar com autoridade à Igreja: “A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, e depois Eva. E Adão não foi enganado, mas sim a mulher, que, tendo sido enganada, tornou-se transgressora. ” (1 Timóteo 2:11-14).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

       É importante salientar que o Cristianismo, embora ensine a submissão feminina, não apóia o exercício autoritário da chefia masculina. O marido que trata sua mulher de maneira machista e opressiva não está agindo segundo Cristo, não é isso que significa exercer autoridade masculina. O ensino bíblico da submissão feminina não quer dizer, também, que a mulher não possa projetar-se na sociedade, nem que ela seja inferior ao homem. As bases teológicas tratadas aqui devem deixar claro que o que está em questão são deveres mútuos (não uma relação de dominação opressiva), em que o marido cumpre seu dever para com a mulher amando-a, e a mulher se sujeita ao marido colocando-se sob sua chefia (Efésios5.21ss).
       É claro que a doutrina da submissão feminina é difícil de aceitar, ainda mais quando o marxismo cultural nutriu aversão na sociedade contra qualquer atitude de submeter-se a alguma autoridade - mas que importa se é Deus quem convence aqueles que Ele quer a aceitar essa verdade e endurece a quem Ele quer para rejeitá-la? Em tudo a glória de Deus é revelada!


FONTES


A Lei de Deus e a Mulher na Igreja — Dr. George Knight.

Cheung, V. (2003). Teologia Sistemática. Monergismo.

Lucas Banzoli – Deus é um delírio?

O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir.

Stamps, D. C. (1995). Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD

Testemunhas de Jeová (2009). O que a Bíblia realmente ensina? Cesário Lange: Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados.


sexta-feira, 11 de março de 2016

LILITH - A DEMÔNIA BANIDA DA BÍBLIA?

       De acordo com alguns, Lilith foi criada do pó da Terra assim como Adão, mas por se negar a deitar-se sob ele no coito, rebelou-se contra a autoridade masculina, abandonou o Éden e habitou como uma demônia no deserto. Logo em seguida, Eva foi criada em real papel de submissão. É importante salientar que essa ideia de Lilith como predecessora de Eva, surge apenas primeiro no Alfabeto de Ben – Sira composto por volta do século VII d. C., isto, é uns 2 milênios após a data tradicional para a escrita do Gênesis. As bases para essa Teoria são refutadas abaixo:

      1.      TEORIA DOCUMENTÁRIA

   A base para dizer que o mito de Lilith como predecessora de Eva pudesse fazer parte do relato original do Gênesis, é baseada na Teoria JEPD, segundo a qual o Pentateuco seria um conjunto de fragmentos de diferentes autores reunidos como se fosse uma mesma obra de um mesmo autor. São 4 os documentos que comporiam o Pentateuco: Jeovista (J), Elohista (E), Deuteronomista (D) e Sacerdotal (P), compilados por volta do séc. V a.C. A base inicial para a Teoria Documentária, como se percebe pelo nome dos documentos, seria o uso de títulos diferentes para Deus e supostos textos que indicam composições.
       A Teoria Documentária só ganhou sua forma popularizada com Julius Wellhausen, em 1876 d.C. A fraqueza dessa Teoria se vê pelo fato de que usar nomes diferentes para Deus numa mesma obra revela tão simplesmente os diferentes atributos e manifestações do divino e o estilo de um livro varia naturalmente de acordo com os assuntos em foco. Ainda cito a ausência de evidência manuscritológica para os manuscritos circulantes que depois teriam formado a composição final.
      Em favor da posição tradicional da autoria mosaica, cito suscintamente: (i) O testemunho interno da obra do Pentateuco (iii) A confirmação dos livros históricos posteriores; (iii) A unidade literária-textual; (iv) A unidade histórica e (v) A unidade temática. Não há, portanto, evidência sólida para defender que o Gênesis é um conjunto de fragmentos do qual durante o processo de compilação preferiu-se omitir o mito de Lilith.

       2.      VERSÍCULOS QUE APOIARIAM A TEORIA

       As três passagens principais para supor que Eva foi a segunda mulher de Adão, e não a primeira, são Gênesis 1.27, que relata a criação de “macho e fêmea” antes do relato do capítulo 2.5ss, o texto em que Adão diz “agora sim” essa é carne da minha carne (Gênesis2.23) e Isaías 34.14 que cita Lilith habitando no deserto. Quanto ao primeiro texto, é importante salientar que Gênesis 1.1 – 2.4 e Gênesis 2.5ss formam dois capítulos, o que acontece é que o primeiro capítulo é prólogo do segundo. Sendo assim o primeiro bloco introduz a criação do primeiro casal, enquanto o segundo detalha a questão. Não faz também, o mínimo sentido achar que 1.27 trata de um “Adão andrógeno” ou da criação de Lilith. Quanto a 2.23, o “agora sim”, contextualmente, é emitido diante da constatação de que um homem não pode casar com animais. A mulher (Eva), esta sim, pode formar um casal com o homem, já que casamento é a união entre um homem e uma mulher, e não entre um homem e um animal. Por fim, Isaías 34.14, por ser uma lista de animais habitando o deserto é coerente com as traduções que vertem lilith por “coruja” ou algo similar. Nenhum dos versos que supostamente apoiariam o mito, quando analisados em seu contexto se adequam a ideia.
        Por fim, a questão mais evidente para concluir que o mito de Lilith não poderia fazer parte de Gênesis é que o mito não combina nem um pouco com o livro, cujo estilo é essencialmente histórico. O Pentateuco raramente faz alusão à demônios e coisas do tipo e qualquer um que leia Gênesis perceberá que não há como cogitar a possibilidade de que essa estória pudesse constar no livro.  

REFERÊNCIAS