domingo, 10 de abril de 2016

A GERAÇÃO ETERNA DO FILHO

       Muitos cristãos têm descartado ou a ignorado a crença trinitária clássica na geração eterna do Filho de Deus. Este artigo busca retomar essa verdade como importante para uma cosmovisão trinitária e até mesmo para a práxis cristã.

TRINDADE ONTOLÓGICA, IMANENTE E ECONÔMICA

       Willian Lane Craig, negando a doutrina da geração eterna do Filho, afirma que acha que seria “útil distinguir entre a Trindade ontológica e a Trindade econômica. A Trindade ontológica é a Trindade conforme existe por si mesma à parte da relação de Deus com o mundo. A Trindade econômica está relacionada aos diferentes papéis interpretados pelas pessoas da Trindade com relação ao mundo e, especialmente, com relação ao plano da salvação. Na Trindade econômica há subordinação (ou, talvez seja melhor dizer, submissão) de uma pessoa à outra, assim como o Filho encarnado faz a vontade do Pai e o Espírito fala, não por sua própria conta, mas em nome do Filho. A Trindade econômica não reflete diferenças ontológicas entre as pessoas; pelo contrário, é uma expressão da amorosa condescendência de Deus em prol da salvação. O erro da cristologia do Logos está em combinar a Trindade econômica com a Trindade ontológica, introduzindo a subordinação na natureza da própria Divindade. ” A Regra de Rahner por outro lado diz o contrário: “A Trindade ‘econômica’ é a Trindade ‘imanente’ e a Trindade ‘imanente’ é a Trindade ‘econômica’”. Quem estará correto Craig ou a Regra de Rahner?
       Creio que as duas visões se complementam. Não pode haver subordinação ontológica na Trindade. Pai, Filho e Espírito são iguais em essência, glória, força e poder. Entendo que o Filho não tem uma existência contingente, ele não pode não-ser. Desse modo Craig acerta ao dizer que economia e ontologia não são a mesma coisa. De fato, as pessoas da Trindade se relacionam numa ordem econômica, mas são iguais ontologicamente. Discordo assim, da segunda parte da Regra de Rahner ““A Trindade ‘imanente’ é a Trindade ‘econômica’”, se isso for entendido no sentido de que o Deus Triúno é somente Deus em relação à Criação. Neste caso, temos o risco de pensar em Deus somente como imanente, destituindo-o de Sua transcendência.
       Por outro lado, proponho ampliar um pouco a noção de economia, para pensar nas relações da Trindade imanente. Se entendermos “economia” como a relação da Trindade com a Criação, consequentemente teríamos de admitir que as distinções pessoais das pessoas divinas não são reais, mas apenas autodistinções que aparecem nas funções, papéis e atos interpretados pelo divino. Corremos aqui o risco de uma espécie de modalismo, no qual as distinções entre as pessoas em Deus só são relativas às suas funções, mas não às suas propriedades. Neste caso, Deus seria uma só Pessoa na sua transcendência, mas que na medida em que se relaciona com o Universo se apresenta em uma triunidade de funções que permite-nos estabelecer uma distinção.
       Assim, estamos diante de dois perigos. Se assumimos a posição de que a Trindade econômica nada tem a ver com a ontológica, podemos cair num modalismo que destrói as distinções reais das pessoas divinas, por outro lado, se assumimos que a Trindade econômica e a Trindade imanente são uma e a mesma coisa, podemos cair numa visão ariana ou semiariana e no subordinacionismo ontológico.
      Minha proposta é usar três termos para falar da Trindade. O primeiro seria a “Trindade ontológica”, como se referindo ao que Deus é em sua essência, isto é, uma unidade absolutamente simples, na qual não há maior, nem menor. Já ontologicamente, Deus é um Ser individual pessoal autoconsciente. O segundo seria a “Trindade econômica”, isto é, as relações das Pessoas divinas com a criação, o que estabelece uma distinção e uma subordinação funcional e temporal entre as Pessoas da divindade. A terceira seria a “Trindade Imanente”, isto é, as relações metafísicas das pessoas divinas na atemporalidade, ou estado eterno, estabelecendo uma distinção de propriedades e uma subordinação nas relações eternas (não na ontologia) das Pessoas divinas. Neste caso, fugimos do subordinacionismo ontológico, afirmando a igualdade essencial entre as pessoas divinas e ao mesmo tempo nos protegemos contra a redução das distinções à economia, o que poderia levar a uma espécie de modalismo.
       A discussão que pretendo chegar aqui é a afirmar a primeira parte da regra de Rahner para pensar na geração eterna do Filho. “A Trindade ‘econômica’ é a Trindade ‘imanente’”. Isto é, as relações econômicas de Deus na criação refletem as relações eternas que nEle existem na atemporalidade.

A PRIMEIRA PARTE DA REGRA DE RAHNER E A FILIAÇÃO ETERNA DE CRISTO

       Levando em conta a primeira parte da regra de Rahner, podemos crer que a relação econômica de geração do Filho por Deus Pai reflete as propriedades divinas de paternidade e filiação. As Escrituras falam da economia trinitária em relação à Criação fazendo claras referências a geração do Filho. Isso é dito relacionado à Ressurreição: “"Nós lhes anunciamos as boas novas: o que Deus prometeu a nossos antepassados ele cumpriu para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no Salmo segundo: ‘Tu és meu filho; eu hoje te gerei’. ” (Atos 13.32 - 33). O autor de Hebreus fala de vários momentos econômicos em que Jesus foi reconhecido como Filho de Deus relacionando isso a questão da geração: “O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, ele se assentou à direita da Majestade nas alturas, tornando-se tão superior aos anjos quanto o nome que herdou é superior ao deles. Pois a qual dos anjos Deus alguma vez disse: ‘Tu és meu Filho; eu hoje te gerei"? E outra vez: "Eu serei seu Pai, e ele será meu Filho’? ” (Hebreus 1.3-5). Na economia trinitária, o Antigo Testamento vaticina que o Messias recebe por herança as nações, tendo esse direito assegurado pelo decreto da filiação: “’Eu mesmo estabeleci o meu rei em Sião, no meu santo monte’. Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: ‘Tu és meu filho; eu hoje te gerei.  Pede-me, e te darei as nações como herança e os confins da terra como tua propriedade. ’” (Salmos 2.6-8). Aquele que é declarado “Filho” no cumprimento de seus atos econômicos, o é por Sua Filiação Eterna na Trindade Imanente.
       O Filho é gerado pelo Pai antes de todos os tempos. Desse modo, a geração do Filho não é um ato concluído, mas necessário e eterno, continuando sempre, mas sempre completo. Cristo é identificado como monogenes (Unigênito, único gerado – João 1:14, 18; 3.16, 18; 1Jo 4.9). A ideia é de que Cristo é o único Filho de Deus literalmente gerado dele. “Gerar” significa ser origem de um “da mesma espécie” ( Gênesis 1.11-12; 21-25), e assim como “gatos” geram “gatos” e “cachorros” geram “cachorros”, o Pai gerou o Filho da mesma espécie, “Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro”, “O Nascido de Deus” (1 João 5.18), conforme  P75 e P66 “o Deus Unigênito” (João 1.14) . Essa geração se deu antes de todos os tempos: “e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade. ” (Miquéias 5.2). “Antes que os montes se houvessem assentado, antes dos outeiros, eu fui gerada.(Provérbios 8.25). De modo que nunca houve um tempo em que o Pai fosse Pai sem um Filho e o Filho fosse Filho sem um Pai: “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse. Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo. ” (João 17.5, 24). Quando as Escrituras chamam Jesus de “Filho de Deus”, isto não é uma simples metáfora para querer trazer a ideia de “igualdade”, ou apenas uma questão encarnacionista e econômica. Jesus de fato é o Filho de Deus desde sempre e para sempre.

GERAÇÃO DA PESSOA E COMUNICAÇÃO DA ESSÊNCIA

       A geração é o ato pelo qual o Pai é o Princípio que serve de base para um segundo modo de existência dentro do ser divino. Não é a natureza ou a essência o que é gerado, mas sim a Pessoa. Desse modo, a natureza ontológica é numericamente uma só, absolutamente uma. Preserva-se assim também todos os atributos da essência divina, incluindo sua unidade absoluta e sua existência necessária não-contingente. Desse modo, o Filho tem a essência divina de si mesmo como Deus, não sendo portanto contingente ou dependente, isso porque a essência divina do Filho, embora comunicada do Pai, não é derivada de outra essência, e por isso é “em si”, absoluta e necessária. O Filho continua portanto sendo “Deus de si mesmo”, mesmo Sua essência fluindo do Pai. Interessantemente, a própria Escritura se utiliza dessa linguagem aparentemente paradoxal: “Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo. ” (João 5.26). Ainda Paulo escreveu: “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” (Colossenses 1.19).
     Tudo o que o Filho recebe, pensando mesmo na primeira parte da Regra de Rahner, quer no âmbito da economia, quer da imanência, Ele o recebo do Pai: “Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: “Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente. Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que faz; e ele lhe mostrará maiores obras do que estas, para que vos maravilheis. Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos, e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer. E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo; Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou. ... Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo; E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem. ... Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou. Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro. Há outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro. ” (João 5:19-32).  Se nos atos econômicos temporais da Trindade há uma relação de subordinação, adotando a primeira parte da regra de Rahner, me parece haver uma boa base para afirmar uma subordinação eterna não – ontológica nas relações (não na essência) das pessoas divinas. Condeno, porém, como herege, qualquer que ensine em termos ontológicos qualquer espécie de subordinacionismo do Filho ao Pai.


SUBORDINAÇÃO ETERNA DO FILHO AO PAI


“Quero, porém, que entendam que o cabeça de todo homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de Cristo é Deus.”  
1 Coríntios 11.3
       Letham apresenta dois argumentos a favor da subordinação eterna, um a partir da união hipostática e outro a partir da primeira parte da Regra de Rahner:

*ARGUMENTO A PARTIR DA UNIÃO HIPOSTÁTICA

1. O sujeito de todas as ações de Jesus, mesmo aquelas feitas em razão da sua natureza humana, é a Pessoa divina do Logos (“...um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor”Declaração de Calcedônia)
2. Jesus, de sua encarnação até a sua morte, se humilhou em subordinação ao Pai.
3. Logo, foi a Pessoa divina do Filho quem se subordinou ao Pai.

       Estabelecido que quando o Credo Atanasiano afirma que Jesus se subordinou "segundo a carne" (31. "...menor do que o Pai com relação à sua humanidade." ) isso implica, por causa da união hipostática, que não só a natureza humana, mas a "pessoa divina" (não a natureza divina! - o que seria subordinacionismo) se subordinou ao Pai, poderia se dizer corretamente que "Deus Filho se subordinou a Deus Pai". Dessa conclusão caminharíamos à primeira regra de Rahner:

*ARGUMENTO A PARTIR DA PRIMEIRA PARTE DA REGRA DE RAHNER

1. Deus Filho se subordinou ao Pai na Trindade Econômica
2. “A Trindade ‘econômica’ é a Trindade ‘imanente’”, isto é, as relações econômicas de Deus na criação refletem as relações eternas que nEle existem na atemporalidade.
3. Logo, uma subordinação eterna do Filho ao Pai na Trindade Econômica seria a base para a subordinação temporal do Pai ao Filho na Trindade Econômica.

       Letham afirma que se não foi contrário à divindade do Filho que ele se subordinasse ao Pai na Trindade Econômica, não deveria ser contrário a sua divindade que Ele se subordinasse ao Pai na Trindade Imanente, visto que quem se subordinou foi a "pessoa divina" do Filho.
     A subordinação eterna do Filho ao Pai é defendida por Charles Hodge, A. Strong, Wayne Grudem. Robert Letham,John Dahms, Peter Schemm, Bruce Ware, J. Scott Horrell, Andreas J. Köstenberger, Scott R. Swain e me parece que também Norman Geisler (cf. TS1, p.801: "Uma palavra final sobre a natureza e duração dessa subordinação na divindade. Não é somente temporal e econômica; é essencial e eterna"). A maneira como a Confissão de Fé de Westminster anuncia as pessoas divinas já me parece sugerir ou insinuar (mas sem afirmar) a eternidade dessa subordinação, por dois motivos: (1) Ela coloca as três pessoas numa ordem, primeiro o Pai, depois o Filho e depois o Espírito e em seguida afirma as propriedades eternas das pessoas como base das distinções entre elas (CFW II.III); (2) Ela usa a numeração "Segunda Pessoa da Trindade" em relação ao Filho (CFW VIII.II), sugerindo uma ordem entre as pessoas da Trindade.

       Agora, não restam dúvidas de que o subordinacionismo ontológico (a ideia de que a natureza divina do Filho é inferior à do Pai ou que alguma pessoa da Trindade é essencialmente menor ou maior do que outra) é uma heresia ("E nessa Trindade nenhum é primeiro ou último, nenhum é maior ou menor." Credo Atanasiano, 24), mas afirmar uma subordinação nas relações eternas não é o mesmo que afirmar um subordinacionismo na essência divina.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

       A crença na geração eterna do Filho é bastante relevante, ela serve de modelo eterno para as relações temporais de paternidade e filiação entre os humanos. Existem pais e filhos, porque existe no Absoluto uma relação que serve de base para toda paternidade e filiação entre os humanos. A unidade de amor entre Jesus e Seu Pai deve servir de paradigma e exemplo perfeito para nós. Tal qual o Deus Unigênito, os filhos devem viver em submissão voluntária e tal qual o Deus Pai, devem os pais amarem os filhos em vínculo supremo.
      Ainda, só somos redimidos, chamados “filhos de Deus” porque nosso Representante é “o Filho de Deus”. Aquele que redimiu os eleitos deu-lhes o poder de serem adotados como “filhos de Deus” (João 1.12). Quão bom é, em Cristo, sermos tratados por Deus Pai como “filhos”. É inegável a importância, até prática da doutrina da filiação eterna. Consideramos, portanto, que a negação da geração eterna do Filho traz prejuízos para a Fé Cristã.

       FONTES:

 Berkhof, Louis. Manual de doutrina cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
Teologia Sistemática – Franklin Ferreira, Alyan Myatt, VIDA NOVA, 2007
GEISLER, N. (2015). Teologia Sistemática 1. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus
Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas com Referências 


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