segunda-feira, 30 de maio de 2016

HISTÓRIA DO SUICÍDIO


       O fenômeno do suicídio foi dotado de diferentes significações no decorrer do pensamento histórico, desde visões que o entendiam como moralmente transgressor, até concepções que o compreendiam como um ato heróico. Já na Antiguidade Clássica é possível encontrar uma pluralidade de opiniões acerca do autoextermínio. Na história grega acham-se casos de suicídios por motivos de patriotismo, remorso, fidelidade, amor, castidade, fuga da senectude da velhice, dentre outros (Caeiro, 2011).
      No mundo grego existiam correntes que defendiam que o indivíduo não devia se matar sem o consentimento prévio da comunidade, pois isso seria um ataque a estrutura comunitária. No contexto romano, como por exemplo, em Atenas, o suicídio era considerado legítimo para níveis sociais mais altos (Gonçalves, Gonçalves, Junior, 2011). Por outro lado, na Roma Antiga, aos escravos e soldados, provavelmente por razões econômicas, era negado o ato suicida, mas não existia nenhum interdito legal contra homens livres que os impedissem de tirar a própria vida. Desse modo, no mundo romano a legitimidade do suicídio dependia da classe socioeconômica a qual o indivíduo pertencia (Aragao, 2014).
      As escolas filosóficas do mundo do Logos grego tinham diferentes teorias axiológicas sobre a moralidade ou imortalidade da morte voluntária. Os seguidores de Pitágoras eram peremptoriamente contrários ao ato suicida, dizendo que a morte voluntária quebrava a harmonia numérica que regia a alma.Os epicuristas e estoicos, por outro lado, adotavam uma concepção mais benevolente do suicídio, como um ato aconselhado pela sabedoria e que deveria ser executado com doçura, apropriado para uma situação em que se percebe que a vida não nos corre bem (Caeiro, 2011). 
       No mundo Hebreu Antigo, é possível encontrar no Velho Testamento da Bíblia, alguns relatos de suicídios:
- Abimeleque: “Ora, Gaal, filho de Ebede, tinha saído e estava à porta da cidade quando Abimeleque e seus homens saíram da sua emboscada.” - Juízes 9.35
- Saul: “Então Saul ordenou ao seu escudeiro: ‘Tire sua espada e mate-me com ela, senão sofrerei a vergonha de cair nas mãos desses incircuncisos’. Mas seu escudeiro estava apavorado e não quis fazê-lo. Saul, então, pegou a própria espada e jogou-se sobre ela.” - 1 Samuel 31.4
- Escudeiro de Saul: “Quando o escudeiro viu que Saul estava morto, jogou-se também sobre sua espada e morreu com ele.” – 1 Samuel 31.5
- Aitofel: “Vendo Aitofel que o seu conselho não havia sido aceito, selou seu jumento e foi para casa, para a sua cidade natal; pôs seus negócios em ordem, e depois se enforcou. Ele foi sepultado no túmulo de seu pai.” - 2 Samuel 17.23
- Zinri: “Quando Zinri viu que a cidade tinha sido tomada, entrou na cidadela do palácio real e incendiou o palácio em torno de si, e morreu”- 1 Reis 16.18
       Com o início da Era Cristã, já é possível encontrar nos Evangelhos um caso famoso de suicídio – o de Judas Iscariotes, conhecido por trair a Jesus: “Então Judas jogou o dinheiro dentro do templo, saindo, foi e enforcou-se.” - Mateus 27:5
       Na Idade Média, o suicídio passou a ser condenado, não só pela Igreja, mas também pelo Estado (Gonçalves, Gonçalves, Junior, 2011). Santo Agostino (354 – 430), em seu tratado “A Cidade de Deus”, condena radicalmente o suicídio como uma interdição do mandamento do Decálogo “Não matarás”. Com o Escolasticismo de influência aristotélica, São Tomás de Aquino (1266 – 1273). Em sua “Suma Teológica”, reafirma a proibição do suicídio e defende a interdição da sepultura de suicidas em terras sagradas. Tomás de Aquino via o homem como pertencente à sociedade, de modo que tirar a própria vida prejudicava toda a comunidade (Mendes, 2011).
       Na Idade Média, o suicídio era enxergado como uma tentação do demônio ou um ato de loucura. Não obstante, havia maneiras distintas de ver a morte voluntária dependendo da classe social a qual o indivíduo pertencia. O suicídio era considerado um crime quando cometido por camponeses, escravos, colonos e artesãos, sendo negado aos suicidas honras fúnebres. Por outro lado, no que dizia respeito aos cavaleiros medievais, a morte voluntária poderia ganhar o significado de um ato coragem, bravura e patriotismo (Aragao, 2014). Na realidade, o suicídio era um ato praticado na Idade Média por pessoas de todas as classes sociais e de ambos os sexos, sendo sujeito a severa punição (Caeiro, 2011). 
      Segundo Durkheim (2005, p.358 citado por Medeiros, 2008):
Mal as sociedades cristãs se constituíram, o suicídio foi formalmente proibido. Em 452, o concílio de Arles proclamou que o suicídio era um crime e que só podia ser consequência de uma fúria demoníaca. (...), em 563, no concílio de Praga, que essa prescrição recebeu uma sanção penal. Decidiu-se que os suicidas não seriam ‘honrados com nenhuma comemoração do santo sacrifício da missa e que o cântico dos salmos não acompanharia o seu corpo na descida ao túmulo’. A legislação civil inspirou-se no direito canônico e acrescentou às penas religiosas as penas materiais. Um capítulo das regras de São Luís regulamenta especialmente essa matéria: fazia-se um processo ao cadáver do suicida diante das autoridades que fossem competentes para o caso; os bens do falecido não eram herdados pelos sucessores, como de hábito, e eram restituídos ao nobre. Um grande número de costumes não se contentava com a confiscação e prescrevia ainda outros suplícios
       Nesse sentido, o suicida deveria ser punido de modo a servir de exemplo negativo. Assim, o suicida era condenado, punido e ultrajado mesmo depois de sua morte por ter transgredido as regras de viver em sociedade (Medeiros, 2008).
       Com o Renascimento, houve uma maior valorização da subjetividade e da individualidade perante a reconfiguração econômica de maior liberdade do comércio. Isso também produziu um contexto caracterizado por mais individualismo. Desse modo, houve um aumento progressivo da tendência ao isolamento, o que pode contribuir para gerar sentimentos de angústia, solidão e inquietude. Tais sentimentos advindos do individualismo podem ter colaborado para que pessoas tirassem a sua própria vida no período da Renascença (Aragao, 2014).
       O Renascimento, na medida em que fez reviver a cultura, a arte e a literatura da Antiguidade Clássica, retomou os modos de pensar dos homens do passado. Assim, de modo similar ao que ocorria na Antiguidade, era possível encontrar entre os da Renascença, diferentes abordagens sobre a questão do suicídio. Os humanistas passaram a valorizar mais a subjetividade e a vida humana, diferente da dita “ortodoxia fria e árida” do Escolasticismo, e entre eles apareceram tanto aqueles que apresentavam argumentos favoráveis a morte voluntária, quanto os que se opunham a mesma (Caeiro, 2011).
       Com o Iluminismo, houve uma mudança da base teórico-hermenêutica de construção de uma visão sobre o suicídio, com uma diminuição da ênfase teológico-metafísica para a valorização do ato da ordem do humano configurado dentro de um contexto social e psicológico. Não obstante, os filósofos iluministas não possuíam uma posição determinada ou sistematizada sobre o suicídio (Aragao, 2014).
       Do Renascimento às luzes, o suicídio abandona pouco a pouco o “guetho” dos tabus e dos actos contra natura. Despenalizado, permanece como objecto de azedas discussões, mas tais discussões contribuem para desmistificar, secularizar e banalizar a morte voluntária. Depois do período revolucionário, as autoridades morais, e mesmo políticas, dominadas pelo espírito de reacção e de restauração, esforçam-se com vigor para voltar a colocar o suicídio entre o conjunto de proibições contra-natura que, em sua opinião, nunca daí devia ter sido afastado. (Minois, 1988 citado por Caeiro, 2011)
       Assim, já no século XX, a condenação e as contradições em torno do suicídio subsistem (Aragao, 2014). De acordo com Gonçalves, Gonçalves & Junior (2011), atualmente, o suicídio é um fenômeno que adquiriu um significado clandestino, ocupando o lugar do oculto e do secreto, bem como do patológico. É interessante observar, hoje também, as mortes voluntárias de homens em atentados terroristas. As leis em nosso país (Brasil) condenam a indução ou o auxílio ao ato suicida. Não se fala muito, ao menos não tão abertamente, de suicídio na cultura ocidental, de modo que esse ato acaba constituindo-se em uma espécie de tabu.

REFERÊNCIAS

Aragao, S. R. (2014). Historia do suicídio: Aspectos culturais, socioeconômicos e filosóficos. [On-line] Disponível em: <http://www.consultoriapsi.net/news/historia-do-suicidio-aspectos-culturais-socioeconomicos-e-filosoficos/> Acesso em: 28 de maio de 2016.
Caeiro, V. S. R. (2011). Morte Voluntária - Sui Caedes.     Tese de Mestrado em Medicina Legal. Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar ICBAS. Universidade do Porto.
Gonçalves, L. R. C.; Gonçalves, E.; Júnior, L. B. O. (2011). Determinantes espaciais e socioeconômicos do suicídio no Brasil: uma abordagem regional.  Nova Economia_Belo Horizonte_21 (2)_281-316.
Medeiros, M. M. (2008). Concepções históricas sobre a morte e o morrer.  Outros Tempos. Volume 5, número 6, 152-172.
Mendes, I. (2011).  O suicídio na Idade Média. [On-line] Disponível em: http://www.ibamendes.com/2011/03/o-suicidio-na-idade-media.html Acesso em: 28 de maio de 2016.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

EXPIAÇÃO

O Texto abaixo foi escrito por Lúcio Reis de Andrade, e portanto pode não apresentar ponto a ponto minha opinião. Caso você também queira colaborar com um texto para este Blog, é só me enviá-lo em arquivo word (texto em Times New Roman 12, espaçamento 2 e justificado) que ele pode ser publicado com os devidos créditos a quem escreveu. Email para enviar o arquivo word: araguaribrunosqueiroz@gmail.com

No primeiro artigo sobre soteriologia (clique aqui), tratamos a respeito do significado e conceito da palavra ‘’salvação’’. No artigo anterior, entendemos que é salvação em um conceito simplificado, a sua definição nos termos hebraicos e gregos, o Autor da salvação e o papel da Trindade no processo da salvação.
Neste artigo, será abordado sobre o tema central, responsável por tornar acessível a salvação aos seres humanos, o motivo pelo qual Deus se revelou aos homens por meio das Sagradas Escrituras: a expiação. Por meio da expiação, a ira de Deus contra o pecado foi satisfeita e, por meio desta Deus salva pecadores. Ou seja, por meio da expiação, Deus que é santo e justo, que odeia todo o pecado, consegue salvar pecadores de sua própria ira e conduzi-los a vida eterna. Portanto, o ato da expiação foi de justiça e amor pela humanidade.
Assim, trataremos sobre: a causa e o objetivo da expiação, conceito e definição da palavra, a expiação no AT, as profecias do AT sobre Jesus, a natureza divina e humana de Cristo, a obediência de Cristo, a expiação na morte de Jesus, os aspectos da expiação, o alcance e o propósito da expiação.
E, por último, surgem as seguintes perguntas: por que foi necessário Cristo ter obedecidoperfeitamente a Lei e ter morrido na cruz? Qual o significado de sua morte para nós? Como Deus que é santo e justo, o qual odeia o pecado, consegue salvar pecadores? Estas perguntas serão respondidas ao longo do texto.

A Causa e o Objetivo da Expiação
Antes de entendermos a causa e o objetivo, uma coisa deve ser deixada bem clara para o leitor: Jamais Deus foi obrigado a salvar pecadores de sua ira. Absolutamente, Deus não tinha necessidade de salvar ninguém. Poderia ter sido a vontade de Deus, e que seria também perfeitamente justa, em deixar-nos em nossos pecados, esperar pelo julgamento e nos condenar a morte eterna, ao inferno. Sobre isto, assim Deus fez com Satanás e os anjos rebeldes, no qual decidiu não perdoá-los, mas antes os condenou ao inferno. Vejamos o que diz 2Pe 2:4:’Pois Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os lançou no inferno, prendendo-os em abismos tenebrosos a fim de serem reservados para o juízo’’. Portanto, o texto bíblico deixa bem claro que Deus não necessitava planejar, desenvolver e concluir o processo da salvação. Neste sentido, a expiação não era absolutamente necessária.
Porém, desde a eternidade, por Sua vontade soberana, pelo Seu amor e Sua misericórdia, Deus decidiu prover um meio de salvação, no qual a expiação é o ápice, para algumas pessoas e formar um povo para Si (Ef 1:3-6; Tt 2:14; 1Pe 1:1-2, 2:9-10; Ap 5:9). Ou seja, Deus não deixou toda a humanidade perdida, providenciou a salvação para o seu povo. Para redimir o povo que escolheu para si, alguém deveria substituir este povo para pagar a punição Portanto, Deus proveu um meio para que a sua justiça fosse satisfeita, exigindo o pagamento e condenação pelos pecados da humanidade, e ao mesmo tempo salvar pecadores, era absolutamente necessária a expiação.
Assim como no artigo anterior, teremos que explicar o maior problema do ser humano: o pecado. Como já tínhamos estudado no artigo anterior, o pecado é a causa da ira e da condenação de Deus sobre o homem. Também estudamos que Deus é santo (Is 59:2, 1Pe 3:16), é luz, nele não há trevas alguma (1Jo 1:5), não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta (Tg 1:13), odeia o pecado (Dt 25:16; Sl 5:4, 11:5; Zc 8:17; Lc 16:5) e separa Deus e o homem (Is 59:2). Logo após Adão, o representante e o que deu origem a humanidade, ter pecado (Gn 3:6-7), para toda a raça humana foi transmitido o pecado e toda a natureza do homem se corrompeu por causa do pecado. Ou seja, não só pecamos porque aprendemos de outras pessoas, mas também porque já nascemos em pecado (Sl 51:5; Is 48:8; Jr 13:23, 17:9; Rm 1:18-21, 3:9-12, 3:19-24, 5:12-21; Ef 2:1-3). Ou seja, por si próprio, pelas suas próprias forças, não pode fazer o bem e nem sequer buscar a Deus, porque o homem natural é escravo do pecado. Então, a conclusão é que o homem é livre para fazer o mal, porque é assim sua natureza, porém incapaz de fazer o bem e buscar a Deus, ou seja, incapaz de salvar a si mesmo. É por isso que não existe o livre-arbítrio, pois o homem só é livre para fazer o mal (Gn6:5,11-12; Mt 15:19-20; Mc 7:21-23; Rm 8:6-8). A isso nós chamamos de doutrina da depravação total.
Como o homem natural é perdido em seus pecados e delitos (Ef 2:1-3), Deus teve que tomar a iniciativa e prover um meio de salvação para o homem. Para salvar o homem, a justiça divina deveria ser satisfeita contra o pecado, ou seja, era obrigatória a condenação pelo pecado (Rm3:19-26). A Bíblia é enfática quanto a isso ao afirmar‘’sem derramamento de sangue não há remissão’’ (Hb9:22) e que ‘’o salário do pecado é a morte’’ (Rm 6:23). Ou seja, alguém sem ter pecado deveria assumir a culpa do transgressor da Lei e pagar a condenação com sua própria vida, com preço de sangue. Deste modo, o inocente assume e remove a penalidade que era sobre o transgressor e recebe a condenação em seu lugar. Assim, o que era considerado culpado, agora se torna inocente e está livre da ira de Deus, pois a penalidade foi paga por outro que estava em seu lugar. Este é o princípio básico da expiação (Hb9:11-26). Porém, se todo homem já nasce em pecado e merecedor da condenação eterna, como Deus resolveu este problema? A esta pergunta responderemos nos próximos tópicos deste artigo.

A Expiação no AT
Antes de estudarmos como a expiação era realizada no AT (Antigo Testamento), precisamos saber de onde vem a palavra ‘’expiação’’ na língua hebraica:
Kaphar: raiz primitiva; cobrir. Também significa expiar ou perdoar, aplacar ou cancelar: aplacar, fazer (uma) expiação, limpar, anular, perdoar, ser misericordioso, pacificar, conceder perdão, purgar, apagar, descartar, propiciar reconciliação, reconciliar. Verbo que significa cobrir, perdoar, expiar, reconciliar. Esta palavra é de suprema importância teológica no AT, como também é essencial para um entendimento da remissão do pecado no AT. Em seu nível mais básico, a palavra transmite a noção de cobrir, mas não no sentido de mera ocultação. Antes, sugere a imposição de algo (sangue derramado de inocente) para modificar a aparência ou natureza do culpado, no sentido de remissão de pecados.
Kipur: expiação (somente no plural). Substantivo masculino plural que significa expiação, o ato de reconciliação, o Dia da Expiação.
Visto que o homem, o qual já nasce em pecado, portanto, incapaz de pagar o preço e a condenação de seus pecados e da raça humana, Deus criou um sistema de sacrifícios de animais, o qual foi institucionalizado e se tornou obrigatório na época de Moisés, após o povo hebreu se libertar da escravidão do Egito. Em Gn3:21, foi sacrificado o primeiro animal para providenciar vestimentas e cobrir a nudez de Adão e Eva, logo após terem pecado contra Deus. Em Gn 4:4, Abel ofereceu o primeiro e o melhor animal para o sacrifício, demonstrando gratidão, e o Senhor se agradou da oferta de Abel. Em Gn8:20-21, Noé levantou um altar e ofereceu para o holocausto animais limpos e puros, e assim a ira de Deus contra o pecado da humanidade pré-diluviana foi aplacada, ou seja, apaziguada. Em Gn22:13, Abraão ofereceu um carneiro em holocausto ao Senhor e outros patriarcas fizeram o mesmo também. O puritano inglês do século XVIII, Matthew Henry, comentou sobre a expiação por meio de animais:
‘’O pecador merecia morrer, portanto, o sacrifício tem de morrer. Ora, sendo o sangue a vida, de tal maneira que, ordinariamente, os animais eram mortos para uso dos homens, esvaindo-se todo o seu sangue, Deus designou a aspersão ou derramamento do sangue do sacrifício no altar, para significar que a vida do sacrifício fora oferecida a Deus em lugar da vida do pecador, como um resgate ou preço substituto para isto’’.
E, por fim, o sistema de sacrifícios foi institucionalizado e se tornou obrigatório na época que a Lei foi estabelecida ao povo hebreu, por meio de Moisés. Na época, o sistema de sacrifícios servia para cobrir os pecados de Israel, desta maneira afastaria a ira de Deus e seus pecados eram perdoados e, por último, ocorria a reconciliação entre Deus e os israelitas. Tudo isto está registrado em detalhes no livro de Levíticos.
Na época, uma vez durante o ano, havia o Dia da Expiação, o dia mais importante do calendário judaico. Neste dia, o sumo sacerdote sacrificava um novilho para o Senhor, em favor de seus próprios pecados (Ex29:35-36, Lv 16:6,11-14). Em seguida, tomava dois bodes, e lançava sorte sobre eles (Lv 16:8-10). O primeiro bode era sacrificado e o sumo sacerdote aspergia sete vezes seu sangue sobre o propiciatório, que é a tampa da Arca que contém a Lei divina violada pelo povo de Israel, mas que agora estava coberta pelo sangue e os pecados da nação eram expiados (Ex30:10, Lv 16:15-19, Nm 29:11). Ou seja, a ira de Deus era apaziguada ou aplacada, através do sangue do bode aspergido sobre a tampa do propiciatório. E, por último, o sacerdote tomava o segundo bode, empunhava as mãos sobre sua cabeça, confessava sobre ele todos os pecados de Israel e era enviado ao deserto, simbolizando que os pecados eram levados para fora do arraial para serem aniquilados no deserto (Lv16:20-22). Isto é, o segundo bode sofria os efeitos da justiça de Deus contra o pecado: morte física e separação eterna para o transgressor. Desta forma, os pecados da nação de Israel eram cobertos e perdoados por Deus, assim, por meio do sumo sacerdote, o povo poderia se relacionar com Deus novamente.
As Profecias do AT Sobre Jesus Cristo
Porém, o sacrifício de animais apenas cobria os pecados, mas não os removiam do coração do pecador (Hb9:24, 10:4). Além disso, o Dia da Expiação era repetido todos os anos, reforçando a necessidade de um sacrifício superior, permanente e que removia os pecados. Ou seja, o sistema de sacrifícios de animais era apenas temporário. Além disso, textos bíblicos apresentam profecias sobre Cristo como sacrifício perfeito e permanente, que veio ao mundo para redimir o povo de Deus (Gn3:15, Sl 22:1-18, Is 53:2-12). Assim, o sangue de Cristo derramado na cruz é a expiação plena e definitiva que Deus oferece em favor de seu povo, a qual foi capaz de remover o pecado de modo permanente (Hb9:25-26, 10:4,11). Como sacrifício perfeito (Hb9:26, 10:5-10), Cristo pagou a inteira penalidade dos nossos pecados (Rm 3:25-26, 6:23; Gl 3:13; 2Co 5:21) e levou a efeito o sacrifício expiador que afasta a ira de Deus, que nos reconcilia com Ele e que restaura nossa comunhão com Ele (Rm 5:6-11, 2Co 5:18-19, 1Pe 1:18-19).
Por meio das profecias do AT, percebe-se que o sistema de sacrifícios era apenas por tempo determinado, até a chegada do Messias tão esperado pelos judeus, com o objetivo de trazer libertação ao povo de Israel (Cl 2:16-17, Hb 9:1-15). Este Messias tão prometido foi o próprio Cristo, em que sua obra teve o apogeu durante a morte e a ressurreição ao terceiro dia. Vejamos as profecias do AT sobre o Messias e o pleno cumprimento em Cristo no NT (Novo Testamento):

1.                    Descendente do rei Davi, em que Deus prometeu a Davi uma linhagem perpétua e a soberania sobre Israel até os tempos eternos (2Sm 7:16; Jr 23:5, 30:9; Ez 34:23; Is 55:3-4; Sl 8:4; 89:34-37, cf. Lc 22:29);
2.                    Nascido de uma virgem (Is 7:4, cf. Mt 1:18-23, Lc 1:26-35);
3.                    O local de seu nascimento (Mq 5:2, cf. Mt 2, Lc 2, Jo 7:42);
4.                    João Batista, precursor do Messias e a ‘’voz do deserto’’ (Is 9:1-2, cf. Mt 3:3, Mc 1:3, Lc 3:4-6);
5.                    A Galileia como ponto de partida de seu ministério (Is 9:1-2, cf. Mt 3:3, Mc 1:3, Lc 3:4-6);
6.                    Os judeus rejeitam a Cristo (Is 53:7-8, cf. Jo1:11);
7.                    A apresentação como o cordeiro de Deus (Is 53:7-8, cf. Jo1:29,36, At 8:30-35, 1Pe 1:19);
8.                    A entrada triunfante em Jerusalém, uma semana antes da Páscoa (Zc 9:9, cf. Mt 21:1-5);
9.                    A traição por um amigo (Sl 41:9, cf. Jo13:18);
10.                Foi escarnecido pela multidão (Sl22:18, cf. Mt 27:35, Mc 15:18,29-32, Lc 23:34, Jo 19:24);
11.                O sorteio de suas vestes (Sl22:18, cf. Mt 27:35, Mc 15:24, Lc 23:34, Jo 19:24);
12.                A inclusão entre os transgressores (Is53:12, cf. Mt 27:38, Mc 15:27-28, Lc 22:37);
13.                A terrível sede (Sl69:21, cf. Jo 19:31-36);
14.                A preservação de seus ossos (Sl34:20, cf. Jo 19:31-36);
15.                O sepultamento no túmulo do rico (Is 53:9, cf. Mt 27:57-60);
Portanto, as diversas referências bíblicas não deixam dúvidas que o Messias tão esperado pelos judeus era o próprio Cristo, responsável por apresentar a Deus um sacrifício perfeito e permanente, capaz de remover todo o pecado e redimir o povo de Deus através de sua morte na cruz, por meio do derramamento de sangue. Jesus veio para morrer, este é o principal propósito de sua vida. ‘’Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgaste por muitos” (Mc 10:45; Lc 9:31; Jo 3:16; Hb 2:9-15, 9:26-28; 1Jo 3:5; Ap 5:9).

A Natureza Humana e Divina de Cristo
As Escrituras ensinam claramente que Jesus Cristo tem natureza divina, como também possui a natureza humana. As duas naturezas de Cristo, não formam duas pessoas, mas uniram-se em uma só pessoa, Jesus Cristo. A união das naturezas de Cristo em uma só pessoa é chamada de união hipostática. A correta interpretação das duas naturezas de Cristo e, também sendo uma só pessoa, também dará uma correta compreensão de seu sacrifício em favor do povo de Deus. O ensino da união hipostática é claramente ensinada em Jo 1:1-4,10,14:
’No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens. O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai’’.
A Palavra de Deus diz que Jesus Cristo, o Filho de Deus, já existia antes da fundação do mundo, desde a eternidade. Não somente isto, mas juntamente com o Pai e o Espírito Santo, as outras duas pessoas do único Deus verdadeiro, participaram da criação do mundo (Gn1:26;Jo 1:1-10, 8:58; 1Co 8:6;Cl 1:16-17;Ap 1:8). O próprio nome ‘’Jesus’’ significa ‘’Deus salvador’’ (Mt 1:21), indicando a missão de salvar o povo de Deus de seus pecados. Jesus também foi chamado de ‘’Emanuel’’, que significa ‘’Deus conosco’’ (Is7:14, Mt 1:23), ressaltando a missão de ser o mediador entre Deus e o homem (Is 8:8, 1Tm 2:5) e declara que Jesus é Deus. Outras declarações da Bíblia a respeito da divindade de Cristo: Eterno com o Pai (Jo 1:1, 1Jo 1:1-3), o Princípio e o Fim (Ap 22:12-13), onisciente (At 1:24, Rm 10:13), onipotente (Mt 28:18, 1Co 15:27, Ef 1:20-22, Ap 19:13-16), perdoador de pecados (At 5:31, Cl 3:13), é Deus (Jo 20:28, Rm 9:5, Tt 2:13), Filho de Deus (Mt 8:29, 16:16; Mc 14: 61-62), Santo (At 3:14), foi adorado como Deus (Lc 24:50-52, Jo 20:28, At 7:59, 1Co 1:2, 2Co 12:8-10), doador da vida eterna (Jo 10:28, 17:2). Há dois motivos para a necessidade de Jesus ser Deus para a expiação: impossibilidade para pecar e para cumprir perfeitamente toda a Lei (assim, Cristo teve condições para apresentar-se no lugar do homem durante a sua morte, mudando de condição: de inocente para culpado pelos pecados) e sofrer toda a ira de Deus contra o pecado (assim, toda a condenação contra o pecado foi paga por Cristo no lugar do homem, e este é declarado inocente e reconciliado com Deus). Ou seja, o próprio Deus reconcilia o homem a Ele mesmo, é Deus que toma a iniciativa, o desenvolvimento e a conclusão da salvação. Mais uma vez, é demonstrado que o homem não pode obter salvação por meio de boas obras, é impossível vencer a escravidão do pecado por meio de seu esforço, por meio de suas forças! A salvação é pela graça de Deus!
Assim como a Bíblia relata que Jesus é Deus, também declara que Jesus é homem. Como já abordamos, antes de tomar a forma humana, Jesus era Deus, existia desde o princípio e estava com o Pai (Jo 1:1-3, 1Jo 1:1). Então, o Pai enviou seu Filho ao mundo, a partir do momento em que Maria achou-se grávida pelo poder do Espírito Santo, enquanto ainda era virgem (Is 7:4, Mt 1:18-20, Lc 1:26-35, Jo 1:14). Ou seja, o nascimento de Jesus foi virginal, uma obra miraculosa e maravilhosa concedida por Deus! Não somente isto, mas as Escrituras relatam que Jesus é descendente da linhagem de Davi (Mt 1:1, Lc 1:32-33). Ou seja, Jesus teve uma natureza humana, porém não nasceu em pecado, pois não teve um pai humano e foi concebido pelo Espírito Santo. Sobre a humanidade de Cristo, as Escrituras também afirmam: teve corpo humano (Mt 26:12, Lc 24:39,Jo 2:21,Hb 10:5-10), crescimento físico e intelectual (Lc 2:40,52, Hb 5:8), tinha alma (Mt 26:38, Jo 12:27, At 2:27-31), espírito (Lc 23:46, Mc 8:12, Jo 13:21),  era Filho de Davi (Mt 20:31, Mc 10:48), sentiu tristeza (Jo 11:35), angústia (Jo 13:21), fome (Mt 21:18), cansaço (Jo 4:6), sono (Mt 8:24), sede (Jo 19:28). Também está escrito na Bíblia, em que Jesus não perdeu sua humanidade depois da ressurreição ao terceiro dia (Lc24:39-42, Jo 20:25-27, At 1:11). Há dois motivos para a necessidade de Cristo ter assumido a natureza humana para a expiação: sofrer a ira de Deus contra o pecado em nosso lugar (At 3:18, Hb 2:14-18, 9:23-26) e ser mediador entre Deus e o homem (ou seja, Cristo representou o povo eleito de Deus, expiou os pecados destes e os reconciliou com Deus. Leiam: Rm 5:10-21,Hb 7:17-18,26, 1Tm 2:5-6).
É importante ressaltar que as duas naturezas formaram uma só pessoa, Jesus Cristo. Cristo foi verdadeiramente homem, como também verdadeiramente Deus. A união das duas naturezas em uma só pessoa é chamada de união hipostática. Também se deve afirmar que as duas naturezas foram igualmente importantes na missão de Cristo em expiar os pecados do povo de Deus, em obedecer perfeitamente a Lei, sem ter cometido pecado e na sua vida e ministério terreno. E, por último, as duas naturezas jamais agiram de forma independente, mas em conjunto em todos os aspectos da vida e missão de Jesus. Este ensino é claramente registrado em Jo1:14, Rm 1:2-5, Fp 2:6-11, 1Tm 3:16, Hb 2:14, 1Jo 1:1-3. Mesmo após a ressurreição de Cristo, as duas naturezas continuaram a coexistir em uma só pessoa e permanecerão para sempre (Mt 26:64, Jo 3:16, At 7:56).

A Obediência de Cristo
Geralmente, a obra de Jesus Cristo em sua vida terrena é dividida em dois aspectos: a obediência ativa e passiva. A obediência ativa compreende tudo aquilo que Cristo realizou em nosso lugar, como representante e mediador do povo de Deus. Ou seja, representando o povo eleito de Deus, Cristo obedeceu perfeitamente a Lei e durante toda a sua vida esteve em submissão ao Pai. Já a obediência passiva, envolve os sofrimentos de Cristo ao obedecer perfeitamente à Lei e à vontade de Deus em nosso lugar ao longo de sua vida até a sua morte. Segundo as Escrituras, Cristo jamais pecou (Hb7:26, Tg 5:6, 1Pe 3:18, 1Jo 3:5), ‘’foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado’’ (Hb 4:15), foi chamado de ‘’o santo de Deus’’ (Jo 6:69),’não cometeu pecado’’ (1Pe 2:22),’nele não existe pecado’’ (1Jo 3:5) e ‘’não conheceu pecado’’ (2Co 5:21).
Como o homem já nasce em pecado, está morto em seus pecados e delitos e é incapaz de fazer o bem por si próprio (Mt 15:19-20, Rm 3:19-26, Ef 2:1-3), Cristo teve que representar o povo eleito de Deus. Como representante e mediador do povo de Deus (1Tm 2:5, Hb 9:15, 1Jo 2:1), obedeceu perfeitamente toda a Lei. Não somente isso, mas também toda a sua vida, ministério, os milagres e sinais não eram de si mesmo, mas da vontade do Pai (Mc 14:33-36, Lc 22:41-42, Jo 4:34, 5:19,30, 6:38-40, 10:14-18, 14:10, 14:31). Sua vida de obediência perfeita ao Pai é mostrada por ele ter ‘’nascido de mulher, nascido sob a lei’’ (Gl 4:4), e por ter guardado a lei de forma perfeita. Ele cumpriu a vontade de Deus em seu nascimento (Lc2:21,22,39), em sua infância (Lc 2:52), em seu batismo (Mt 3:15), quando venceu a tentação de Satanás no deserto (Mt 4:1-11, Lc 4:1-13), e por toda a sua vida (Jo 4:34, 6:38, 8:29,46, 15:10, 17:4; At 3:14; 2Co 5:21; Hb 5:8-9). Ninguém poderia convencê-lo de desobediência a Deus ou à sua Lei (Jo8:46, Hb 5:8-9).
Ao cumprir perfeitamente a Lei e a obedecer ao Pai, em favor do povo de Deus, Jesus obteve justiça (Mt 3:15, Rm 5:19, 1Co 1:30,Fp 3:9). Era necessário Cristo obter justiça em nosso lugar, pois se apenas tivesse pagado os nossos pecados, estaríamos em neutralidade moral, na posição de Adão e Eva. Com certeza, pecaríamos outra vez e receberíamos a condenação eterna. Porém, Cristo não apenas morreu pelos nossos pecados, como também nos justificou diante de Deus. Ao crermos no Filho de Deus, a justiça de Cristo é imputada aos crentes. Assim, não precisamos cumprir a Lei para obter a salvação, pois Cristo já fez isto por nós. Cumprimos a Lei por amor (1Co 14:1-3), através do Espírito Santo que atua em nós todos os dias (Jo 3:21, Rm 8:5-18, Ef 2:8-10, 1Co 6:19-20). Observem o contraste entre Adão e Cristo: enquanto que em Adão, o pecado e a morte entraram no mundo, através de Cristo entraram no mundo a justiça e a vida para o seu povo (Rm5:12-19). Pela desobediência de Adão, todos se tornaram pecadores e merecem a condenação eterna, através de Cristo, todos os que creem no seu nome tornam-se justos e tem acesso a vida eterna (Fp 3:19, 1Co 1:30). A passagem de Ef 2:4-10 deixa bem claro que somos salvos por meio da fé em Cristo Jesus.
Enquanto isso, a obediência passiva compreende os sofrimentos de Cristo pelos pecados em nosso lugar, tanto em sua vida, como em sua morte. Os sofrimentos em nosso lugar foram tanto em sua alma, como no seu corpo. A vida de Cristo foi uma vida de sofrimentos. Enquanto Cristo obedecia perfeitamente a Lei e à vontade do Pai, também padecia em nosso lugar. Jesus Cristo foi o único homem sem ter pecado, vivendo no meio de pecadores e em um mundo amaldiçoado pelo pecado. Vejamos o que a diz a Bíblia diz a respeito do assunto: ‘’homem de dores e que sabe o que é padecer’’ (Is 53:3), suportou tremendo sofrimento durante a tentação no deserto (Mt 4:1-11), ‘’aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu’’ (Hb 5:8), sofreu intensa perseguição e sofrimento por parte dos líderes judeus (Hb 12:3-4), chorou quando Lázaro morreu (Jo 11:35), foi um sofrimento santo (Hb 2:10). Antes de sua morte, Jesus disse: ‘’A minha alma está profundamente triste até a morte’’ (Mt 26:38). Também as Escrituras registram que Cristo deveria padecer e ressuscitar ao terceiro dia (Lc24:46, 1Co 15:3-5). O próximo tópico vai abordar a obediência passiva de Cristo durante a sua morte.
É importante lembrar que, apesar da divisão da obediência de Cristo, devemos observar para os dois aspectos da expiação como inseparáveis. Ao mesmo tempo em que Cristo, assumiu o papel de mediador e representante do povo de Deus para obedecer perfeitamente a Lei (obediência ativa), também sofreu em sua vida e depois morreu para pagar a penalidade do pecado no lugar do povo de Deus (obediência passiva). Ao mesmo tempo em que Cristo morria pelos nossos pecados, estava tanto representando o povo de Deus em obedecer perfeitamente a Lei e ter conquistado a justiça (obediência ativa), como também sofrendo em nosso lugar por causa da ira de Deus contra o pecado (obediência passiva). Portanto, os tipos de obediência agiram simultaneamente durante a sua vida.

A Paixão de Cristo
Os eventos, os acontecimentos compreendidos desde a última Ceia com os discípulos até a condenação à morte pela crucificação, são chamadosde paixão de Cristo. Após três anos e meio de ministério, Jesus Cristo foi desprezado pelo povo judeu e os líderes religiosos planejavam a sua morte (Mt 26:3-4, Lc 22:1-2, Mc 14:1-2). Judas Iscariotes, um dos discípulos e  traidor de Cristo, decidiu entregar Jesus aos seus opositores por trinta moedas de prata (Mt 26:14-15, Mc 14:10-11, Lc 22:3-6).
Em seguida, Jesus declara que Judas é o traidor (Mt 26:21-25, Jo 13:26-27). Na quinta-feira, no primeiro dia da Festa dos Pães Asmos, durante a refeição da Páscoa (Mt 26:17-19, Mc 14:12-14, Lc 22:7-8), Cristo parte e abençoa o pão e entrega o vinho aos seus discípulos (Mt 26:26-29, Mc 14:22-26,Lc 22:14-20). Durante a Ceia, Jesus explica o significado da refeição pascoal. O pão lembra o sofrimento do povo hebreu durante a travessia do deserto e da dependência de Deus até mesmo para conseguir alimentos. No cumprimento em Cristo, o pão lembra os sofrimentos de Jesus em nosso lugar. O vinho significa que a expiação por meio do sangue de animais estava sendo substituída pela expiação no sangue de Cristo, ‘’derramado em favor de muitos, para a remissão de pecados’’ (Mt 26:28, Mc 14:23-25, Lc 22:20), ou seja, em favor do povo de Deus. E a ausência do cordeiro nesta refeição é porque Cristo estava na mesa, ‘’o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo’’ (Jo1:29). Ou seja, o cordeiro sacrificado no AT apontava para Cristo. Assim, não restam dúvidas: a Páscoa judaica teve seu pleno cumprimento na morte de Jesus. A Antiga Aliança ou Antigo testamento estava sendo substituído pela Nova Aliança ou Novo Testamento.
Após a Ceia, Jesus ora com seus discípulos em Getsêmani, próximo ao monte das Oliveiras (Mt 26:36, Mc 14:32-34, Lc 22:39-41, Jo 17:1-26). Ele disse aos seus discípulos: ‘’A minha alma está profundamente triste até a morte’’ (Mt 26:38, Mc 14:34). Em oração, Jesus diz: ‘’Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo não seja feita a minha vontade, mas a tua’’ (Mt 26:39, Mc 14:36, Lc 22:42). Isto explica o profundo sofrimento de Cristo ao saber que o momento da sua morte estava se aproximando, todavia obedece perfeitamente a vontade do Pai.
Em seguida, Judas, acompanhado com os principais sacerdotes, os oficiais da guarda do templo e os anciãos do povo, beija o rosto de Jesus, e este é preso (Mt 26:47-50, Mc 14:44-46, Lc 22:47,48,54, Jo 18:2-10). Em seguida, Cristo sofre novamente, pois os seus discípulos o abandonaram e fugiram (Mt 26:56, Mc 14:50, Jo 18:8-9).
Enquanto era julgado no Sinédrio por Anás (Jo18:13) e Caifás, o sumo sacerdote (Mt 26:59-63, Mc 14:53-59, Lc 22:54,66-68, Jo 18:24). Como desejavam a morte de Jesus, os sacerdotes procuraram pessoas para dar falsos testemunhos, porém as falsas acusações eram incoerentes, e Jesus fica calado, não responde a nenhuma das acusações (Mt 26:59-63, Mc 14:56-60, Lc 22:66-68). Em seguida, Caifás pergunta se ele é o Filho de Deus, e Jesus confirma (Mt 26:63-64, Mc 14:61-62,Lc 22:67-70). Os líderes religiosos consideraram a confirmação como uma blasfêmia e foi julgado como réu digno de morte e espancaram Jesus (Mt 26:65-68, Mc 14:63-65). Na manhã de sexta-feira, os sacerdotes levaram Jesus a Pôncio Pilatos, governador romano da Judeia, para ser julgado (Mt 27:2, Mc 15:1,Lc 23:1, Jo 18:28-29). Diante das acusações, Jesus fica calado, Pilatos se impressiona com a atitude e não encontrou algum motivo para condená-lo à morte (Mt 27:11-14,23; Mc 15:2-5,14;Lc 23:2-7, 23:13-15; Jo 18:38). Porém, pressionado pelo povo e temendo uma rebelião, Pilatos solta o prisioneiro Barrabás e manda açoitar e condenar Jesus à morte por crucificação (Mt 23:20-26, Mc 15:6-15, Lc 23:18-25,Jo 18:39-40, 19:1-16). Aqui vale fazer uma consideração: neste momento, Jesus estava pronto para ser o representante do povo, pois perante o tribunal do Sinédrio foi considerado culpado, um criminoso, como réu digno de morte ao confirmar que é o Filho de Deus. Já no tribunal de Pilatos, foi condenado à morte pela crucificação. Foi rejeitado e humilhado pelo próprio povo judeu, abandonado pelos seus discípulos, foi espancado e zombado pelos sacerdotes do Sinédrio e pelos soldados romanos e ficou em silêncio, cumprindo-se a passagem de Is 53:1-8. Cristo estava em plenas condições de ser o representante do povo de Deus, no qual foi considerado culpado pelas nossas transgressões e receber a ira de Deus contra o pecado.
Estes fatos não surpreenderam Jesus Cristo, pois ele mesmo sabia da sua rejeição ao povo judeu: ‘’está escrito que o Filho do homem sofra muito e seja rejeitado com desprezo’’ (Mc 9:12),’o Filho do homem está para ser entregue nas mãos dos homens. Eles o matarão’’ (Mc 9:31). Outras passagens testificam que Jesus não só sabia da rejeição por parte dos judeus, mas também da traição (Mt 26:21-25) e a sua condenação à morte (Mc 8:31, 10:32-34). Os últimos acontecimentos na vida de Jesus foram da vontade do Pai: ‘’foi da vontade do Senhor esmaga-lo e fazê-lo sofrer’’ (Is53:10).

A Expiação na Morte de Cristo
Ao ser condenado à morte, Jesus teve que carregar sua cruz, com a ajuda de Simão de Cirene (Mt 26:36, Mc 15:21, Lc 23:26, Jo 19:17). Ao chegar em Gólgota, Jesus Cristo foi crucificado juntamente com dois ladrões (Mt 27:38, Mc 15:27-28, Lc 23:32-33, Jo 19:18). Acima de sua cabeça, havia uma placa escrita ‘’ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS’’ (Mt 27:37, Mc 15:25, Lc 23:38, Jo 19:19). A pena de morte pela crucificação era um método reservado somente aos piores criminosos, era o método mais humilhante e doloroso conhecido na época. Era humilhante porque o criminoso carregava a própria cruz até o local da execução, era crucificado e morria às vistas da população. Era doloroso porque os pulsos (na época eram considerados como parte das mãos) e os pés eram pregados na cruz, as pernas eram torcidas numa posição não natural para causar mais dor. Como a crucificação impedia a respiração, a vítima tinha que se levantar para respirar, ocasionando uma dor terrível ao movimentar as mãos e os pés. Com o passar do tempo, a vítima ficava tão exausta pela perda de sangue e pelo esforço que não conseguia se movimentar e morria por asfixia. Portanto, a crucificação causava uma morte lenta, dolorosa, agonizante e humilhante.
Após a crucificação, os soldados romanos tiraram sortes para decidir quem ficaria com as vestes de Jesus (Mc 15:24, Lc 23:34, Jo 19:23-24). Enquanto isso, os soldados romanos, o povo judeu e os líderes religiosos zombavam e desafiavam Jesus a sair da cruz para testificar que é o Filho de Deus (Mt 27:39-43, Mc 15:29-32, Lc 23:35-38). Assim como no julgamento, Cristo ficou calado diante das provocações. Aqui vale fazer algumas observações. Primeiro, a repartição de suas vestes, tirar a sorte para algum soldado ficar com a túnica, a zombaria dos soldados, do povo e dos líderes religiosos é o cumprimento da passagem de Sl22:7,14,16-18. Segundo lugar, Jesus ficou em silêncio diante da rejeição e do desprezo do povo judeu, as zombarias e o sofrimento naquela cruz em nosso lugar, sem murmurar, cumprindo-se a profecia de Is 53:1-8.
Além disso, um dos criminosos que estava crucificado ao lado de Jesus, zombou dele e o desafiou a descer da cruz para provar que é o Filho de Deus (Lc23:39). Porém, o outro ladrão crucificado repreendeu esta atitude, reconheceu sua justa condenação e se arrependeu de seus pecados (Lc23:40-42). Jesus respondeu ao ladrão arrependido: ‘’Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso’’ (Lc23:43). Novamente, percebe-se que é impossível obter a salvação por meio das boas obras, a salvação é tão somente através do sacrifício de Jesus em favor de seu povo, mediante a fé. Observe a diferença de atitudes: enquanto um ladrão crucificado zomba e desafia a Jesus; o outro, mesmo tendo sido crucificado pelo mesmo motivo, confessou que Jesus Cristo é o Filho de Deus, arrependeu-se de seus pecados e foi salvo da condenação eterna.
Em seguida, houve trevas naquele lugar, do meio-dia até as três horas da tarde (Mt 27:45,Mc 15:35, Lc 23:44). Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: ‘’Deus meu! Deus meu! Porque me desamparaste?’’ (Mt 27:46, Mc 15:34). Em seguida, Jesus disse ‘’Tenho sede!’’, e uma pessoa alcançou uma esponja com vinagre por meio de uma vara (Mt 27:48, Mc 15:36, Jo 19:28-29). Depois, Jesus disse: ‘’Está consumado!’’ (Jo19:30). E em alta voz bradou: ‘’Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. Tendo dito isso, expirou’’ (Mt 27:50, Mc 15:37, Lc 23:46, Jo 19:30). Ao morrer, o véu do santuário do templo foi rasgado em duas partes, de alto a baixo, houve terremoto, as rochas se partiram, os sepulcros foram abertos e muitos mortos ressuscitaram (Mt 27:51-53, Mc 15:38). O centurião e os que estavam vigiando Jesus creram que ele é o Filho de Deus (Mt 27:54, Mc 15:39, Lc 23:47). Para que os corpos não ficassem pendurados na cruz durante o sábado, os judeus pediram aos soldados quebrar as pernas dos crucificados, para acelerar a morte e tirá-los da cruz (Jo19:31-32). Como Jesus já estava morto, não quebraram suas pernas, mas um soldado perfurou o corpo de Jesus com uma lança, e saiu sangue e água (Mc 15:44, Jo 19:33-34). Ainda na sexta-feira, o corpo de Jesus foi tirado da cruz, foi enrolado num lençol por José de Arimateia e Nicodemus e foi enterrado num túmulo cavado na rocha (Mt 27:57-60, Mc 15:46, Lc 23:50-54, Jo 19:38-42).
Sobre o último parágrafo, considerações devem ser levantadas. Primeiro, ‘’houve trevas naquele lugar, do meio-dia até às três horas da tarde’’. Este fato foi um fenômeno sobrenatural. Na passagem de Ex10:21-23, as trevas caíram sobre o Egito, que era a penúltima praga da época da primeira Páscoa. Assim, a presença de trevas durante o dia simboliza a ira e o julgamento de Deus. Novamente, a Páscoa judaica teve cumprimento em Cristo, pois quando estava crucificado também houve trevas como sinal do julgamento e da ira de Deus derramada sobre Jesus por causa dos nossos pecados. O fenômeno sobrenatural também é o cumprimento do trecho bíblico de Is 13:9-13 e Am 8:7-10. Compare estes trechos com Lc23:44-48.
Segundo, naquele momento, Deus estava julgando Jesus Cristo e o considerou culpado pelos nossos pecados (Is53:6,12, Jo 1:29, 2Co 5:21, Gl 3:13, Hb 9:28, 1Pe 2:24). Como foi considerado culpado em nosso lugar, Deus o abandonou por causa da sua santidade e justiça, pois odeia o pecado (Dt25:16; Sl 5:4, 11:5; Zc 8:17; Lc 16:5), o pecado é responsável pela separação entre Deus e o homem (Is 59:2). Portanto, naquele momento, a relação de amor, a profunda comunhão entre o Pai e o Filho que existia desde a eternidade foi cortada. Por isso, Jesus bradou: ‘’Deus meu! Deus meu! Por que me desamparaste?’’
Terceiro, quando a ira de Deus contra o pecado foi satisfeita, quando não havia mais nada a pagar pelo pecado, Jesus bradou: ‘’Está consumado!’’, ‘’Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. Tendo dito isso, expirou’’. Após Jesus morrer, o véu do templo se rompeu, foi dividido de alto a baixo. No AT, o lugar santíssimo simbolizava a presença de Deus e era separado do lugar santo, onde os judeus ficavam, e o véu simbolizava a separação entre Deus e o homem por causa do pecado. Nenhum pecador podia ter acesso à presença de Deus. E somente o sumo sacerdote depois de expiar seus pecados por meio de um novilho, podia ter acesso à presença de Deus no Dia da Expiação. Toda esta simbologia também teve cumprimento em Cristo, pois ele é o nosso sumo sacerdote (Hb2:17-18, 3:1-4, 4:13-16, 5:1-10, 6:20, 7:22-28, 9:11-12, 9:22-25, 13:11-12). Como nosso Sumo Sacerdote, Jesus Cristo expiou os pecados de seu povo, e o véu se rompeu como um sinal que não há mais separação entre Deus e o homem. E o templo de Jerusalém, que simboliza a presença de Deus, também aponta para Cristo, como está escrito na passagem de Jo2:19-22. Ou seja, por meio de Jesus, mediante a fé, reconciliamo-nos com Deus, temos acesso à presença de Deus. Assim, todos os elementos da Antiga Aliança foram cumpridos e substituídos pelas obras de Cristo, o qual inaugurou a Nova Aliança por meio de seu sangue!

Os Aspectos da Expiação na Morte de Cristo
Após o estudo sobre os eventos ocorridos durante a morte de Jesus, o próximo passo é entender o valor da expiação no sangue de Jesus, o que Ele proporcionou para nós por meio da cruz, os benefícios que Cristo trouxe aos salvos através da sua morte. Cada aspecto da expiação na morte de Cristo atendeu a quatro requisitos ou necessidades em nosso lugar: merecemos morrer como castigo pelo pecado; merecemos receber a ira de Deus contra o pecado; estamos separados de Deus pelos nossos pecados; estamos escravizados pelo pecado e ao reino de Satanás. A seguir, compreenderemos como Jesus Cristo atendeu as quatro necessidades em nosso lugar.
1.                       Sacrifício: como abordamos, após o homem pecar, era necessário um ser inocente tomar o lugar do transgressor e morrer no lugar deste, levando a culpa pelos pecados, aplacava a ira de Deus e colocava o transgressor na posição de inocente e o reconciliava a Deus. A morte de Cristo, o sumo sacerdote e representante do povo de Deus (1Tm 2:5, Hb 9:15, 1Jo 2:1), foi uma oferta, um sacrifício vicário (1Co 5:17, Ef 5:2). Com preço de sangue até a morte (Rm3:25, 5:19; 1Co 10:16; Ef 1:7. 2:13; Cl 1:20; Hb9:12-14, 9:19-22, 10:19; 1Pe 1:2,19; 1Jo 1:7, 5:6-8; Ap 1:8), a penalidade dos pecados foi paga (Rm 3:25-26, 6:23; Gl 3:13; 2Co 5:21), temos paz com Deus, somos resgatados e reconciliados com Deus (Rm 5:6-11, 2Co 5:18-19, 1Pe 1:18-19). A Bíblia afirma que o sacrifício de Cristo em favor do povo de Deus foi perfeito (Hb9:26, 10:5-10), superior (Hb 9:23), que pagou a inteira penalidade dos nossos pecados (Rm 3:25-26, 6:23; Gl 3:13; 2Co 5:21) e capaz de remover o pecado de modo permanente (Hb 9:25-26, 10:4,11). O sangue de Jesus derramado na cruz inaugurou a Nova Aliança (Mt 26:28), que perdoa os pecados e salva todo aquele que deposita fé em Jesus Cristo.
2.                       Satisfação penal e substitutiva: quando Deus criou o universo, Ele estabeleceu padrões morais que refletem o Seu caráter, a Sua vontade e a Sua santidade. Como Deus é santo (Is 6:3, 1Pe 3:16), não pode tolerar o pecado, nem sequer contemplar (Dt 25:16; Sl 5:4, 11:5; Zc 8:17; Lc 16:5), pois é contrário à Sua natureza. Para Deus, o pecado é considerado como transgressão (Mt 15:3, Rm 5:14-20, Gl 3:19, Hb 9:15, 1Jo 3:4), ofensa, uma rebelião à Sua vontade (Hb 2:1-3). Após pecar, a comunhão entre Deus e o homem foi cortada, o caráter de Deus foi ofendido. Como Deus é justo, exigiu a penalidade, a punição para o pecador, a parte transgressora. E a punição para o pecador é a morte: ‘’pois o salário do pecado é a morte’’ (Rm6:23),’sem derramamento de sangue não há perdão’’ (Hb 9:22). Para redimir o povo que escolheu para si (Ef 1:3-6; Tt2:14; 1Pe 1:1-2, 2:9-10; Ap 5:9), alguém deveria substituir este povo para pagar a punição. Ou seja, alguém sem ter pecado deveria assumir a culpa do transgressor da Lei e pagar a condenação com sua própria vida, com preço de sangue. Deste modo, o inocente assume e remove a penalidade que era sobre o transgressor e recebe a condenação em seu lugar. Assim, o que era considerado culpado, agora se torna inocente e está livre da ira de Deus, pois a penalidade foi paga por outro que estava em seu lugar. Este é o princípio básico da expiação penal e substitutiva, também chamada de expiação vicária. Jesus, que é tanto Deus, como homem também, foi o único capaz de obedecer perfeitamente à Lei, jamais pecou em sua vida (Hb7:26, Tg 5:6, 1Pe 3:18, 1Jo 3:5). Como representante do povo de Deus (1Tm 2:5, Hb 9:15, 1Jo 2:1), ele tomou sobre si os pecados (Is 53:6,12; Jo 1:29; 2Co 5:21), satisfez e esgotou toda a ira de Deus, morreu em nosso lugar e nos imputou a sua justiça por meio da fé (Rm 5:18-19, 3:24-26; 1Co 1:30; Fp 3:9).
3.                       Propiciação: esta palavra é oriunda de diversas palavras gregas, tais como hilaos, hilasmos, hilaskomai.
a)                       Hilaos: significa propiciar, fazer propiciação pelos pecados (Hb2:17). No sentido passivo, ser propício, misericordioso (Lc18:13).
b)                      Hilasmos: significa expiação, um meio do qual o pecado do homem é coberto e remido. É usado no NT acerca do próprio Cristo, como a ‘’propiciação’’ (1Jo 2:2, 4:10), significando que Ele, através do sacrifício expiatório da Sua morte, é o meio por qual Deus mostra misericórdia ao pecador que crê em Cristo como o único meio providenciado.
c)                       Hilaskomai: tem o significado de propiciar, expiar. Propiciação, aquilo que aplaca a ira e traz a reconciliação com alguém que tem razões para estar irado com esta pessoa (Rm3:25; Hb 9:5; 1Jo 2:2, 4:10).
Como Deus é santo e justo, quando seus padrões morais foram desobedecidos pelo homem, Deus manifesta a Sua ira contra o pecado (Jo3:36; Rm 1:18, 9:22; Ef 5:6; 2Ts 1:7-9; Hb 10:27, 12:29), pois a sua santidade foi ofendida. O resultado da Sua ira é a exigência da punição ao transgressor, que é a morte (Rm6:23, Hb 9:22), essencial para a remoção da ofensa à sua santidade. O homem não tem condições de cumprir a punição, nem sequer suportar toda a ira de Deus, restando apenas a separação eterna. Para Deus salvar o Seu povo, alguém que nunca pecou durante toda a sua vida, deveria tomar o lugar do transgressor pela culpa dos pecados do transgressor e suportar toda a ira de Deus. Jesus Cristo, que é Deus, teve condições de cumprir toda a Lei, jamais ter pecado durante a sua vida e capaz de suportar toda a ira de Deus, e sendo homem se tornou representante do povo de Deus. Desta forma, enquanto Cristo estava pagando a condenação dos pecados para satisfazer a justiça de Deus, também estava sendo amaldiçoado e abandonado pelo Pai (Mt 27:45-46, Mc 15:34-35, Lc 23:44), como consequência da ira de Deus. Com a justiça satisfeita, toda a ira esgotada e removida a ofensa à santidade de Deus, a atitude de Deus para o pecador muda de ira para a reconciliação (Rm3:25-26; Hb 2:17; 1Jo 2:2, 4:10). Este é o princípio básico da propiciação: remover a ira e a ofensa à santidade de Deus (Rm3:24, Hb 2:17, 1Jo 4:10). O sentido da propiciação pode ser mais bem explicado na passagem de 1Jo 4:10:’Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados’’. Ou seja, a propiciação é também um ato de amor, era necessário a propiciação para os pecadores se reconciliarem com Deus, para Deus salvar o Seu povo.
4.                       Reconciliação: nos termos gregos, esta palavra tem origem em katallasso, apokatallasso, katallage.
a)                       Katallasso: denota ‘’mudar’’, trocar’’ (sobretudo dinheiro); por conseguinte acerca de pessoas, ‘’mudar de inimizade para amizade, reconciliar’’. No que tange à relação entre Deus e o homem, o uso deste verbo e de outras palavras relacionadas mostra que a ‘’reconciliação’’ é primariamente o que Deus realiza, exercendo Sua graça para com o homem pecador com base na morte de Cristo em sacrifício propiciatório sob o julgamento devido ao pecado (Rm5:10-11, 2Co 5:29, Cl 1:21).
b)                      Apokatallasso: quer dizer ‘’reconciliar completamente’’, ‘’mudar de uma condição para outra’’, tirar toda a inimizade e não deixar impedimento algum à unidade e a paz. Neste caso, o verbo se relaciona à união de judeus e gentios em Cristo para formar um só corpo, o povo de Deus, isto é, a igreja (Ef2:16). Também significa a mudança de inimizade e alienação do pecador para a reconciliação com Deus (Cl 1:21).
c)                       Katallage: quer dizer ‘’troca’’, denota ‘’reconciliação’’, mudança de uma parte, induzida pela ação da outra parte. A palavra é usada em Rm5:11, 11:15. No NT, é ‘’reconciliação’’ dos homens para com Deus pela Sua graça e Seu amor em Cristo.
Após pecar, a consequência para o homem natural é a separação eterna de Deus. Não somente isto, mas o homem natural é chamado de ‘’filho da desobediência’’ (Ef 5:6-7), ‘’filho do diabo’’ (1Jo 3:4-10) e ‘’inimigo de Deus’’ (Tg 4:4). A palavra ‘’reconciliação’’ (Rm 5:6-11) tem o sentido de ‘’fazer a paz’’, ‘’trocar a inimizade por amizade’’. Como Deus é inimigo de todo pecador, esta inimizade é removida por meio da propiciação da ira de Deus. Somos reconciliados pela morte e ressurreição de Jesus Cristo em favor de seu povo (Rm 5:6-11). Neste processo, Deus é quem toma toda a iniciativa: ‘’nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo’’ (2Co 5:18-19), ‘’ele os reconciliou pelo corpo físico de Cristo, mediante a morte’’ (Cl 1:20-23), ‘’Mas agora, em Cristo Jesus, vocês, que antes estavam longe, foram aproximados mediante o sangue de Cristo’(Ef 2:16-18). Com a justiça satisfeita, a penalidade dos pecados paga e a remoção da inimizade por meio da morte de Jesus, o homem se reconcilia com Deus: ‘’e reconciliar com Deus os dois em um corpo, por meio da cruz, pela qual ele destruiu a inimizade’’ (Ef2:13-18).
5.                       Redenção: tem origem nas palavras gregas, tais como ‘’exagorazo’’, ‘’lutroo’’, ‘’lutrosis’’, ‘’apolutrosis’’.
a)                       Exagorazo: significa ‘’comprar’’, ‘’comprar ou adquirir da posse ou do poder de alguém’’, denota ‘’resgatar’’, principalmente um escravo com vistas a libertá-lo, neste último, é usado metaforicamente em Gl 3:13, 4:5.
b)                      Lutroo: tem sentido de ‘’libertar’’, ‘’resgate’’, conseguir libertar por um resgate. No NT, a palavra é usada em voz média: resgatar, redimir, livrar; usada metaforicamente sobre a compra de nossa salvação por Cristo (Lc24:21, Tt 2:14, 1Pe 1:18).
c)                       Lutrosis: traz a ideia de pagamento de um resgate, soltar mediante o recebimento de um resgate. Redenção, libertação, a respeito da redenção de Israel (Lc1:68, 2:38). Usada metaforicamente: redenção do pecado e suas consequências.
d)                      Apolutrosis: quer dizer deixar livre por meio do pagamento de uma redenção. A palavra grega pode ser utilizada em dois sentidos: a) libertação por meio do pagamento de uma redenção, utilizado com referência à libertação do poder e das consequências do pecado que Cristo tomou sobre si ao entregar a sua vida como redenção por todos os que creem (Rm3:24; 1Co 1:30; Ef 1:7,14; Cl 1:14; Hb 9:15); b) libertação sem a ideia de redenção, mas de calamidades e de morte. Dessa forma, também em referência ao corpo como uma prisão (Rm8:23, na hora da vinda do Senhor; Ef 4:30).
Redenção significa ato de pagar o resgate para recuperar o que foi perdido (Mt 20:28, Mc 10:45). Neste caso, após o caráter de Deus ser ofendido com o pecado, o homem perdeu a comunhão com Deus. Desta forma, o homem se tornou escravo do pecado (Rm 3:9-12,23, 6:17-18, 7:14-21; Ef 2:1-3), de Satanás (1Jo 5:19) e estava debaixo da maldição da Lei (Rm 3:19-20, 6:14; Gl 3:10-14). Assim, para Deus libertar o homem da escravidão do pecado, de Satanás e da maldição da Lei, alguém deveria assumir o lugar do homem para cumprir toda a Lei, satisfazer a justiça de Deus e suportar toda a Sua ira. Desta forma, Cristo, como representante do povo de Deus, pagou o preço dos pecados em nosso lugar e suportou toda a ira de Deus. Em Mt 20:28 e Mc 10:45, diz: ‘’Pois o próprio Filho do Homem não veio para servir, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos’’. Enquanto estava morrendo na cruz, Jesus Cristo nos libertou da maldição da Lei (Rm 7:6; Gl3:10-13, 4:4-5), ou seja, ele a cumpriu perfeitamente em nosso lugar. Portanto, os pecadores resgatados da maldição da Lei são justificados por Cristo e recebem o perdão de Deus (Rm3:24, 2Co 5:21,Ef 1:7, Cl 1:14, Hb 9:15). Em decorrência disso, recebem a libertação do cativeiro do pecado (Rm6:11-14, 1Co 7:22-23, Tt 2:14, 1Pe 1:18-20) e de Satanás (Cl 1:13, 2:15; Hb 2:14-15). Fomos libertados por Cristo da maldição da Lei (portanto, não precisamos cumprir a Lei para a salvação), da culpa do pecado e do poder de Satanás. Para a libertação do povo de Deus, era necessária a redenção por meio do sangue de Cristo.

O Propósito e o Alcance da Expiação
Como já tínhamos estudado, quando a humanidade pecou através de Adão (Rm5:12-19), estava perdida em seus pecados e delitos (Ef 2:5), totalmente corrompida e depravada pelo pecado (Gn 6:5,11-12; Mt 15:19-20; Mc 7:21-23; Rm 8:6-8), separada de Deus (Is 59:2), nasceu pecadora (Sl 51:5; Is 48:8; Jr 13:23, 17:9; Rm 1:18-21, 3:9-12, 3:19-24, 5:12-21; Ef 2:1-3), estava sob o juízo de Deus e merecia a condenação eterna (Rm 1:18-32, 3:10-12,23). A humanidade estava completamente perdida e não havia como buscar a Deus por causa da escravidão do pecado.
Porém, não foi da vontade de Deus deixar toda a humanidade ser condenada eternamente. Desde a eternidade, antes da fundação do mundo, Deus escolheu muitas pessoas (Rm8:28-30, Ef 1:3-6, 2Ts 2:13-14, 1Pe 1:1-2). Deus escolheu muitas pessoas não porque previu méritos ou que iriam crer no Evangelho, até porque os escolhidos de Deus mereciam a mesma condenação eterna dos demais e, também porque o homem natural não pode buscar a Deus com suas próprias forças. Deus escolheu muitas pessoas para salvar de Sua própria ira por causa da Sua vontade, do Seu amor e da misericórdia (Is 45:4; Rm9:11-16; Ef 1:3-6, 2:4-10; Tt 2:11-14).
A estas pessoas que Deus estendeu a Sua misericórdia, Ele providenciou um meio de salvação, da condenação eterna, através do sacrifício de Jesus Cristo. Aquelas pessoas que o Pai intencionou salvar antes da fundação do mundo, Ele enviou o Seu Filho para pagar a penalidade seus pecados, justificar e redimir. O profeta Isaías declarou sobre a missão de Jesus Cristo: ‘’meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si’’ (Is 53:11). Quando o Filho tomou a forma humana, foi-lhe dado o nome de Jesus, ‘’porque ele salvará o seu povo de seus pecados’’ (Mt 1:21). Simeão, ao tomar o menino Jesus em seus braços, disse: ‘’luz para revelação aos gentios e para a glória de Israel, teu povo’’ (Lc2:32). Na última ceia pascoal com os seus discípulos, ele explicou o propósito da Nova Aliança, firmada através de seu sangue: ‘’isto é o meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado em favor de muitos para a remissão de pecados’’ (Mt 26:28). O propósito de Cristo era morrer apenas em favor dos eleitos, ‘’para servir e dar a sua vida em resgate por muitos’’ (Mt 20:28, Mc 10:45) e ‘’para tirar os pecados de muitos’’ (Hb 9:28).
Depois de serem eleitas pelo Pai antes da fundação do mundo, redimidas por Cristo através de seu sangue, estas pessoas são chamadas e regeneradas pela ação do Espírito Santo (Jo1:13, 3:5-7, 16:7-8;Rm8:29-31; 1Co 1:23-24;2Ts 2:13-14; Tt 3:4-5). Desta forma, o Espírito Santo dá condições para o eleito ter fé na obra de Cristo e ser salvo (Mc 16:15-16; Jo 3:16-17, 17:20-21; Rm 1:16; Ef 8-9). Não apenas isso, a Bíblia também atesta que somente os escolhidos pelo Pai e redimidos por Cristo atenderão à chamada do Espírito Santo, enquanto os demais rejeitarão o convite do Evangelho (Jo6:35-37,44-45, 10:26-27; Rm 8:28-39; Ef 1:1-14;Gl 1:15; 2Ts 2:13-14; 2Tm 1:9; 1Pe 1:18-21). Sobre isso, a Bíblia atesta claramente: ‘’Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim, de modo nenhum o lançarei fora’’ (Jo6:37),’Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer’’ (Jo 6:44). Jesus orou antes de ser traído por Judas: ‘’não rogo pelo mundo, mas por aqueles que tens me dado, porque são teus’’ (Jo 17:9). O apóstolo Paulo confirma a salvação aos escolhidos pelo Pai e redimidos pelo Filho: ‘’Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Foi Cristo Jesus que morreu’’ (Rm8:33-34).
A morte de Jesus não foi por um grupo hipotético, mas por pessoas escolhidas e conhecidas individualmente pelo Pai (Jo8:54-55, 10:15-16, 10:26-27, 13:18; 1Co 8:2-3; 2Tm 2:19; 1Cl 1:27; 1Pe 1:2). Por outro lado, as pessoas não escolhidas pelo Pai e redimidas pelo Filho não são conhecidas (Mt 7:23). Isto não contradiz o atributo da onisciência, que pertence a Deus (2Cr 16:9; Jó 28:24; Sl 139:1,2,16; Is 42:8-9, 46:9-10; Mt 10:29-30), Ele sabe de todas as coisas (Hb 4:13). O ato de conhecer nestas passagens bíblicas está ligado a relacionamento íntimo, comunhão com Deus. Ou seja, todas as pessoas que o Pai escolheu, Ele conhece cada uma delas e tem um relacionamento íntimo. Na parábola do Bom Pastor, Jesus afirma porque os judeus não creem em seu nome: ‘’Mas vocês não creem, porque não são minhas ovelhas’’ (Jo10:26). Após a morte física, Jesus dirá aos falsos cristãos: ‘’Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam a iniquidade(Mt 7:23). Por outro lado, às pessoas eleitas e conhecidas, Jesus afirma: ‘’As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem’’ (Jo10:27). Mais uma vez, as Escrituras afirmam que Jesus morreu apenas em favor dos eleitos de Deus.
Enquanto que a expiação foi totalmente eficaz apenas para os eleitos de Deus, o propósito da expiação é reunir os redimidos individualmente para formar o povo de Deus (Jo11:50-52; Ef 1:3-6;Hb 4:9-10;Tt 2:14; 1Pe 1:1-2, 2:9-10; Ap 5:9). Dentre toda a raça humana caída e perdida em seus pecados e delitos, sem condições de crer em Deus por suas próprias forças, Deus separou para Si ‘’um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras’’ (Tt 2:14). Foi por este povo escolhido por Deus que Cristo pagou a pena de seus pecados (Mt 1:21). Enquanto que pela desobediência de Adão, todos se tornaram pecadores e merecedores da condenação eterna, Cristo desfez os estragos causados pelo pecado e redimiu o povo de Deus, o qual foi constituído como uma segunda raça (Rm5:17). Vejamos o que dizem as Escrituras: ‘’Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus’’ (1Pe 2:9), ‘’povo escolhido de Deus, santo e amado’’ (Cl 3:12). Finalmente, este povo que Deus escolheu e o Filho redimiu, constitui a igreja (Mt 16:18, At 20:28, Ef 5:25-27). Assim, a obra expiatória de Cristo tem todo o mundo como seu alcance. Porém, não salva literalmente todas as pessoas, apenas os eleitos espalhados pelo mundo.
Desta maneira, o sentido da palavra ‘’mundo’’, ‘’todos os homens’’, ‘’todas as nações’’, ‘’toda criatura’’ é em termo sociológico, em que Deus quer salvar pessoas de todas as ‘’tribos, línguas, povos e nações’’ (Mc 15:16;Jo 10:15-16; At 1:8, 10:34-35, 11:51-52, 15:7-9, 26:23; Rm 1:16-17; Gl 3:28-29; Cl 3:11-12; 1Pe 1:1-2, 2:9-10; Ap 5:9). Expressões que parecem apontar Jesus morrendo por todos os homens foram usadas pelos escritores do NT para corrigir a falsa ideia que Cristo morreu apenas em favor dos judeus. Um exemplo bem comum é a passagem de At 10:34-35: ‘’Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é aceitável aquele que, em qualquer nação, o teme e pratica o que é justo’’. Outro trecho bíblico que refuta a ideia da salvação somente aos judeus é o de Gl3:28: ‘’Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus’’. E, por último, é necessário citar o trecho de Ap 5:9:’pois foste morto, e com teu sangue compraste para Deus gente de toda tribo, língua, povo e nação’’. Portanto, Cristo expiou os pecados de todos os tipos de homens, de todos os lugares da terra, sem distinção alguma, os quais constituem o povo de Deus.
Por outro lado, as passagens bíblicas que contém a palavra ‘’mundo’’, forem consideradas como se Cristo tivesse morrido literalmente por todas as pessoas do mundo, teremos sérios problemas de interpretação e incoerência nas Escrituras. Primeiro lugar, se a palavra ‘’mundo’’ sempre for interpretada literalmente por todas as pessoas, então surgem contradições na Bíblia. A Bíblia diz: ‘’Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo’’ (Jo1:29), ‘’Deus estava em Cristo reconciliando o mundo’’ (2Co 5:19). Desta forma, ao considerarmos a palavra ‘’mundo’’ como se fosse ‘’todas as pessoas’’, Jesus Cristo teria morrido, pago a penalidade do pecado, justificado e reconciliado a Deus todas as pessoas do mundo. Ou seja, o inferno estaria vazio. Até mesmo o pecado da incredulidade seria pago por Jesus. Segundo lugar, a Bíblia diz ‘’o mundo todo está sob o poder do Maligno’’ (1Jo 5:19). Portanto, de acordo com esta passagem, todas as pessoas estariam condenadas e a obra de Cristo seria em vão. Terceiro lugar, ao afirmar que Jesus Cristo morreu por pessoas que não creriam em seu nome e seriam condenadas por rejeitá-lo, isso implica em dizer que Jesus Cristo derramou seu sangue em vão e que não teve poder suficiente para salvar estas pessoas, ou seja, sua obra foi insuficiente. Ou seja, estas conclusões levantadas por uma suposta morte por todas as pessoas contradizem o que ensinam as Escrituras: Mt 1:21, 7:23; Jo 10:26-27, 17:9; At 20:28;Rm 8:28-39;Ef 5:25-27; Tt 2:14; 1Pe 2:9. Portanto, a única conclusão que está de acordo com as Escrituras, é que Jesus Cristo morreu por todas as pessoas que o Pai lhe deu, isto é, os escolhidos de Deus. Para o povo de Deus, a expiação foi plenamente eficaz e garantiu para sempre a salvação. Esta doutrina é chamada de expiação limitada ou redenção definida.
Este povo que o Pai separou para Si herdou todas as bênçãos da salvação por meio da morte de Jesus. Ao ser justificado, propiciado, reconciliado e redimido a Deus por meio de Jesus Cristo, com todos os seus pecados pagos, este povo tem a certeza da salvação por meio de Jesus Cristo (Jo6:39-40, 10:27-29, 17:12; 2Tm 1:12) e o Espírito Santo opera no coração dos eleitos todos os dias (Rm 8:28-39;1Co 1:8, 6:19; 1Pe 1:1-9, 5:10; 1Jo 3:24). Jesus declarou aos seus discípulos e aos judeus: ‘’E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu’’ (Jo6:39). Na parábola do bom pastor, ele falou sobre as suas ovelhas, isto é, os eleitos de Deus redimidos no seu sangue: ‘’Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão’’ (Jo10:28). E, por último, o texto glorioso de Rm8:38-39: ‘’Porque eu estou bem certo de quem nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor’’. Portanto, todos aqueles que o Pai intencionou salvar, Jesus Cristo expiou os pecados eficazmente e o Espírito Santo regenera e persevera pela salvação do povo de Deus até o fim.
E, por último, a obra de Cristo na cruz é perfeita e completa do início ao fim, pois não só pagou pelos pecados do povo de Deus, como também garantiu a certeza da vida eterna. Neste sentido, Cristo ficou satisfeito, pois realizou toda a vontade de Deus ao expiar os pecados eficazmente de Seu povo (Is53:10-11, Jo 19:30, Hb 7:22-28). Ou seja, todos aqueles que o Pai intencionou salvar antes da fundação do mundo, enviou Seu Filho para redimir estas pessoas e formar um só povo. Logo, quando Cristo pagou por todos os pecados e garantiu a certeza da salvação do seu povo, a qual jamais perece com o tempo ou as adversidades, ele ficou satisfeito com a conclusão e perfeição de sua obra: ‘’a vontade do Senhor prosperará em sua mão’’ (Is53:10), ‘’Depois do sofrimento de sua alma, ele verá a luz e ficará satisfeito’’ (Is 53:12),’Está consumado!’’ (Jo19:30), ‘’Portanto, ele é capaz de salvar definitivamente aqueles que, por meio dele, aproximam-se de Deus’’ (Hb 7:25).





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Veja também: PECADO