segunda-feira, 20 de junho de 2016

PRESSUPOSTOS DE ALGUMAS ABORDAGENS DA PSICOLOGIA



PSICANÁLISE1

       É impossível fornecer uma visão unificada do campo psicanalítico. No entanto tomaremos a psicanálise freudiana como referência. No que diz respeito ao seu pressuposto ontológico, a natureza do mental é material. Esta seria justamente a significação da metapsicologia freudiana, mas devido entre outros fatores, a deficiência do conhecimento neurológico disponível, a Psicanálise seria uma neuropsicologia de vocação fortemente especulativa, formulada predominantemente em linguagem psicológica.
      Para a Psicanálise os estados mentais inconscientes são em última instância estados cerebrais. O ponto de vista mecânico deve ser levado tão longe quanto possível, apenas recorrendo ao ponto de vista biológico. Esgotadas as possibilidades de explicações mecânicas, estas precisam ser completadas com referência às exigências específicas impostas aos acontecimentos físicos que ocorrem no âmbito do organismo.
      Para Freud os processos conscientes seriam paralelos aos processos inconscientes. Haveria, assim, uma espécie de paralelismo residual entre o inconsciente e a consciência. O pressuposto epistemológico central da Psicanálise é seu naturalismo científico, a Psicanálise é uma ciência natural. Esse reducionismo freudiano não conduz a um projeto eliminativo. Não há nenhuma indicação de que Freud acreditasse que, algum dia, o progresso da ciência faria com que a Psicanálise deixasse de existir. O que ele parece acreditar é que esse desenvolvimento permitiria esclarecer os pontos obscuros que permaneciam na teoria psicanalítica.
       Em termos de pressupostos metodológicos há duas dimensões do método psicanalítico: produção e aplicação do conhecimento. O método de conhecimento e investigação e o método de intervenção. A técnica utilizada pela Psicanálise é a da associação livre. Quanto ao modelo de homem, a antropologia freudiana só pode ser uma antropologia naturalista. A Psicologia deve ser uma ciência da natureza como as demais. A espécie humana deve ser concebida como uma espécie biológica.
      A antropologia freudiana assume o pessimismo terapêutico, que se relaciona com o questionamento da crença na possibilidade da felicidade. Contribuem para esse pessimismo o conceito de pulsão de repetição, que compromete o esforço de uma mudança psíquica, e o de pulsão de morte, tendência inerente ao mental para a auto aniquilação. A satisfação é inviável em qualquer caso.

PSICOLOGIA COGNITIVA2
      Quanto aos pressupostos ontológicos do Cognitivismo, ele pressupõe que os processos para os quais constrói modelos ideais têm existência real na mente dos sujeitos, assumindo uma postura que é realista. A Psicologia Cognitiva considera que os processos cognitivos se desenvolvem de acordo com leis, mas esta crença só existe em relação aos processos mais automáticos.
       Pode-se distinguir no Cognitivismo dois tipos de posição: o Compatibilismo, segundo o qual causas e razões não são ontologicamente distintas, uma forma de determinismo absoluto e o Voluntarismo, que defende a distinção ontológica entre causas e razões, dando ao homem a condição de agente.
       É geral no Cognitivismo a defesa de que grande parte do processamento cognitivo de informações obedece a rígidos padrões e é sobre esses que se podem formular leis e fazer pesquisa nomotética. A Cognição, o objeto de estudo do Cognitivismo, é definido como processamento de informação, da extração, estocagem, recuperação e utilização de informação. Assim, o objetivo da Psicologia Cognitiva é estabelecer regras de transformação da informação que entra no sujeito como input e sai com output.
       A posição neurofilosófica do Cognitivismo é fruto do funcionalismo, cuja ideia central, é entender estados mentais funcionalmente, e não estruturalmente. O funcionalismo defende a teoria de que as mentes são sistemas causais que executam funções na forma de programas de instruções. A analogia básica é: computador-input-programa-output e mente-estímulo-processo-resposta.
       O objeto de investigação primário do psicólogo cognitivo não é o registro físico dos dados, mas sim o funcionamento dos “programas”. A atividade cognitiva deve ser descrita em formas de representação mental, mas há um desacordo entre os cognitivistas se há uma única forma ou não de representações mentais, ou se elas devem ser formalizadas como sentenças ou como um padrão vetorial de atividade. Para o Cognitivismo o comportamento são os dados através do qual podemos inferir os processos cognitivismo.
       Quanto aos seus pressupostos epistemológicos o cognitivismo busca a verdade, não a eficácia. Adotando a tese popperiana, o Cognitivismo descreve a verdade como um ideal normativo, do qual podemos nos aproximar, mas não estar seguros de possuir, uma espécie de otimismo epistemológico. Quanto à origem do conhecimento, o Cognitivismo adota o construtivismo, para o qual, o sujeito constrói suas representações de mundo e não recebe passivamente as impressões causadas pelos objetos, e se compromete com o inatismo, mas os cognitivistas discordam amplamente quanto ao grau em que os processos cognitivismo são inatos e sobre o significado do termo “inato”.
       Uma das principais teses do Cognitivismo é o racionalismo científico, para o qual não existe observação neutra da realidade, pois toda observação se faz contra ou a favor de uma teoria. A garantia de acesso a realidade vem dos nossos erros, a prova de que nossas teorias sobre o objeto não o determinam. Quanto aos seus pressupostos metodológicos, a psicologia cognitiva não tem um método exclusivo. Podemos citar, no entanto, o solipsismo metodológico, que adota os processos mentais do indivíduo, e não o ambiente externo, como unidade de análise. Quanto ao Modelo de Homem, a imago homini do Cognitivismo é de um ser humano ativo orientado a metas, concebido como um processador de informações, mas que constrói as regras de sua cognição e possui tendências inatas para desenvolver os processos básicos de sua cognição. Para os cognitivistas, o processamento de informação é majoritariamente inconsciente (inconsciente cognitivo).

PSICOLOGIA HUMANISTA3
       Na Psicologia Humanista o principal pressuposto ontológico, depois da admissão da realidade objetiva, é a liberdade humana. Valoriza-se a liberdade pessoal, entendida teoricamente até o limite do viável. Cabe-nos enfrentar lucidamente a oposição da realidade impedindo a satisfação de nossos desejos. O pressuposto da liberdade na Psicologia Humanista é o da liberdade subjetiva e não o da liberdade social. A primeira é a autonomia proporcionada pelo nosso pensamento e capacidade de tomada de decisões; a segunda tem seus limites estabelecidos por normas sociais.
       Sair do estado de alienação é condição necessária a uma existência saudável. A liberdade subjetiva opõe-se ao determinismo e ao desencantamento produzido pela racionalidade científica. O Homem é alguém dotado de condições subjetivas que o habilitam a pensar o devir pessoal, a porfiar no sentido de realizá-lo, concedendo para si um sentido para a existência. A concepção de um projeto de vida é essencial para a auto-realizarão.
       É muito importante para os psicólogos humanistas o conceito de pessoa. A pessoa é uma substância, um ser-no-mundo concreto, mas dotado de uma natureza própria, de liberdade, autoconsciência, responsabilidade, abertura a valores, e resistência a aculturação forçada.
       No que diz respeito aos seus pressupostos epistemológicos e metodológicos, os psicólogos humanistas sustentam uma posição de otimismo quanto a possibilidade de obtenção de conhecimento. Na Psicologia Humanista o ponto de vista predominante é o estudo do singular, das peculiaridades de cada pessoa. Embora nela utiliza-se o método fenomenológico, limita-se seu emprego à análise dos conteúdos mentais, incluindo a introspecção. A Psicologia Humanista compreende-se a pessoa, enquanto objeto de estudo teórico, prisma de sua globalidade e na perspectiva antirreducionista. O interesse dos psicólogos humanistas reside na busca de compreensão de pessoas comuns, não prejudicadas por graves transtornos psíquicos, ajudando-as a dar um sentido para a sua vida.

CONSTRUCIONISMO SOCIAL4
       O Construcionismo Social é um movimento ideológico bastante heterogêneo, abrigando, sem considerar um problema, teorias distintas e até mesmo contraditórias. O CS é uma teoria de Berger Luckmann, mas identificar o CS com a sociologia de Berger e Luckmann é ignorar que a epistemologia social de Gergen é marcada por um silêncio quanto aos componentes marxianos da sociologia de Berger e Luckmann.
       O CS é uma teoria sociológica da ciência, que analisa as estruturas institucionais da prática científica per se, mas a verdade é que o CS raramente é empregado nesse sentido. Além do mais é um erro grave limitar o CS a análise do conhecimento científico, já que ele defende todo saber partilhado socialmente, incluindo o conhecimento ordinário (senso comum).
       Vale observar, também, que o CS não é uma teoria sociológica, mas uma metateoria do conhecimento sociológico, um metadiscurso sobre a natureza de uma boa teoria sociológica. O CS é uma teoria relativista, negando a realidade empírica e objetiva, mas admite a realidade da própria linguagem e a realidade de interação linguística.
       O CS é uma teoria pós-moderna, criticando os pressupostos ontológicos, metodológicos e epistemológicos da Modernidade. É também uma teoria politicamente engajada, que não se abstém de fazer juízo de valor. O CS é uma nova epistemologia, mas, por outro lado, a própria epistemologia lhe é um completo engano filosófico.
      O Construcionismo Social a linguagem humana como seu pressuposto ontológico. Quanto a seus pressupostos epistemológicos, entende que todo conhecimento é expresso por uma linguagem particular, resultado de processos microssociológicos de interação, produzido e reproduzido por um grupo particular para atender as suas necessidades sociais. Quanto aos seus pressupostos metodológicos, o CS é eclético, mas há uma clara preferência por métodos qualitativos de análise, pelo método hermenêutico, pela análise pragmática da linguagem e pela análise micro histórica e uma recusa por métodos quantitativos e sínteses teóricas identificadas ao totalitarismo e ao fascismo intelectuais. O CS possui como Modelo de HOMEM uma imagem sociológica e relacional do ser humano.

PSICOLOGIA EVOLUCIONISTA5
       No que diz respeito aos seus pressupostos ontológicos, o ponto em questão da psicologia evolucionista é determinar se há padrões universais de comportamento para a espécie. A Psicologia Evolucionista só explica os comportamentos que têm função adaptativa. Os comportamentos adaptativos são respostas dadas pelos nossos antepassados e que solucionaram os recorrentes problemas relacionados à reprodução e sobrevivência.
      Há quatro níveis diferentes de análise do comportamento: a investigação das causas imediatas (mecanismos proximais) do comportamento, a pesquisa sobre a ontogênese do comportamento, a questão da história evolutiva do comportamento e o foco na função evolutiva (causa final) desse comportamento para os indivíduos da espécie.   
       Quanto aos seus pressupostos epistemológicos e metodológicos, a PE assume que o processo de evolução natural ajuda na compreensão do que somos. Em linhas gerais, a Teoria da Evolução por Seleção Natural assenta-se sobre três pilares: variação (mutação); herança genética e seleção. O Modelo de Homem da PE é de uma mente humana resultada das pressões sofridas por nossos ancestrais no seu Ambiente de Adaptação Evolutiva (AAE), localizado no Pleistoceno (2,5 milhões à 10 mil anos atrás). A PE considera importantes as contribuições trazidas pela Etologia, visto que o estudo do comportamento animal poderia ser útil para entender o funcionamento mental.

Fonte:  Este texto é na verdade uma condensação de alguns capítulos do livro  Araújo, S. (Orgs.) (2012). História e filosofia da psicologia: perspectivas contemporâneas. Juiz de Fora: Editora da UFJF.
 1 Freud e a Psicanálise: Uma visão de Conjunto –Richard Theisen Simanke & Fátima Caropreso
2 Cognitivismo-Gustavo Arja Castañon, Francis Ricardo dos Reis Justi & Saulo de Freitas Araujo.
3 Psicologia Humanista – Helmuth Krüger.
4 Construcionismo Social – Felipe Boechat & Francisco Teixeira Portugal.
5 Problemas e Limites da Psicologia Evolucionista – Saulo de Freitas Artaujo & Richard Theisen Simanke.




domingo, 19 de junho de 2016

DOMINGO - O DIA DO SENHOR


       A ideia do Domingo como o Dia do Senhor tem sido afrontada em vários sentidos. Alguns ensinam que o sábado do sétimo dia é aquele que deve ser guardado pela Igreja Cristã, outros dizem que o quarto mandamento foi abolido e que não há mais um dia de guarda, outros ensinam que, o que permanece é o princípio de um dia em sete, e que não importa qual dia da semana guardar. Este artigo defende que o primeiro dia da semana é, hoje, o sábado cristão.

DEUS DESCANSA NO SÉTIMO DIA
       No Sétimo Dia da Semana criativa, o Senhor Deus o santificou e descansou (Gênesis 2.4). O repouso divino não ocorreu porque o Criador estava literalmente cansado (Isaías 40.28). Se entendermos que os dias criativos são de 24 horas, podemos dizer que o Amoroso Criador descansou para que, de forma didática, pudesse posteriormente ensinar a Israel sobre a santificação do Sétimo Dia (Êxodo 20.10-11).
       É interessante que o primeiro a guardar o sábado tenha sido o próprio Deus, antes mesmo que a raça humana fosse contaminada pelo pecado, e antes do estabelecimento de qualquer sistema cerimonial de expiação. Nesse sentido, o mandamento sabático transcende uma mera questão de “ordenança cerimonial”, constituindo-se, portanto, em um princípio moral eterno.

A LEI DO SÁBADO
      Deus ordenou a Israel que santificasse o Sétimo Dia (Êxodo 16.26-30). Incluindo-o no Decálogo, a suma dos princípios morais da Lei, quis o Senhor enfatizar a presença de um elemento moral no quarto mandamento, dando ainda, como base para o mesmo, o que Ele fez ao findar sua obra criativa (Êxodo 20.7-11). Não obstante, o sábado também possuía uma esfera cerimonial (Levítico 23.2-3). Por fins didáticos, podemos distinguir o “sábado moral” e o “sábado cerimonial”. O primeiro, diria respeito aos princípios e elementos morais presentes no mandamento de guardar o dia do Senhor e o segundo, refriria- se aos aspectos cerimônias que caracterizavam a guarda do sétimo dia no Antigo Testamento, mas incluindo também os dias de descanso festivos.

O SÁBADO NA NOVA ALIANÇA
        O sábado cerimonial prefigurava o descanso espiritual que o Sacrifício de Jesus traria aos que estavam sobrecarregados pelo pecado (Mateus 11.28; Hebreus 4.9-11). Tendo cumprindo o seu propósito tipológico, o sábado cerimonial foi abolido: “anulando em seu corpo a lei dos mandamentos expressa em ordenanças. O objetivo dele era criar em si mesmo, dos dois, um novo homem, fazendo a paz” (Efésios 2.15). “Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo.” (Colossenses 2.16-17).  “Vocês estão observando dias especiais, meses, ocasiões específicas e anos! Temo que os meus esforços por vocês tenham sido inúteis.” (Gálatas 4.10-11).
       No concernente à guarda dos dias cerimoniais do judaísmo, os cristãos possuem liberdade para considerarem todos os dias iguais: “Há quem considere um dia mais sagrado que outro; há quem considere iguais todos os dias. Cada um deve estar plenamente convicto em sua própria mente” (Romanos 14.5).
       Por outro lado, o sábado moral não pode ter sido abolido. Mas, é importante mostrar como se desenvolve a revelação progressiva desse mandamento. Três razões são oferecidas para guardá-lo, sendo que a última provoca uma mudança na administração do mesmo. A primeira é o descanso sabático de Deus na semana criativa, a segunda é a libertação de Israel da escravidão egípcia (Deuteronômio 5.15) e a terceira é a Ressurreição de Cristo. Assim, a anulação dos aspectos cerimoniais da guarda do sábado, e a mudança de razão da guarda do mesmo trazem uma modificação, operada por Deus, na administração do quarto mandamento.

UMA MUDANÇA DE ADMINISTRAÇÃO
       Alguns mandamentos veterotestamentários, quando tendo abolidos seus aspectos cerimoniais, foram substituídos por uma nova forma de administração no Novo Pacto. Desse modo, falamos do Batismo como “a circuncisão cristã”, ou da Santa Ceia como a “páscoa cristã”. Luciano Sena esclarece isso melhor:
1)      Até a morte de Cristo, as referências sobre a Páscoa eram relatadas nos evangelhos como algo normal. Uma prática aceita e reverenciada. De repente, Cristo faz algo que com o passar do tempo a igreja começa a substituir a concepção antiga com a nova perspectiva, a Santa Ceia. Embora não temos uma ordem clara: ‘A Santa Ceia entrou no lugar da Páscoa’ – as evidências são tão fortes, que se tal ordem de transferência fosse escrita, faria com os relatos de muitos acontecimentos seriam desnecessários. Estamos ligados com o povo de Deus lá no Egito! Que bênção! Mas faltam algumas coisas na Ceia?[ervas amargas, cordeiro, certo dia especifico, etc] Sim, mas vários detalhes de um certo mandamento podem também suprir necessidades contextuais e contemporâneas, que após um tempo não seriam incluídas. 2) Até a morte de Cristo, as referências sobre o sábado eram relatadas nos evangelhos como algo normal. Uma prática aceita e reverenciada. De repente, Cristo faz algo que com o passar do tempo a igreja começa a substituir a concepção antiga com a nova perspectiva, o primeiro dia da semana, o dia do Senhor. O Domingo.1

       Deus confirmou essa mudança, batizando a Igreja no Espírito no Domingo (Atos 2.1), neste mesmo dia foi pregado o primeiro sermão sobre a morte e ressurreição de Cristo por Pedro e ocorreram as primeiras conversões (Atos 2.14). Os crentes naturalmente começaram a reunir-se no Domingo para adorar (Atos 20.7). A Igreja costumava se reunir no Domingo, por isso Paulo instrui para que os crentes a aproveitarem esse dia para fazer ofertas para os pobres (1 Coríntios 16.2). O apóstolo João fez questão de destacar o dia da ressurreição de Jesus como tendo sido no Domingo (João 20.1,19,26) e de chamá-lo de “Kyriake hemera” - o “Dia do Senhor” (Apocalipse 1.10).  Desse modo, se o dia de guarda do Antigo Pacto era o sétimo dia, com a Ressurreição de Cristo, o primeiro dia da semana torna-se o dia do Senhor no Novo Pacto.
       Evidenciando o reconhecimento da Igreja da alteração efetuada pela ressurreição de Cristo, temos o testemunho da visão cristã primitiva. O Didaquê (65-80d.C.): ““E no dia do Senhor Kyriake hemera, congregai-vos para partir o pão e dai graças”. A Epístola de Barnabé (96-98 d.C.): ““Ele finalmente lhes disse: “Não suporto vossas neomênias e vossos sábados”. Vede como ele diz: não são os sábados atuais que me agradam, mas aquele que eu fiz e no qual, depois de ter levado todas as coisas ao repouso, farei o início do oitavo dia, isto é, o começo de outro mundo. Eis por que celebramos como festa alegre o oitavo dia, no qual Jesus ressuscitou dos mortos e, depois de se manifestar, subiu aos céus.” Justino Mártir (100-165 d.C.): ““No dia que se chama do sol [domingo] se celebra uma reunião de todos os que moram nas cidades e nos campos” , Tertuliano (160-220 d.C.): ““Nós, porém, (segundo nos há ensinado a tradição) no dia da ressurreição do Senhor devemos tratar não só de nos ajoelhar, mas também devemos deixar todos os afazeres e preocupações, adiando também nossos negócios, a menos que queiramos dar lugar ao diabo.” E ainda Cipriano de Cartago (200d.C.): “Como o oitavo dia, isto é, o dia imediatamente após o Sábado era o dia em que havia de ressuscitar o Senhor, e nos havia de dar a vida com a circuncisão, por isso na lei antiga se observou este dia.”2 Os primitivos cristãos claramente perceberam que a Ressurreição de Cristo fez do Domingo um dia santo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

       O povo eleito de Deus não deve negligenciar a guarda do dia do Senhor. Chamando Israel a confissão de seus erros e pecados, Deus assim o exorta: “Se você vigiar seus pés para não profanar o sábado e para não fazer o que bem quiser em meu santo dia; se você chamar delícia o sábado e honroso o santo dia do Senhor, e se honrá-lo, deixando de seguir seu próprio caminho, de fazer o que bem quiser e de falar futilidades, então você terá no Senhor a sua alegria, e eu farei com que você cavalgue nos altos da terra e se banqueteie com a herança de Jacó, seu pai. ’ Pois é o Senhor quem fala.” (Isaías 58.13-14).
       Cremos e confessamos, juntamente com a Confissão de Fé de Westiminster (21.7)3:

Como é lei da natureza que, em geral, uma devida proporção do tempo seja destinada ao culto de Deus, assim também em sua palavra, por um preceito positivo, moral e perpétuo, preceito que obriga a todos os homens em todos os séculos, Deus designou particularmente um dia em sete para ser um sábado (descanso) santificado por Ele; desde o princípio do mundo, até a ressurreição de Cristo, esse dia foi o último da semana; e desde a ressurreição de Cristo foi mudado para o primeiro dia da semana, dia que na Escritura é chamado Domingo, ou dia do Senhor, e que há de continuar até ao fim do mundo como o sábado cristão.

FONTES:
1 http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/06/do-sabado-para-o-domingo-usando-pascoa.html

3 http://monergismo.com/textos/credos/cfw.htm

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A VERDADEIRA CULTURA DO ESTUPRO

Bruno dos Santos Queiroz

       A expressão “cultura do estupro” vem se tornando cada vez mais frequente. Essa expressão surgiu na década de 1960 e 1970, para querer dizer que a sociedade incentivava a violência contra a mulher. No contexto de sua criação o termo fazia muito sentido, mas com o desenvolvimento da noção de “cultura do estupro”, o estupro passou a ser enxergado não como um crime relacionado à vazão de desejos sexuais imorais, mas sim como um processo de ameaça que todos os homens possuem sobre todas as mulheres em um estado permanente de intimidação. Desse modo, as causas do estupro estariam na Cultura que determina papéis de gênero diferentes para homens e mulheres. A noção de “cultura do estupro” demonizou os homens, reproduzindo os arquétipos da história da Chapeuzinho vermelho, em que todos os homens são lobos maus estupradores em potencial a espreita para tragar as mulheres que devem precaver-se contra o Lobo Mau.1
       A proposta deste artigo é de que existe sim certa cultura do estupro, mas não no mesmo sentido perpetrado por movimentos com fundo materialista-dialético, ou com o questionamento de papéis de gênero.  Cremos que a questão de combater a “cultura do estupro” passa muito longe de desconstruir os papéis de gênero. Pelo contrário, o Cristianismo entende que Deus estabeleceu diferentes funções para o homem e a mulher, e que vivendo segundo o valor de sua masculinidade é que o homem não agirá como um estuprador.

RAÍZES HISTÓRICO-FILOSÓFICAS DA IDEIA DE “CULTURA DO ESTUPRO”2

       O filósofo suíço Jean Jacques Rousseau (1712-1788), falava do homem natural como um “bom selvagem” corrompido pela sociedade. Desse modo, o homem em sua natureza seria “pura bondade” e o mal seria uma construção social. Tal visão abre espaço para o determinismo ambiental. Baseados no Behaviorismo radical do psicólogo americano Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), alguns tem argumentado que todo comportamento é resultado da tríplice contingência do meio (fatores filogenéticos, ontogenéticos e culturais). Desse modo, todo e qualquer comportamento poderia ser considerado como produto natural da combinação das contingências do meio. Isso abre a possibilidade de justificar um comportamento imoral ou criminoso como mero produto de fatores deterministas.3
       Concepções deterministas da origem do mal, reverberam na Psicanálise ("mal" como resultado do jogo pulsional do inconsciente) e no Marxismo ("mal" como produto do materialismo histórico-dialético). Tal contexto filosófico possibilita abordar o estupro, não como um pecado de livre-agência do sujeito, mas como produto da “Cultura do Estupro”. Embora não se possa negar os condicionantes históricos e sociais de um comportamento, deveríamos indagar se causa sociais são suficientes para gerar um estupro.
        Analisando a concepção de J. J. Rousseau, fica claro a problemática de sua antropologia. Enquanto o mesmo considera o homem como naturalmente bom e corrompido pela sociedade, o apóstolo Paulo retrata a natureza humana pós-queda em um lúgubre quadro antropológico (Romanos 3.10-18). De um modo diferente das abordagens sócio-deterministas, Jesus situa a origem do mal e da imoralidade humana no coração do homem:  
Pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem ‘impuro’.
Marcos 7:21-23

A NOÇÃO DE CULTURA DO ESTUPRO E A CONSTRUÇÃO DE UMA REALIDADE FANTÁSTICA4,5

       O conjunto de significações teóricas de uma abordagem interpretativa do mundo pode criar uma realidade simbólica que, embora guarde ligações com a realidade concreta, pode diferir dela. É verdade que há em nossa Cultura produções e discursos que incentivam a violência contra a mulher e sabemos da existência do machismo e de outras questões sociais. Por outro lado, não podemos fechar os olhos para o fato de que a Cultura Ocidental, naquilo que ela ainda conserva suas raízes judaico – cristãs, tem clara aversão pelo estupro, nem podemos reduzir a discussão acerca do estupro como uma mera questão de origem social.
         Podemos caracterizar então, nossa realidade concreta como um mundo em que há pessoas que incentivam a violência contra a mulher, mas uma cultura em que essas opiniões não são bem vistas e o estupro gera muita indignação. Na nossa realidade concreta, a maioria dos homens também é contra o estupro. E mesmo aqueles que objetificam a mulher, com assobios e cantadas, estão muitas vezes, longe de consentir com um estupro.
       Basta refletirmos em como nossa cultura tem grande aversão contra o estupro. Pensemos em que meio social nós podemos falar abertamente: “Eu sou a favor do estupro” sem correr o risco de até mesmo ser linchado. Mas considerando que “cantadas” e “assobios” para as mulheres poderiam ser incluídos na noção de cultura do estupro, haverá uma ligação tão rápida assim de causalidade entre isso e o estupro, ou estamos apenas insistindo numa espécie de falácia post hoc?
       Podemos imaginar uma cena social em que pedreiros assobiam e cantam uma mulher passando pela rua – um ato claramente imoral. Mas provavelmente se esse mesmo pedreiro que assobia para uma mulher na rua, caso aparecesse alguém querendo estuprá-la, estaria mais para alguém que daria uma tijolada no estuprador para proteger a mulher do que alguém que consentiria com o estupro. Vemos que até em um contexto de objetificação da mulher o estupro pode não ser bem visto. Prisioneiros de uma cadeia também não recebem bem um estuprador e dificilmente poderá ser encontrado um ambiente social em nossa cultura em que o estupro é bem aceito.
       Se focalizarmos na realidade concreta, concluiremos que o estupro ainda não é bem aceito, mas que alguns comportamentos sociais, por objetificarem a mulher, podem criar um ambiente em que o estupro vá cada vez ganhando mais lugar. Por outro lado, alguns preferem criar uma segunda realidade supra-sensível usando uma expressão que evoca a ideia de que vivemos em um mundo sombrio, em que a cultura é favorável ao estupro, em que as mulheres vivem cercadas e continuamente intimidadas por todos os homens que podem a qualquer momento estuprá-las. É claro que podemos dizer que com “cultura do estupro” não queremos falar de uma cultura assim, mas não se pode negar que a própria construção da expressão e o modo como vem sendo usada evoca a ideia dessa realidade em sua tentativa de ser impactante e sensibilizadora.
       Lamentável é ver que o termo tem sido paradoxalmente usado como uma clara contraposição da moral cristã anti-estupro. Enquanto a “moral cristã conservadora” tem ojeriza pelo estupro, ao buscar elevar o sexo como símbolo místico de excelso amor, o termo “cultura do estupro” tem se levantado como um ataque a distinção de papéis de gênero defendidos pelo Cristianismo. Assim, para muitos ideólogos, a cultura do estupro é a cultura cristã.

A VERDADEIRA CULTURA DO ESTUPRO

       Existe sim, por outro lado, produções culturais e discursivas que incentivam a violência contra a mulher. Mas esta não se configura como um determinismo social, nem se desloca da realidade concreta para criar um mundo fantástico. Estranho é ver como muitos defensores da abstrata “cultura do estupro” apoiam à verdadeira “cultura do estupro”. Vivemos em um mundo em que se destacam a impunidade contra estupradores, a hiper-sexualização e a produção ‘cultural’ de incentivo a violência sexual.6
       O estranho é que muitos que se dizem combatentes da “cultura de estupro” apoiam essas três manifestações culturais. No que diz respeito à impunidade, conforme os pressupostos do determinismo social, com o deslocamento de um fenômeno da realidade concreta para uma abstração coletivista, a culpa não é mais considerada como sendo do próprio estuprador, mas da “Cultura do Estupro”. Neste caso, buscar denunciar o estuprador para que o mesmo seja punido não seria a atitude mais sensata. O que faria mais sentido, então, seria uma “conscientização social” por meio de “textões” no facebook e uso de filtros.
       No que diz respeito à hiper-sexualização, podemos falar de duas esferas da atividade sexual: Vênus e Eros. A esfera venal da atividade sexual diz respeito ao encontro meramente físico-corpóreo, manifesto no coito. No entanto, Vênus pode servir de substrato para algo maior, o encontro de subjetividades intencionais, em que ambas as pessoas que fazem sexo direcionam-se uma a outra num encontro místico de almas. O estupro insere-se apenas como “sexo venal”. O estranho é que muitos dos que dizem combater a “cultura do estupro” incentivam relações sexuais mais “livres” e “fluidas”, em que não há problema em “transar” só por prazer, sem que haja a necessidade de vínculo pessoal.7
       Por fim, podemos citar o funk como produção cultural que de modo muito descarado incentiva a violência sexual contra a mulher. E como muitos que dizem combater a cultura do estupro vêem o funk? Como uma “cultura de empoderamento” da periferia que deve ser incentivado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

       O modo como a expressão “cultura do estupro” vem sendo usada desloca a nossa visão da realidade concreta para uma “entidade abstrata maior” distante, que nos leva a perder de vista a abominação do ato de estupro e a necessidade de punição dos estupradores. Não falamos mais de um problema que nos soa como “pessoal”, mas de uma “entidade abstrata impessoal”. Por traz dessa expressão encontram-se o materialismo-dialético determinista e a preocupação mais com a estética de um termo do que com uma verdadeira e real sensibilização.
       O Cristianismo crê que Deus dotou o homem de uma pulsão de agressividade peculiar. A princípio, o macho era aquele que saía de casa para a caça – é próprio do homem um impulso biológico nesse sentido. Com a Queda, houve uma perversão do fim para o qual deveria se dirigir essa pulsão, e homens passaram a dominar autoritariamente as mulheres. Daí se vê, que a questão do estupro é um pouco mais profunda do que um mero determinismo sócio-cultural, ela origina-se na perversão que o pecado trouxe à natureza humana.8
       O apóstolo Paulo chama os homens a exercerem corretamente sua masculinidade, pois é exatamente cumprindo seu papel de gênero estabelecido por Deus que homens tratarão as mulheres com respeito: “Maridos, amem suas mulheres, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se a si mesmo por ela” - Efésios 5:25.
       O apóstolo dos gentios conclama os homens a um sacrifício de amor em relação à mulher. A função da masculinidade está em sacrificar sua própria pulsão de agressividade, para que assim possa devotar à mulher um amor de total entrega. Por isso, a noção de “cultura de estupro”, elencada hoje como uma desconstrução dos papéis de gênero, é exatamente o contrário da proposta cristã. Chamamos os homens a exercerem seu papel! Homens, sacrifiquem suas pulsões de agressividade! Homens, devotem tamanho amor de entrega pelas mulheres de tal modo que ele reflita o amor de Cristo pela Igreja. Homens, exerçam sua masculinidade! Isto: Homens, sejam homens (1Reis 2.2).

FONTES: