segunda-feira, 20 de junho de 2016

PRESSUPOSTOS DE ALGUMAS ABORDAGENS DA PSICOLOGIA



PSICANÁLISE1

       É impossível fornecer uma visão unificada do campo psicanalítico. No entanto tomaremos a psicanálise freudiana como referência. No que diz respeito ao seu pressuposto ontológico, a natureza do mental é material. Esta seria justamente a significação da metapsicologia freudiana, mas devido entre outros fatores, a deficiência do conhecimento neurológico disponível, a Psicanálise seria uma neuropsicologia de vocação fortemente especulativa, formulada predominantemente em linguagem psicológica.
      Para a Psicanálise os estados mentais inconscientes são em última instância estados cerebrais. O ponto de vista mecânico deve ser levado tão longe quanto possível, apenas recorrendo ao ponto de vista biológico. Esgotadas as possibilidades de explicações mecânicas, estas precisam ser completadas com referência às exigências específicas impostas aos acontecimentos físicos que ocorrem no âmbito do organismo.
      Para Freud os processos conscientes seriam paralelos aos processos inconscientes. Haveria, assim, uma espécie de paralelismo residual entre o inconsciente e a consciência. O pressuposto epistemológico central da Psicanálise é seu naturalismo científico, a Psicanálise é uma ciência natural. Esse reducionismo freudiano não conduz a um projeto eliminativo. Não há nenhuma indicação de que Freud acreditasse que, algum dia, o progresso da ciência faria com que a Psicanálise deixasse de existir. O que ele parece acreditar é que esse desenvolvimento permitiria esclarecer os pontos obscuros que permaneciam na teoria psicanalítica.
       Em termos de pressupostos metodológicos há duas dimensões do método psicanalítico: produção e aplicação do conhecimento. O método de conhecimento e investigação e o método de intervenção. A técnica utilizada pela Psicanálise é a da associação livre. Quanto ao modelo de homem, a antropologia freudiana só pode ser uma antropologia naturalista. A Psicologia deve ser uma ciência da natureza como as demais. A espécie humana deve ser concebida como uma espécie biológica.
      A antropologia freudiana assume o pessimismo terapêutico, que se relaciona com o questionamento da crença na possibilidade da felicidade. Contribuem para esse pessimismo o conceito de pulsão de repetição, que compromete o esforço de uma mudança psíquica, e o de pulsão de morte, tendência inerente ao mental para a auto aniquilação. A satisfação é inviável em qualquer caso.

PSICOLOGIA COGNITIVA2
      Quanto aos pressupostos ontológicos do Cognitivismo, ele pressupõe que os processos para os quais constrói modelos ideais têm existência real na mente dos sujeitos, assumindo uma postura que é realista. A Psicologia Cognitiva considera que os processos cognitivos se desenvolvem de acordo com leis, mas esta crença só existe em relação aos processos mais automáticos.
       Pode-se distinguir no Cognitivismo dois tipos de posição: o Compatibilismo, segundo o qual causas e razões não são ontologicamente distintas, uma forma de determinismo absoluto e o Voluntarismo, que defende a distinção ontológica entre causas e razões, dando ao homem a condição de agente.
       É geral no Cognitivismo a defesa de que grande parte do processamento cognitivo de informações obedece a rígidos padrões e é sobre esses que se podem formular leis e fazer pesquisa nomotética. A Cognição, o objeto de estudo do Cognitivismo, é definido como processamento de informação, da extração, estocagem, recuperação e utilização de informação. Assim, o objetivo da Psicologia Cognitiva é estabelecer regras de transformação da informação que entra no sujeito como input e sai com output.
       A posição neurofilosófica do Cognitivismo é fruto do funcionalismo, cuja ideia central, é entender estados mentais funcionalmente, e não estruturalmente. O funcionalismo defende a teoria de que as mentes são sistemas causais que executam funções na forma de programas de instruções. A analogia básica é: computador-input-programa-output e mente-estímulo-processo-resposta.
       O objeto de investigação primário do psicólogo cognitivo não é o registro físico dos dados, mas sim o funcionamento dos “programas”. A atividade cognitiva deve ser descrita em formas de representação mental, mas há um desacordo entre os cognitivistas se há uma única forma ou não de representações mentais, ou se elas devem ser formalizadas como sentenças ou como um padrão vetorial de atividade. Para o Cognitivismo o comportamento são os dados através do qual podemos inferir os processos cognitivismo.
       Quanto aos seus pressupostos epistemológicos o cognitivismo busca a verdade, não a eficácia. Adotando a tese popperiana, o Cognitivismo descreve a verdade como um ideal normativo, do qual podemos nos aproximar, mas não estar seguros de possuir, uma espécie de otimismo epistemológico. Quanto à origem do conhecimento, o Cognitivismo adota o construtivismo, para o qual, o sujeito constrói suas representações de mundo e não recebe passivamente as impressões causadas pelos objetos, e se compromete com o inatismo, mas os cognitivistas discordam amplamente quanto ao grau em que os processos cognitivismo são inatos e sobre o significado do termo “inato”.
       Uma das principais teses do Cognitivismo é o racionalismo científico, para o qual não existe observação neutra da realidade, pois toda observação se faz contra ou a favor de uma teoria. A garantia de acesso a realidade vem dos nossos erros, a prova de que nossas teorias sobre o objeto não o determinam. Quanto aos seus pressupostos metodológicos, a psicologia cognitiva não tem um método exclusivo. Podemos citar, no entanto, o solipsismo metodológico, que adota os processos mentais do indivíduo, e não o ambiente externo, como unidade de análise. Quanto ao Modelo de Homem, a imago homini do Cognitivismo é de um ser humano ativo orientado a metas, concebido como um processador de informações, mas que constrói as regras de sua cognição e possui tendências inatas para desenvolver os processos básicos de sua cognição. Para os cognitivistas, o processamento de informação é majoritariamente inconsciente (inconsciente cognitivo).

PSICOLOGIA HUMANISTA3
       Na Psicologia Humanista o principal pressuposto ontológico, depois da admissão da realidade objetiva, é a liberdade humana. Valoriza-se a liberdade pessoal, entendida teoricamente até o limite do viável. Cabe-nos enfrentar lucidamente a oposição da realidade impedindo a satisfação de nossos desejos. O pressuposto da liberdade na Psicologia Humanista é o da liberdade subjetiva e não o da liberdade social. A primeira é a autonomia proporcionada pelo nosso pensamento e capacidade de tomada de decisões; a segunda tem seus limites estabelecidos por normas sociais.
       Sair do estado de alienação é condição necessária a uma existência saudável. A liberdade subjetiva opõe-se ao determinismo e ao desencantamento produzido pela racionalidade científica. O Homem é alguém dotado de condições subjetivas que o habilitam a pensar o devir pessoal, a porfiar no sentido de realizá-lo, concedendo para si um sentido para a existência. A concepção de um projeto de vida é essencial para a auto-realizarão.
       É muito importante para os psicólogos humanistas o conceito de pessoa. A pessoa é uma substância, um ser-no-mundo concreto, mas dotado de uma natureza própria, de liberdade, autoconsciência, responsabilidade, abertura a valores, e resistência a aculturação forçada.
       No que diz respeito aos seus pressupostos epistemológicos e metodológicos, os psicólogos humanistas sustentam uma posição de otimismo quanto a possibilidade de obtenção de conhecimento. Na Psicologia Humanista o ponto de vista predominante é o estudo do singular, das peculiaridades de cada pessoa. Embora nela utiliza-se o método fenomenológico, limita-se seu emprego à análise dos conteúdos mentais, incluindo a introspecção. A Psicologia Humanista compreende-se a pessoa, enquanto objeto de estudo teórico, prisma de sua globalidade e na perspectiva antirreducionista. O interesse dos psicólogos humanistas reside na busca de compreensão de pessoas comuns, não prejudicadas por graves transtornos psíquicos, ajudando-as a dar um sentido para a sua vida.

CONSTRUCIONISMO SOCIAL4
       O Construcionismo Social é um movimento ideológico bastante heterogêneo, abrigando, sem considerar um problema, teorias distintas e até mesmo contraditórias. O CS é uma teoria de Berger Luckmann, mas identificar o CS com a sociologia de Berger e Luckmann é ignorar que a epistemologia social de Gergen é marcada por um silêncio quanto aos componentes marxianos da sociologia de Berger e Luckmann.
       O CS é uma teoria sociológica da ciência, que analisa as estruturas institucionais da prática científica per se, mas a verdade é que o CS raramente é empregado nesse sentido. Além do mais é um erro grave limitar o CS a análise do conhecimento científico, já que ele defende todo saber partilhado socialmente, incluindo o conhecimento ordinário (senso comum).
       Vale observar, também, que o CS não é uma teoria sociológica, mas uma metateoria do conhecimento sociológico, um metadiscurso sobre a natureza de uma boa teoria sociológica. O CS é uma teoria relativista, negando a realidade empírica e objetiva, mas admite a realidade da própria linguagem e a realidade de interação linguística.
       O CS é uma teoria pós-moderna, criticando os pressupostos ontológicos, metodológicos e epistemológicos da Modernidade. É também uma teoria politicamente engajada, que não se abstém de fazer juízo de valor. O CS é uma nova epistemologia, mas, por outro lado, a própria epistemologia lhe é um completo engano filosófico.
      O Construcionismo Social a linguagem humana como seu pressuposto ontológico. Quanto a seus pressupostos epistemológicos, entende que todo conhecimento é expresso por uma linguagem particular, resultado de processos microssociológicos de interação, produzido e reproduzido por um grupo particular para atender as suas necessidades sociais. Quanto aos seus pressupostos metodológicos, o CS é eclético, mas há uma clara preferência por métodos qualitativos de análise, pelo método hermenêutico, pela análise pragmática da linguagem e pela análise micro histórica e uma recusa por métodos quantitativos e sínteses teóricas identificadas ao totalitarismo e ao fascismo intelectuais. O CS possui como Modelo de HOMEM uma imagem sociológica e relacional do ser humano.

PSICOLOGIA EVOLUCIONISTA5
       No que diz respeito aos seus pressupostos ontológicos, o ponto em questão da psicologia evolucionista é determinar se há padrões universais de comportamento para a espécie. A Psicologia Evolucionista só explica os comportamentos que têm função adaptativa. Os comportamentos adaptativos são respostas dadas pelos nossos antepassados e que solucionaram os recorrentes problemas relacionados à reprodução e sobrevivência.
      Há quatro níveis diferentes de análise do comportamento: a investigação das causas imediatas (mecanismos proximais) do comportamento, a pesquisa sobre a ontogênese do comportamento, a questão da história evolutiva do comportamento e o foco na função evolutiva (causa final) desse comportamento para os indivíduos da espécie.   
       Quanto aos seus pressupostos epistemológicos e metodológicos, a PE assume que o processo de evolução natural ajuda na compreensão do que somos. Em linhas gerais, a Teoria da Evolução por Seleção Natural assenta-se sobre três pilares: variação (mutação); herança genética e seleção. O Modelo de Homem da PE é de uma mente humana resultada das pressões sofridas por nossos ancestrais no seu Ambiente de Adaptação Evolutiva (AAE), localizado no Pleistoceno (2,5 milhões à 10 mil anos atrás). A PE considera importantes as contribuições trazidas pela Etologia, visto que o estudo do comportamento animal poderia ser útil para entender o funcionamento mental.

Fonte:  Este texto é na verdade uma condensação de alguns capítulos do livro  Araújo, S. (Orgs.) (2012). História e filosofia da psicologia: perspectivas contemporâneas. Juiz de Fora: Editora da UFJF.
 1 Freud e a Psicanálise: Uma visão de Conjunto –Richard Theisen Simanke & Fátima Caropreso
2 Cognitivismo-Gustavo Arja Castañon, Francis Ricardo dos Reis Justi & Saulo de Freitas Araujo.
3 Psicologia Humanista – Helmuth Krüger.
4 Construcionismo Social – Felipe Boechat & Francisco Teixeira Portugal.
5 Problemas e Limites da Psicologia Evolucionista – Saulo de Freitas Artaujo & Richard Theisen Simanke.




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