domingo, 3 de julho de 2016

RAÍZES FILOSÓFICAS DA CRÍTICA DESTRUTIVA DA BÍBLIA

       
            A crítica bíblica não deixa de ser importante. Ela pode ser subdividida em dois tipos. O primeiro é chamado de baixa crítica e se refere ao texto bíblico, objetivando, através dos manuscritos disponíveis, a reconstrução o texto original. O segundo tipo de crítica pode ser chamado de alta crítica e diz respeito à fonte do texto original, buscando descobrir a origem real do texto, como por exemplo, seu autor. Ela pode ser positiva ou construtiva ou pode ser destrutiva ou negativa. A crítica negativa destrutiva da Bíblia conduz a uma rejeição da posição histórica e ortodoxa que enxerga as Escrituras como sobrenaturalmente inspiradas e inerrantes. Serão apresentados a seguir correntes filosóficas que lançaram as raízes para o surgimento de uma abordagem crítica destrutiva da Bíblia:

·         INDUTIVISMO: O filósofo Francis Bacon (1561-1627) alegava que toda verdade poderia ser descoberta através do método indutivo e que ela poderia ser conhecida por meio da experimentação. Ele também separou completamente o campo da razão e da ciência do campo da fé e da religião.

·         MATERIALISMO: De acordo com o filósofo Thomas Hobbes (1588 – 1679) não existiria a ideia de algo que poderia ser por nós, chamado de infinito. Para ele o Universo era corpóreo, sendo tudo o que existe dessa forma aquilo que não faz parte dele seria nada. Hobbes engajou-se em um processo de dessobrenaturalização do Evangelho. Ele dizia ainda, que no campo da religião podemos viver pela vontade de obedecer à religião imposta pelo Estado. Hobbes ainda fazia uma separação entre verdade espiritual (revelação divina) e verdade cognitiva (razão humana).


·         ANTI-SOBRENATURALISMO: Baruch Spinoza acreditava que o Antigo Testamento era uma obra de Esdras datada do ano 400 a.C. Ele rejeitou a historicidade da Ressurreição de Cristo, negou a possibilidade de milagres e rejeitou a ideia de que os escritores bíblicos receberam uma revelação sobrenatural. De acordo com Spinoza, a Bíblia apenas contém a Palavra de Deus.

·         CETICISMO: O filósofo David Hume (1711-1776) rejeitou a ideia da Escritura como um livro divinamente inspirado, ele negou a doutrina da deidade de Cristo e ainda rejeitou a crença em milagres.

·         AGNOSTICISMO FILOSÓFICO: De acordo com o filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804) conhecemos somente aquilo que aparece (phenomenal), pois as coisas em si, aquilo que realmente existe é incognoscível (noumenal).  Kant fez uma dicotomia entre fato e valor, objetivo e subjetivo e entre razão pura e razão prática, desse modo seria possível pensar que Deus existe, mas viver como se ele não existisse. Kant também negou a existência de milagres.


·         ROMANTISMO: Representado por filósofos como Jean Jacques Rosseau (1712-1778), Gotthold Lessing (1729-1781), Johan Wolfgang Von Goethe (1749-1832), Johan Cristoph Friedrich Von Schiller (1759 – 1805) e Johann Christian Friedrich Holderlin (1770-1843), o Romantismo surgiu como uma reação ao racionalismo, sendo responsável por reavivar a ênfase nos sentimentos, em celebridades e em movimentos heróicos do passado como mais importantes do que ideias ou instituições.

·         DEÍSMO: O deísmo, representado por filósofos como Herbet de Cherbury (1583-1649), John Toland (1670-1722), Antony Collins (1676 -1729), Thomas Woolston (1670-1733), Matthew Tindal (1655-1733), Benjamim Franklin (1706 -1790), Thomas Jefferson (1743 – 1826), Stephen Hopkins (1707-1785) e Thomas Paine (1737-1809), negava a existência de milagres sobrenaturais por rejeitar a interação de Deus para com o mundo criado, afirmando, portanto, ser impossível um livro que fosse uma revelação sobrenatural de Deus.


·         TRANSCENDENTALISMO: O famoso filósofo Georg Wihelm Friedrich Hegel (1770 – 1831) falava da História como um desdobramento do Espírito absoluto no mundo temporal. A História seria, portanto, um devir, uma apropriação progressiva do mundo por parte do Espírito absoluto. Ele falou de três estágios progressivos da presença do Espírito absoluto que tendiam cada vez ao mais abstrato, sendo eles na ordem: a Religião, a Arte e por último a Filosofia. Ele comparava a materialização do Espírito no devir histórico com a encarnação do Logos divino em um corpo concreto. Para ele, enquanto na religião Deus se torna homem, na Filosofia o homem se torna Deus.

·         POSITIVISMO: O Cientificismo de Augusto Comte (1798 – 1857) falava do desenvolvimento humano em três estágios. O primeiro seria o teológico, a infância da humanidade marcada pelo mito, o segundo seria o estágio metafísico, a juventude humana em que tem lugar o Logos, por fim, o último estágio seria o Positivismo, em que a humanidade adulta desenvolve o conhecimento científico.


·         EVOLUCIONISMO: Charles Darwin (1809 – 1882) abandonou gradualmente sua fé no Cristianismo, tornando-se provavelmente um agnóstico. Sua visão acabou por substituir Deus pela Seleção Natural.

       As raízes filosóficas acima apresentadas permitiram o surgimento de manifestações teológicas da crítica bíblica destrutiva, como o Liberalismo e a Neo-ortodoxia. Alguns teólogos passaram a negar a autoria mosaica do Pentateuco, a literalidade do relato da Criação de Gênesis e a adotar a visão dos milagres da Bíblia como meras mitologias. Tais concepções são contrárias aos ensinamentos da própria Bíblia sobre si mesma (2 Timóteo 3.16, 2 Samuel 23.2; Mateus 4.4; 2 Coríntios 2.11-13; Jeremias 26.2; João 10.34-35), bem como à visão histórica da Igreja sobre a Bíblia. Neste caso ficamos com o artigo XII da Declaração de Chicago Sobre a Inerrância da Bíblia (1978):

Afirmamos que, em sua totalidade, as Escrituras são inerrantes, estando isentas de toda falsidade, fraude ou engano. Negamos que a infalibilidade e a inerrância da Bíblia estejam limitadas a assuntos espirituais, religiosos ou redentores, não alcançando informações de natureza histórica e científica. Negamos ainda mais que hipóteses científicas acerca da história da terra possam ser corretamente empregadas para desmentir o ensino das Escrituras a respeito da criação e do dilúvio.

FONTES:

Geisler, N. (2015). Teologia Sistemática 1. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus.


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