quinta-feira, 6 de outubro de 2016

CAPITALISMO - SUBJETIVIDADE, MORALIDADE E DESIGUALDADE SOCIAL


     “A burguesia durante seu domínio, apenas secular, criou forças produtivas mais poderosas e colossais do que todas as gerações em conjunto. A subordinação das forças da natureza ao homem, a maquinaria, a aplicação da química na indústria e na agricultura, a navegação a vapor, as vias férreas, os telégrafos elétricos, a exploração de continentes inteiros para fins de cultivo, a canalização de rios, populações inteiras brotadas da terra como por encanto – que século anterior poderia prever que essas forças produtivas estivessem adormecidas no seio do trabalho social?” - Manifesto Comunista1

       A Revolução Industrial foi extremamente inovadora substituindo o sistema social tradicional do feudalismo pela prosperidade das fábricas. Não obstante, ainda havia grandes entraves. Embora as indústrias tenham trazido uma evolução nas condições sociais em relação a organização do trabalho dos períodos antecedentes, a escassez de riquezas, herdada da ordem econômica do período pré-capitalista, fez com que mulheres e crianças famintas tivessem que trabalhar em locais com condições sanitárias deploráveis e a se submeterem a longas jornadas de trabalho. Não obstante, com a evolução do Capitalismo, a produção de riquezas possibilitou melhores condições para o trabalhador, além da conquista de direitos das mulheres e das crianças 2. Ao contrário do que alguns apregoam, é justamente o Capitalismo que vem pondo fim à exploração e tem concedido cada vez mais liberdade as pessoas, além de tirar milhares da pobreza.
       O Capitalismo é responsável pelo grande enriquecimento do mundo. Diferente da falsa ideia de que “os ricos ficaram cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres”, as pessoas mais pobres do planeta foram as que mais ganharam. Hoje, muitas pessoas consideradas “pobres” possuem uma qualidade de vida muito melhor até do que a que reis possuíam a dois séculos 3. O grande enriquecimento ao permitir que a riqueza se tornasse comum fez com que grande parte dos homens hoje não precisasse sair para caçar, derrubar lenha e matar um urso, para se alimentar basta caminhar até sua geladeira4:
Deu-se dignidade e liberdade à classe média pela primeira vez na história da humanidade e esse foi o resultado: o motor a vapor, o tear têxtil automático, a linha de montagem, a orquestra sinfônica, a ferrovia, a empresa, o abolicionismo, a imprensa a vapor, o papel barato, a alfabetização universal, o aço barato, a placa de vidro barata, a universidade moderna, o jornal moderno, a água limpa, o concreto armado, os direitos das mulheres, a luz elétrica, o elevador, o automóvel, o petróleo, as férias, o plástico, meio milhão de novos livros em inglês por ano, o milho híbrido, a penicilina, o avião, o ar urbano limpo, direitos civis, o transplante cardíaco e o computador. O resultado foi que, pela primeira vez na história, as pessoas comuns e, especialmente os mais pobres, tiveram sua vida melhorada.”3

CAPITALISMO E SUBJETIVIDADE
       Para o marxismo o valor de um bem é determinado pela força de trabalho necessária para produzi-lo. O lucro seria obtido a partir daquela parte do trabalho que não é paga (mais-valia). Neste caso, o valor de uma mercadoria seria algo mais fixo e imutável e de certa forma, uma materialização da força do trabalho 5. Ainda, segundo essa concepção o lucro sempre é conseguido por meio da exploração baseada na mais valia, uma forma do capitalista burguês roubar do seu empregado parte da sua força de trabalho. Por isso os marxistas acreditam que a relação empregado e trabalhador sempre é uma relação de exploração.
       Por outro lado, é mais coerente entender o valor de uma mercadoria a partir de uma ótica mais subjetiva e mutável. É mais correto pensar que o valor de um produto não é determinado pela força de trabalho que nele se materializa, mas sim pela demanda do consumidor, e por fatores como oferta e escassez. Aliás, cavar buracos pode exigir muita força de trabalho, mas eles não terão valor algum se não atenderam a alguma demanda 6.
       A ênfase na valorização subjetiva faz com que as pessoas possam escolher pelo que realmente seja significativo e faça sentido dentro do seu campo existencial. Ainda, a teoria subjetiva do valor permite com que a riqueza seja distribuída, não igualitariamente, mas sim de acordo com aquilo que é demandado por cada um, respeitando os gostos peculiares e a singularidade de cada indivíduo. Assim, o Capitalismo respeita as diferenças e a diversidade, diferente das políticas igualitaristas da esquerda.

CAPITALISMO E MORALIDADE
       Diferente da esquerda que terceiriza a caridade ao Estado, os liberais acreditam que cada pessoa individualmente é responsável pela ação social, sendo dever de todos os homens ajudar os mais pobres. Não existe generosidade em arrancar violentamente o dinheiro das pessoas por meio de impostos abusivos em nome de políticas sociais que prejudicam justamente aqueles que se promete ajudar. Assim, a ética capitalista, ao valorizar a propriedade privada, se opõe ao roubo, em harmonia com o preceito que diz “Não furtarás.” (Êxodo 20.15).
       A liberdade é um valor caro para o Capitalismo. Numa sociedade capitalista é necessário que as liberdades individuais sejam protegida7:
Para o homem, desfrutar a liberdade significa trabalhar com o que gosta e com o que lhe dá prazer, encontrar emprego ou fornecer emprego como achar mais adequado, comprar e vender livremente seus bens e serviços, e poder manter suas remunerações. Ser livre é estar desimpedido e desobstruído para buscar seus objetivos econômicos.”8
       Diferente dos rousseaunianos que atribuem os males sociais a entidades metafísicas coletivistas, alguém que acredita nas liberdades e responsabilidades individuais, valoriza o desenvolvimento moral de cada pessoa 9. É verdade que condições sociais podem potencializar a maldade dos homens, no entanto, isso de modo algum tira a responsabilidade moral de cada um por seus atos. Se eu cometo uma transgressão, pode ser verdade que vários condicionantes me tenham levado a isso, mas nada muda o fato de que fui “eu” quem cometeu uma transgressão, e quanto a isso não há desculpas, mas sim responsabilidades 10 .
       A ideia de responsabilidade pessoal e individual pressupõe um mundo que valorize a livre iniciativa e a propriedade privada, diferente de políticas estatistas em que o coletivismo toma o lugar do sujeito e as consequências das escolhas individuais não incidem diretamente sobre o sujeito responsável, mas sobre toda a teia social. Por substituir a responsabilidade pessoal do altruísmo pela função impositiva do Estado e por muitas outras coisas, a esquerda, no final das contas, sacrifica as liberdades individuais e a responsabilidade pessoal em nome de um igualitarismo impositivo e autoritário.

CAPITALISMO E DESIGUALDADE SOCIAL
       Geralmente a esquerda trabalha com a ideia de que o problema ou a causa da pobreza no mundo é o fato de que a riqueza dos ricos é diretamente proporcional à pobreza dos pobres. A isso podemos chamar “economia estática”, ilustrada por uma música que diz: "É porque o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre" ou ainda “é porque o de cima sobe e o debaixo desce”. Nesse modo de pensar a desigualdade de renda é entendida como inerentemente uma injustiça ou uma forma de exploração dos mais ricos sobre os mais pobres. Para corrigir esse defeito social, o Estado deveria funcionar como um Robin Hood tirando a riqueza dos ricos e redistribuindo aos pobres a fim de igualar a renda de todos.
       O igualitarismo, no entanto, tem se mostrado um desastre. Para tirar dinheiro de pessoas muito ricas a fim de redistribuí-las aos pobres é necessário encher o Estado de muito poder, a fim de que ele seja mais poderoso até mesmo que grandes empresários, não em vão, algumas linhas da esquerda de fato defendem que isso deva ser feito por meio de uma ditadura, outros não chegam a tanto, como no Welfare State (Estado de Bem- Estar Social).
       Uma arma que tem sido usada para tirar dinheiro das pessoas a fim de redistribuí-lo igualitariamente é a taxação de enormes impostos, Assim, em cada coisa que as pessoas compram, elas estão pagando impostos. No Brasil impostos podem representar até mais de 80% do preço de um produto 11. E precisamos crer aqui que nossos bons governante estão tirando todo esse dinheiro dos cidadãos e distribuindo bondosamente a todos. Não é difícil entender um pouco do porquê de tanta corrupção.
       No fundo, as políticas de redistribuição de renda tem geralmente levado a um primeiro período de artificial aumento do “poder de compra”, dando a impressão de que a vida dos pobres está melhorando, seguido de uma terrível crise financeira que no final deixa os pobres mais pobres do que antes e, por fim, aumenta o desemprego. Esses grandes impostos tem dificultado a produção de riqueza e tem produzido mais pobreza 12.
       Liberais, por outro lado, acreditam que a desigualdade não é a culpada pela pobreza e que a desigualdade é perfeitamente natural em um mundo em que haja pessoas diferentes. Em uma economia liberal a desigualdade social pode significar até melhor qualidade de vida aos mais pobres. No mundo liberal, pessoas podem enriquecer muito aumentando a desigualdade de renda, e assim produzindo inovações que melhoram o padrão de vida da maioria. Os liberais não querem acabar com a desigualdade social, mas sim com as injustiças sociais, querem um mundo em que embora hajam pobres, esses pobres possam ter a melhor qualidade de vida possível, melhor do que teriam em um contexto de “igualdade social”. Para isso, é preciso deixar na mão dos pobres todo aquele dinheiro que é praticamente “roubado” deles por governantes corruptos e estimular a livre concorrência para que os serviços oferecidos aos pobres (e a todos) sejam o mais barato e tenham a melhor qualidade possíveis13.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
       Não se deve confundir o Capitalismo livre apresentado neste artigo com o “Capitalismo de compadres” ou “Capitalismo de Estado”, em que as grandes empresas fazem uso do Estado para arrancar dinheiro dos pobres. Nesse tipo de encomia ocorrem associações espúrias entre políticas governamentais corruptas e grandes empresas privadas supostamente preocupadas com os mais pobres, mas que na realidade não passam de marketing social e solidariedade de fachada. Assim, grandes empresas (e poder-se-ia incluir até mesmo algumas ONGs, artistas e movimentos sociais) captam recursos junto ao Governo, com um discurso social que na realidade enriquece os empresários poderosos e rouba dinheiro justamente daqueles que prometem ajudar 14. Grandes empresas amam arranjos de economia mista e 'assistencialismos', porque assim são protegidas dos desafios da livre-concorrência, obtêm privilégios do governo 15., recebem o lucro dos gastos públicos, e quem paga a "conta" no final são os pagadores de impostos 16.
       Enquanto a esquerda promove a distribuição igualitária da miséria, o neoliberalismo com seu Capitalismo de Estado e sua economia mista, cria um mundo em que boa parte das coisas são pagas e as pessoas não tem dinheiro para pagar. A proposta liberal, por outro lado, preconiza uma sociedade em que praticamente tudo seja pago, mas que as pessoas tenham dinheiro para pagar.
       No entanto, devemos ser cautelosos para não atribuirmos a realidade última das coisas à economia. Valores morais eternos e imutáveis devem ser colocadas acima de qualquer princípio capitalista. Pode ser verdade, por exemplo, que a liberalização das drogas traga um grande benefício econômico, mas antes é preciso avaliar se esse tipo de medida é moralmente correto. Esse é só um exemplo para ilustrar como virtudes cristãs devem sempre ser consideradas em primeiro lugar:
Porque vós mesmos sabeis como convém imitar-nos, pois que não nos houvemos desordenadamente entre vós, nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos autoridade, mas para vos dar em nós mesmos exemplo, para nos imitardes. Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs. A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão.
2 Tessalonicenses 3.7-12

FONTES

1Manifesto Comunista – Karl Marx. Disponível em: http://www.pstu.org.br/sites/default/files/biblioteca/marx_engels_manifesto.pdf
2http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1056
3http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2509
4http://sensoincomum.org/2016/05/24/ana-hickmann-urgencia-masculinidade/
5 O Mundo do Trabalho: Construção histórica e desafios contemporâneos – Lívia de Oliveira Borges e Oswaldo H. Yamamoto. Disponível em: http://www.larpsi.com.br/media/mconnect_uploadfiles/c/a/cap_01989.pdf
6 https://www.youtube.com/watch?v=T0DtbxxsV8s
7A Moralidade do Capitalismo – O que os Professores Não Contam Editado por Tom G. Palmer Students For Liberty & Atlas Network.
8http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1468
9https://www.youtube.com/watch?v=vpd_P0N7nuI&index=1&list=PLeZEqTjcheIUsWGmvqnwDNKENhMbnNUok
 10.O Sofrimento de uma vida sem sentido – Viktor Frankl – É Realizações.
11 http://especiais.g1.globo.com/economia/2015/quanto-pagamos-de-impostos/
12http://bereianos.blogspot.com.br/2016/09/desfazendo-alguns-discursos.html
13http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2521
14http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAGscAI/resumo-critico-filme-quanto-vale-por-quilo
15 http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2529
16 http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2530



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