sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

UM ENSAIO ANALÍTICO SOBRE O MOLINISMO



           O objetivo deste artigo não é oferecer uma refutação ou resposta exaustiva ao molinismo, nem de trazer uma solução final ao problema “liberdade humana X soberania divina”. Antes, este texto é uma espécie de ensaio que busca apresentar uma análise prolegômena do molinismo ao lidar com a questão metafísica “determinismo X indeterminismo”.  
       De acordo com o Molinismo, a base dos decretos de Deus está em Sua Onisciência, mais propriamente em Seu conhecimento médio. O conhecimento médio seria o conhecimento que Deus tem do que uma pessoa livremente faria se ela se encontrasse em uma determinada circunstância [1]. Portanto, para um molinista, a providência divina depende, ou seja, está baseada, na Onisciência, de forma que o conhecimento de Deus é logicamente anterior ao seu decreto.
        Podemos concordar em dois pontos com a metafísica molinista: (1) A Providência divina é exaustiva e abrangente: Tudo o que acontece no mundo ocorre segundo a vontade decretiva de Deus (Isaías 14.24,27; 46.8-11). (2) Deus possui conhecimento das escolhas humanas livres em cada circunstância (1 Samuel 23.8-14). [2] Mas o Molinismo está errado quando diz que a base para o decreto e a providência de Deus está no Seu conhecimento médio. [3] Isso por dois motivos:

1.      A Simplicidade de Deus exige a independência ontológica de Seu conhecimento:

       O Teísmo clássico e o Cristianismo histórico entendem Deus como uma unidade absolutamente simples não composta por quaisquer partes, desse modo os atributos de Deus devem ser vistos sobre o prisma da simplicidade (não-composição) da essência divina. O argumento a favor da simplicidade de Deus pode ser colocado da seguinte forma:

“(i) Existe uma multiplicidade de seres.
(ii) Os seres finitos se diferenciam quando suas potencialidades são atualizadas.
(iii) Mas nenhuma potencialidade é capaz de atualizar por si própria.
(iv) Logo precisa haver algo que é Pura Atualidade.
(v) Seres simples não são compostos de nenhuma forma ou matéria para se diferenciar.
(vi) Não há multiplicidade se não há diferença.
(vii) Portanto só existe um Ser Simples (Deus).”[4]

       Isso significa que Deus é idêntico a cada um de seus atributos. Ele não tem Sabedoria, Ele É a Sabedoria. Essa identidade faz com que todos os atributos possam qualificar um ao outro, visto que eles não são “partes” que formam um conjunto de propriedades, mas são designações que se referem a uma e a mesma essência indivisível da deidade. Assim, se Deus é Infinito e se Deus é Sabedoria, Deus é Sabedoria Infinita e a Infinita Sabedoria, daí dizermos que Ele é Onisciente. Outro exemplo, se Deus é Santidade e se Deus é Amor, então Deus é Santidade Amorosa e Amor Santo. Assim, por causa da simplicidade e pura realidade de Deus, seus atributos são perfeitamente coordenados. [5]
       Podemos agora argumentar assim: (1) Deus é um Ser Independente (2) Deus é Conhecimento (3) Logo Deus é Conhecimento Independente. Os molinistas têm um sério problema diante deles, que é o de explicar como o conhecimento divino pode ser a base das ações de Deus se esse conhecimento, por ser infinito, já precisa incluir o controle providencial da Divindade.[6] O conhecimento de Deus não pode depender de nada fora de Si mesmo, pois a simplicidade da essência divina exige que o conhecimento da Deidade seja independente. Mas, no molinismo, enquanto Deus é feito dependente, os mundos possíveis tornam-se realidades ontologicamente independentes de Deus. Como observa Franklin Ferreira & Alan Myatt:
  
“... há o problema da independência ontológica destes mundos possíveis. Se as ações das criaturas nestes mundos são autônomas..., então estes mundos possíveis são o que eles são por causa da atividade criativa das criaturas e não de Deus. É como se Deus, ao criar, fosse numa loja de mundos possíveis e, olhando as estantes, tivesse encontrado um mundo de que gostava, e a partir daí o tornasse real. Mas esses mundos possíveis, de onde vieram? Não são criados por Deus, mesmo como ideias, mas existem como possibilidades independentes de Deus, como se fossem ideias platônicas.” [7]

         Dentro de uma perspectiva reformada, os condicionantes futuros não são vistos como realidades ontologicamente independentes de Deus. O próprio Deus estabeleceu não somente os fins, mas também os meios pelos quais esses fins seriam atingidos. Assim Deus inseriu os eventos numa rede variada de conexões frequentemente de natureza condicional. Por exemplo, uma pessoa só pode ser salva se invocar o nome do Senhor, assim se uma pessoa X invocar o nome do Senhor ela será salva, mas se essa mesma pessoa X não invocar o nome do Senhor, ela não será salva (Romanos 10.13-15). Assim, os condicionantes futuros não foram criados pelo livre-arbítrio indeterminista dos homens, antes são eventos que fazem sentido dentro da rede variada de conexões que Deus estabeleceu, de modo que um determinado evento não pode acontecer sem que outro tenha acontecido primeiro, por exemplo, não há sustento sem trabalho, não há salvação sem fé, etc. [8]

2.      A Simplicidade de Deus impede uma precedência lógica de Seu conhecimento de certa futurição em relação à Sua Vontade Decretiva [9]

       Novamente, a unidade absolutamente simples da essência da Deidade impede que a Providência divina esteja baseada na Onisciência de Deus, porque o conhecimento de Deus de certa futurição não pode ser logicamente anterior à Sua Vontade decretiva:

“Como Ser simples, a vontade e conhecimento de Deus estão coordenados. Ele conhece o que deseja e deseja o que conhece. Na realidade, Ele conhece eternamente o que deseja eternamente, e Ele deseja eternamente o que conhece eternamente. Um não é subsequente ao outro, tanto cronológica (visto que Ele é não-temporal e não preso pelo tempo) quanto logicamente (visto que Ele conhece intuitivamente e não consecutivamente.”[10]

       Não obstante, o cerne do problema no molinismo é o seu comprometimento com o libertarianismo libertário, de modo que a metafísica molinsita presume uma concepção indeterminista de liberdade quanto a sua realização [11]. Toda teoria metafísica precisa lidar com o problema “determinismo versus indeterminismo” que é uma das questões decorrentes do problema maior do uno e do múltiplo. Ao assumir um conceito libertário de livre-escolha, o molinismo prioriza mais o indeterminismo (múltiplo) do que o determinismo (uno). Sobre isso devemos levar em conta duas coisas:

1.      A Doutrina da Trindade nos impede de priorizar o indeterminismo: Ao afirmar que Deus é um em essência e três em pessoalidades, a teontologia trinitária ensina que o fundamento ontológico último de toda a metafísica do real é a igualdade fundamental entra a diversidade e a unidade, entre o uno e o múltiplo.[12]  Assim, o cristão não pode priorizar em sua metafísica do real nem a soberania divina (uno) a ponto de desprezar a responsabilidade humana (múltiplo), nem a liberdade humana (múltiplo) a ponto de limitar a soberania divina (uno). Tanto a liberdade e responsabilidade humanas, quanto a soberania e controle exaustivo de Deus devem ser afirmadas como verdades metafísicas igualmente fundamentais, pois sua base ontológica está na igualdade fundamental da unidade e da diversidade na Trindade. O Molinismo, ao entender os atos humanos livres como logicamente anteriores ao decreto no conhecimento divino, acaba por colocar a liberdade humana acima e independente da soberania de Deus, e não só isso, acaba por fazer a vontade decretiva dependente da liberdade humana. O conhecimento médio posiciona a liberdade humana acima da soberania divina e faz Deus ter de "consultar" os homens antes de tomar a decisão de qual mundo vai criar. Isso é absolutamente antibíblico (Jó 41.11; Isaías 40.13,14).[13] O molinismo não é uma metafísica apropriada do real, pois prioriza a multiplicidade acima da unidade.

2.      Um visão mais consistente de liberdade humana: Podemos definir livre-arbítrio como o poder de escolher tanto o bem, quanto o mal. Nesse sentido, Adão tinha livre-arbítrio, pois ele tinha poder tanto de obedecer a Deus quanto de desobedecê-Lo. No entanto, seu querer foi o mal.[14] Quando a Queda aconteceu, a humanidade perdeu o poder de fazer o bem espiritual (assim o homem não tem mais livre-arbítrio), mas permaneceu livremente e voluntariamente querendo o mal. Isso significa que quando alguém peca, ele está simplesmente fazendo o que quer. Nesse sentido, não é Deus quem efetua o pecado como causa imediata (Deus não é o Autor do Pecado[15] ), o mal moral é um ato livre da criatura. Mas como Deus decretou, desde a eternidade este ato, Ele o regula, ordena e controla [16]. Mesmo sem livre-arbítrio, pois não possuem em si mesmos poderes para fazer o bem, os homens agem livremente de acordo com suas vontades, pois só querem naturalmente o mal. Isso é o que chamamos de livre-agência:

“A liberdade dos seres humanos que a fé reformada ensina não é fictícia ou ilusória. Ela é real e verdadeira. Ela diz respeito aos atos voluntários que os seres humanos praticam. A liberdade da qual falamos tem a ver com a capacidade que os seres humanos possuem de fazer qualquer coisa que quiserem, de fazer o que lhes agrada, de fazer as coisas pelas quais eles têm predileção.”[17]

CONSIDERAÇÕES FINAIS

       O molinismo é uma filosofia incapaz de fornecer uma solução satisfatória para o problema da relação entre a responsabilidade humana e a soberania divina. Isso acontece porque o molinismo está comprometido com uma independência ontológica incompatível com a simplicidade da essência divina; com a noção de que o conhecimento divino é logicamente anterior à sua Providência, o que teontologicamente é impossível e; com uma visão de liberdade que ignora que o fundamento ontológico da metafísica do real é a igualdade fundamental entre a unidade e a diversidade da Trindade. A Fé reformada, com base no agostinianismo-calvinista, é capaz de conciliar de modo muito mais satisfatório a liberdade humana e a providência divina, pois as considera como verdades igualmente fundamentais na elaboração de sua metafísica do real. O motivo final para rejeitarmos a doutrina do conhecimento médio é que ela contradiz as Escrituras:

“Quem primeiro me deu, para que eu haja de retribuir-lhe? Pois o que está debaixo de todos os céus é meu.”Jó 41.11.
“Quem guiou o Espírito do Senhor, ou como seu conselheiro o ensinou?
Com quem tomou Ele conselho, que lhe desse entendimento, e lhe ensinasse o caminho do juízo, e lhe ensinasse conhecimento, e lhe mostrasse o caminho do entendimento?”
­– Isaías 40.13,14.


[2] https://bereianos.blogspot.com.br/2015/11/quao-biblico-e-o-molinismo-parte-1.html
[3] Alguns molinistas observam que eles não dizem que Deus exerce sua Providência com base no seu conhecimento, mas sim através de seu conhecimento médio. A questão que eu me pergunto é se estamos tratando de mero jogo linguístico. Creio que o mais provável seja que a ideia de que a onisciência é a base do decreto é uma implicação lógica do molinismo, ainda que não seja assumida explicitamente.
[5] GEISLER, N. Teologia Sistemática 1. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, p.590.
[6] GEISLER, N. Teologia Sistemática 1. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, pp. 726-727.
[7] FERREIRA, F. & MYATT . Teologia Sistemática - VIDA NOVA,  207. pp. 340-341.
[9] http://bereianos.blogspot.com.br/2013/05/o-conhecimento-medio-parte-23.html No entanto: "A questão não diz respeito a coisas condicionais futuras necessárias, as quais nesta ou naquela dada condição só podem ocorrer (como: se o sol nascer, será dia; se Pedro se arrepender sinceramente será salvo), pois como são necessariamente enfeixadas com base na natureza da coisa ou na hipótese do decreto divino, estão sob o conhecimento natural de Deus (se a condição é apenas possível) ou sob o soberano (se é futura e decretada por ele). Antes, a inquirição se relaciona com as coisas contingentes condicionais futuras, as quais (sendo estabelecidas a condição) podem ocorrer e não ocorrer; por exemplo, se João fosse de Lutécia, ele falaria ou pecaria, etc. A pergunta é se podem ser certa e determinantemente conhecidas por antecipação em relação ao decreto de Deus; isso negamos.” “A questão não é se o conhecimento de coisas condicionais futuras está em Deus antecedendo o próprio decreto (pois nossos adversários não negam que determinado decreto geral preceda, pelo qual ele prescreveu produzir as causas secundárias e está pronto a propiciar à criatura pelo menos uma cooperação geral e indiferente, sempre que ele quis que aquela se determinasse a agir). Antes, a questão é se um decreto especial concernente a certa futurição desta ou daquela coisa precede de modo que Deus pode ver aquela coisa antecedendo esse decreto (nela própria ou em suas causas). Isso eles mantêm; nós negamos." – François Turretini (http://bereianos.blogspot.com.br/2013/05/o-conhecimento-medio-parte-23.html)
[10] GEISLER, N. Teologia Sistemática 1. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, pp. 728.
[12] Essa tese é defendida na seguinte monografia: SILVA, André de Aloísio de Oliveira da. A Trindade Imanente: Unidade de essência e diversidade de pessoas como igualmente fundamentais em Deus. Teresinha: Seminário Teológico do Nordeste Memorial Igreja Presbiteriana da Coreia – Monografia, 2014
[14] CALVINO, J. As Institutas I.XV.8, pp. 195-196. Disponível em: http://www.protestantismo.com.br/institutas/joao_calvino_institutas1.pdf
[15] Confissão de Fé de Westminster, III.I. Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/credos/cfw.htm
[16]  BERKHOF, L. (2012). Manual de doutrina cristã. São Paulo: Cultura Cristã, p. 68; Confissão de Fé de Westminster V.IV. Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/credos/cfw.htm


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