segunda-feira, 10 de julho de 2017

A DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ - GÁLATAS 2.15-21

Fiz uma exegese em Gálatas 1.6-10 e já foi observado que Paulo escrevia para pessoas que ele havia evangelizado em sua primeira viagem missionária. No entanto, falsos mestres judaizantes estavam perturbando os gálatas, negando o apostolado paulino e exigindo a submissão dos gentios às leis judaicas. Agora, será apresentada uma análise do texto de Gálatas 2.15-21, no qual o apóstolo Paulo trata do tema da justificação pela fé:
15 Nós, judeus por natureza e não pecadores dentre os gentios,
Ἡμεῖς  φύσει Ἰουδαῖοι καὶ οὐκ ἐξ ἐθνῶν ἁμαρτωλοί
A carta aos gálatas recorrentemente trata de dois temas: o evangelho de Cristo e o apostolado de Paulo. Por exemplo, Paulo saúda os gálatas defendendo seu apostolado (1.1-5), exorta os gálatas contra os judaizantes (1.6-9) e defende novamente seu apostolado e o evangelho de Cristo com sua própria biografia (1.10-17). O apóstolo defende que recebeu seu evangelho por revelação divina, e não de homens, nem mesmo de outros apóstolos e nesse sentido, o evangelho por ele pregado não dependia da aprovação humana. O evangelho pregado por Paulo se mantinha de pé mesmo contra um dos colunas da Igreja, Pedro (WH).
Em seguida, o texto narra uma divergência entre o apóstolo Paulo, pregador para os gentios e o apóstolo Pedro, pregador para os judeus (2.1-10). Paulo repreende Pedro por se deixar influenciar pelos judaizantes (2.11-14). A controvérsia entre os dois ocorreu provavelmente logo depois do Concílio de Jerusalém - Atos 15.1-21 (WH).
Pedro havia ido à Antioquia e ao chegar lá se alinhara ao comportamento dos membros (judeus e gentios) daquela igreja, que seguindo a decisão do Concílio de Jerusalém, comiam em unidade nas festas de amor - ágape (confira: 1 Coríntios 11.17-22). No entanto, ocorreu que alguns indivíduos judaizantes se introduziram na congregação insistindo que os gentios comessem com os gentios e os judeus comessem com os judeus por causa das proibições dietéticas. Então, Pedro começou a hesitar de sua posição e a se afastar dos gentios. Isso mostra que mesmo que o processo de santificação seja progressivo, cristãos podem cometer falhas durante sua caminhada. E aqui, como já havia ocorrido antes, Cefas novamente deixou ser levado pelo medo e pela inconstância como quando negou a Cristo (Mateus 26.69-75). Por causa disso, Paulo repreende a Pedro publicamente (WH).
As exortações dos versículos 15 ao 21 passam a se dirigidas não só a Pedro, mas também aos gálatas, aos judaizantes e até ao próprio Paulo (WH). O apóstolo observa que eles eram “judeus” por natureza em oposição aos pecadores gentios.
A aplicação do adjetivo “pecadores” aos gentios pode refletir o modo como os judeus costumavam encarar as pessoas de outros povos em oposição ao povo eleito. A TI traz: “não somos pecadores como os outros”. A NVI usa aspas, vertendo: “‘gentios pecadores’” e a NTLH faz o mesmo: “ ‘pecadores não-judeus’”, o que pode insinuar que Paulo faz uso de uma expressão que era usada pelos judeus. Essa ideia fica ainda mais insinuada na OL: “não fazemos parte daqueles a que chamam os pecadores gentios”. Desse modo, Paulo sabia que todos, judeus e gentios, eram pecadores, mas ao usar a expressão “gentios pecadores” ele está aduzindo à visão que os judeus em geral tinham sobre os gentios. William MacDonald entende que o apóstolo também poderia estar usando de uma ironia para denunciar que o comportamento de Pedro evidenciava a noção de uma superioridade dos judeus em relação aos gentios (WM).

16 sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado.
 εἰδότες δὲ ὅτι οὐ δικαιοῦται ἄνθρωπος ἐξ ἔργων νόμου ἐὰν μὴ διὰ πίστεως Χριστοῦ Ἰησοῦ καὶ ἡμεῖς εἰς Χριστὸν Ἰησοῦν ἐπιστεύσαμεν ἵνα δικαιωθῶμεν ἐκ πίστεως Χριστοῦ καὶ οὐκ ἐξ ἔργων νόμου ὅτι ἐξ ἔργων νόμου οὐ δικαιωθήσεται πᾶσα σάρξ
Paulo prossegue dizendo que apesar de (“δέ”) ser judeu por nascimento, e, portanto não estar entre os ditos “pagãos pecadores” (“ἐθνῶν ἁμαρτωλοί), ele não tinha as obras da lei como base de sua justificação. E, assim, embora fosse parte do “povo da lei”, ele sabia que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas sim mediante a fé. E essa não era uma questão particular, o apóstolo afirma categoricamente que ser justificado por obras da lei é impossível para qualquer um.
            Na medida em que o apóstolo fala de “justificação mediante a fé”, ele parece ter em mente a justificação subjetiva. Isto é, quando o pecador deposita por meio (“διὰ”) da fé sua confiança na obra justificadora de Cristo Jesus. A justificação objetiva ou ativa seria a declaração, no tribunal de Deus, da imputação da justiça de Cristo ao pecador, enquanto a justificação subjetiva seria quando o pecador aceita ou se apropria dessa declaração por meio da fé (LB).
Outras versões traduzem a ideia de justificação como: “declarar justo” (TNM); “ser aceito por Deus” (NTLH); “entrar em boas relações com Deus” (TI); “torna-se justa” (OL) e “se justificar” ou “tirar sua justificação de” (VC). Desse modo, algumas traduções dão a entender um ato de Deus de declarar justo o pecador e assim aceitá-lo para que o mesmo entre em boas relações com Ele (TNM, NTLH, TI), enquanto outras parecem entender por justificação um ato do pecador de se justificar ou tornar-se justo, insinuando uma mudança subjetiva no pecador (OL, VC). Esse último entendimento parece opor-se ao que o próprio texto está dizendo, isto é, que a justificação não é um ato ou obra do pecador.  
O verbo “δικαιόω” tem o sentido de julgar, declarar ou pronunciar algo como justo, e, por conseguinte, aceitável (TGL). J.I. Packer em God’s Words, pp.139-140 define justificar como: “declarar [...], acerca de um homem levado a julgamento, que ele não está sujeito a nenhuma penalidade, mas tem direito a todos os privilégios devidos a quem guarda a lei. Justificar é o ato do juiz que pronuncia sentença oposta à condenação – de indulto e imunidade legal” (apud TK, p.62).
Já o termo “πίστις” (fé) fala de alguém que foi persuadido a confiar em algo. Mas é distinto de uma mera confiança humana embora a inclua também, pois se refere a uma dádiva que só pode ser concedida por Deus e nesse sentido, é uma “persuasão divina” que traz consigo um elemento de garantia, certeza e confiança baseados na revelação divina (HWS). A fé pística é um poder que se apodera da alma, é a firme convicção de que Jesus é o Messias por meio de quem obtemos a salvação (TGL). Nesse sentido, a justificação seria a declaração de que somos aceitáveis a Deus mediante uma firme convicção e confiança operada pelo próprio Deus em nós.
            William Hendriksen define justificação como “aquele ato gracioso de Deus pelo qual, tão-somente com base na obra mediadora que Cristo consumou, ele declara justo o pecador, e este aceita tal benefício com um coração crente” (WH, p.120).  A fé é como a mão que se estende e aceita essa dádiva. Mas, como visto na análise do termo “πίστις”, esse próprio estender a mão é um dom de Deus (WH). Se o estender da mão fosse uma mera ação do homem, como parece sugerir algumas ilustrações arminianas, tal fé seria uma obra, e isso é exatamente o oposto do que o apóstolo está ensinando.
            John Stott, por sua vez, define justificação como o “ato imerecido do favor de Deus através do qual ele coloca diante de si o pecador, não apenas perdoando-o ou isentando-o de culpa, mas também aceitando-o e tratando-o como justo” (JS, p.58). No entanto, a crença comum do povo e de todas as religiões em todos os tempos, com exceção do Cristianismo, é a doutrina da justificação pelas obras (JS). Todos sabem, ainda que neguem em suas especulações teóricas, que transgrediram a Lei de Deus e que precisam prestar satisfação à justiça. Todos os homens entram neste mundo sob um pacto de obras que diz: “Obedeça integralmente à Lei e receberás a vida eterna.” e ao mesmo tempo, nenhum deles pode cumprir essa condição. Assim, nenhum sistema de justificação por obras pode resolver esse problema. Somente a doutrina da justificação pela fé provê um meio de atender a essa necessidade.
            É importante observar os tempos e modos verbais neste texto. O verbo “οἶδα” (“saber”) está no particípio perfeito na voz ativa, o que enfatiza uma primeira ação foi concluída antes de uma segunda ação ter começado (ET). E, assim, primeiro Paulo teve logicamente que conhecer a doutrina da justificação para que então pudesse crer nela. Desse modo, a fé pressupõe a comunicação do evangelho: “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10.14). Além disso, ao afirmar que além de saber da doutrina da justificação, ele também cria em Cristo, Paulo mostra que a certeza do seu ensino não era meramente intelectual, mas também provada por sua própria experiência pessoal (JS).
            Já o verbo “δικαιόω” (ser justificado) está no presente do indicativo, e não no pretérito, o que reforçaria a interpretação de que o texto se refere à justificação subjetiva que ocorre sempre que alguém exerce fé no Senhor e não à justificação objetiva realizada de uma vez por todas por Cristo no passado.
            O verbo “πιστεύω” (crer), por sua vez, está no aoristo o que pode sugerir uma ação que ocorre uma única vez ou uma vez por todas e corresponde mais ou menos a um gerúndio + particípio - "tendo crido" (W). Desse modo, a crença para justificação seria um ato ocorrido simples e isoladamente. Não se crê várias vezes ou se continua crendo continuamente para ser justificado. Tendo crido, a pessoa é justificada de uma vez por todas. E, assim, o verbo “δικαιόω” também é usado no aoristo. Em seguida “δικαιόω” aparece no futuro do indicativo a fim de afirmar que ninguém (grego: “nenhuma carne”: πᾶσα σάρξ), jamais, será justificado por obras da Lei.
           
17 Mas se, procurando ser justificados em Cristo, fomos nós mesmos também achados pecadores, dar-se-á o caso de ser Cristo ministro do pecado? Certo que não!
 εἰ δὲ ζητοῦντες δικαιωθῆναι ἐν Χριστῷ εὑρέθημεν καὶ αὐτοὶ ἁμαρτωλοί ἆρα Χριστὸς ἁμαρτίας διάκονος μὴ γένοιτο
Este versículo e o seguinte parecem um pouco confusos na ARA. Outras traduções podem clarear o significado do versículo 17. A TI traz: “Então se nós que procuramos estar em boas relações com Deus por nossa relação com Cristo ainda continuamos pecadores, quer isso dizer que é Cristo quem nos torna pecadores?”; a NVI diz: "Se, porém, procurando ser justificados em Cristo descobrimos que nós mesmos somos pecadores, será Cristo então ministro do pecado?”; a NTLH verte: “Ao procurarmos ser aceitos por Deus por estarmos unidos com Cristo, fica claro que somos ‘pecadores’ como os não-judeus. Mas será que isso quer dizer que Cristo trabalha em favor do pecado?”; já a OL traduz da seguinte forma: “Se viessem agora dizer-nos - a nós que confiamos em Cristo para nos perdoar e salvar - que errámos, e que não podemos tornarmo-nos justos diante de Deus se não for pela obediência à lei, teríamos que concluir daí que Cristo afinal nos levou ao erro!”
            Desse modo, o texto pode estar se opondo a espantalhos da doutrina da justificação que poderiam ser feitos pelos falsos mestres, por exemplo. O texto poderia estar dizendo que a doutrina da justificação realça o fato de que somos pecadores e que por isso tal doutrina tornava Cristo ministro (“διάκονος”) do pecado. Ou ainda poderia ser argumentado pelos opositores que apesar de se declarar justificado, o indivíduo continua pecador e que por isso tal doutrina colocava Cristo a serviço do pecado. E, assim, tais objeções seriam muito similares ou as mesmas que aquelas que geralmente se ouve contra a doutrina reformada da justificação pela fé. Isto é, que o ensino de que somos salvos sem obras da Lei promove a impiedade e o pecado. Também poderia ser o caso de o apóstolo estar conjecturando a acusação de pregar um sistema falso de justificação e que nesse sentido, o “Cristo” por ele pregado estava conduzindo-o ao erro.
            William MacDonald entende essa passagem como se o apóstolo estivesse dizendo que se ele buscasse a justificação pelas obras estaria colocando Cristo na posição de um ministro do pecado (WM). Timothy Keller parafraseia este versículo e o seguinte assim: “Se alguém que sabe ser justificado pela fé comete pecado, é porque a justificação pela fé em Cristo promove o pecado? Absolutamente, não! Mas, se alguém que professa fé em Cristo mantêm o mesmo estilo de vida pecaminoso, restaurando sua condição de pecador, cuja penalidade Cristo morreu para destruir, não se esforço nada para mudar, isso prova que essa pessoa nunca entendeu de fato o evangelho. Ele estava só procurando uma desculpa para viver em desobediência a Deus” (TK, p.63).
William Hendriksen defende a posição de que o texto deveria ser entendido assim: “ ‘Se os judaizantes estão no caminho certo, ao sustentar que nós, ao buscarmos a justificação unicamente em Cristo, assim negligenciamos a lei e acabamos nos tornando rudes pecadores tais como os gentios, diríamos então que Cristo, que nos ensinou essa doutrina, é promotor do pecado?” (WH, p.123).
John Stott, por sua vez, entende a passagem em questão da seguinte forma: “ ‘A sua doutrina da justificação através da fé em Cristo somente, à parte das obras da lei, é uma doutrina altamente perigosa. Fatalmente enfraquece o senso de responsabilidade moral do homem. Ao afirmar que ele pode ser aceito confiando em Cristo, sem qualquer necessidade de boas obras, você o está encorajando a transgredir a lei, que é a vil heresia do ‘antinomismo’’” (Js, p.62). Parece coerente, entender, assim como Stott, que Paulo está refutando os oponentes que acusavam a dourina da justificação pela fé de promover o pecado.

18 Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, a mim mesmo me constituo transgressor.
εἰ γὰρ ἃ κατέλυσα ταῦτα πάλιν οἰκοδομῶ παραβάτην ἐμαυτὸν συνιστάνω
A NTLH traz: “Se eu, depois de ter destruído a lei, começar a construí-la de novo como meio de ser aceito por Deus, aí, sim, fica claro que eu havia quebrado a lei.” Neste caso, não seria a doutrina da Justificação pela fé que tornaria Cristo ministro do pecado por evidenciar que somos pecadores, mas sim a doutrina da justificação pelas obras da Lei. O esforço inútil por tentar guardar a lei para ser aceito por Deus é o que deixaria claro o fato de sermos transgressores da Lei. Já na OL lemos: “Evidentemente que se me ponho a construir de novo um sistema de justificação, o qual antes tinha sido destruído, torno-me transgressor.” Neste caso, o sentido do verso seria que se Paulo abandonasse a doutrina da justificação pela fé por causa do argumento dos opositores de que ela promove o pecado, ele se tornaria culpado por isso. Esse último sentido me apetece mais. O termo παραβάτης descreve alguém que transgride deliberadamente a Lei de Deus (TGL). Essa atitude de reconstruir um sistema de justificação que havia sido demolido, teria sido a atitude de Pedro quando influenciou-se pelos judaizantes, deixando de confiar em Cristo ao voltar-se para a Lei (WM).

19 Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo;
ἐγὼ γὰρ διὰ νόμου νόμῳ ἀπέθανον ἵνα Θεῷ ζήσω  Χριστῷ συνεσταύρωμαι
Paulo afirma que através da própria lei morreu para a lei. Isso parece ter o sentido de que a Lei cumpriu o papel de servir de espelho para que o apóstolo se percebesse como pecador, descobrisse que é incapaz de obedecer a lei e buscasse a graça de Cristo a fim de viver para Deus. O termo “νόμος” é empregado em diversos sentidos pelo apóstolo em suas epístolas. Aqui provavelmente νόμος é usado em um sentindo mais amplo para se referir à Lei de Moisés e a todo o volume de mandamentos humanos que os judeus acrescentaram a ela (WH).
Algo importante de ser observado no versículo é a expressão “Estou crucificado com Cristo” que destaca a união mística do crente com o Senhor. O verbo “συσταυρόω” está no perfeito do indicativo denotando algo que aconteceu no passado, mas cujos efeitos continuam no presente. Paulo foi crucificado com Cristo, mas ainda experimenta os efeitos dessa crucificação. Estamos unidos com nosso Representante, Cristo Jesus, e por isso nos identificamos com ele em sua morte. Mas essa expressão não deve ser entendida, como fazem alguns místicos, como a fusão da personalidade do Cristão em Cristo. Paulo continua tendo uma existência individual e separada (“vida que tenho na carne” v.20), o que o apóstolo trata aqui é de uma união por meio da fé. Sendo assim, a justificação insere o crente numa relação pessoal com Cristo (WH). Morrer em Cristo significa morrer para um modo de vida no qual se busca ganhar a salvação por méritos próprios.

20 logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.
ζῶ δὲ οὐκέτι ἐγώ ζῇ δὲ ἐν ἐμοὶ Χριστός ὃ δὲ νῦν ζῶ ἐν σαρκί ἐν πίστει ζῶ τῇ τοῦ Υἱοῦ τοῦ Θεοῦ τοῦ ἀγαπήσαντός με καὶ παραδόντος ἑαυτὸν ὑπὲρ ἐμοῦ
Este verso explora mais a identificação do crente com Cristo. Paulo afirma que não é ele quem vive, mas é Cristo quem vive nele. Ele também destaca o fato de que Cristo o amou e morreu por ele. Assim, a justificação deve ser entendida à luz da obra sacrifical de Cristo e da união mística do crente com o Senhor.
            Essa união entre o crente e Cristo faz com que Paulo descreva a mudança que acontece com uma pessoa justificada em termos de morte e ressurreição. A justiça divina foi satisfeita na morte de Cristo, e nela nossa vida passada é crucificada e ressuscitamos para uma nova vida. Assim, é absurdo que alguém que tenha morrido para a vida antiga queira voltar a ela (JS).
O termo usado no grego para “carne” (σάρξ) parece denotar, aqui, a vida humana natural, destacando contra os místicos que a união com Cristo não anula nossa existência humana individual e real (v.16). O verbo ἀγαπάω empregado na passagem no aoristo traz a ideia de ser cheio de boa-vontade e exibi-la realmente. É a boa-vontade exibida na cruz, é o amor que levou Cristo a sofrer e morrer para nos salvar (TGL).

21 Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.
Οὐκ ἀθετῶ τὴν χάριν τοῦ Θεοῦ εἰ γὰρ διὰ νόμου δικαιοσύνη ἄρα Χριστὸς δωρεὰν ἀπέθανεν
Por fim, o apóstolo mostra que ao crer na justificação pela fé está pregando o evangelho da graça, ao contrário dos falsos mestres judaizantes que ao ensinar a justificação pelas obras da Lei tornavam a morte de Cristo em vão. Se o crente pode ser salvo pela obediência das ordenanças, logo não haveria necessidade de que Cristo tivesse se entregado para nos salvar.
O verbo “ἀθετέω” tem o sentido de rejeitar, recusar, diminuir, destruir (TGL), acabar com o que já está estabelecido, romper com a fé, invalidar, ignorar (SC) ou ainda desprezar como algo espúrio (HWS). Assim, negar a doutrina da justificação pela fé somente é rejeitar a graça. Pois, se a justificação pode ser por obras, Cristo morreu em vão (“δωρεὰν”), isto é, como uma oferta sem propósito (NAS).

Desse modo, o apóstolo deixa claro que a doutrina da justificação pela fé é uma doutrina fundamental e essencial do evangelho. É o próprio fundamento da religião cristã, pois se no final o destino de nossa salvação é decidido por nós, a graça de Deus é anulada e torna-se inútil o sacrifício de Cristo (JS). Todos os sistemas soteriológico antiagostinianos (anticalvinistas), ao fazerem o destino final ultimamente definido por uma decisão do homem, caem nesse erro. Mas não só isso, quando nós mesmos olhamos para os nossos pecados como se eles ainda precisassem ser punidos ou trouxessem condenação e quando buscamos justificar as nossas falhas, estamos agindo como Pedro, esquecendo-nos da graça de Cristo e reconstruindo um sistema de justificação com base em obras.
SIGLAS


ARA – Almeida Revista e Atualizada.
ARC – Almeida Revista e Corrigida.
HWS - HELPS Word-studies
JS – John Stott – A Mensagem de Gálatas.
LB – Louis Berkhof – Manual de Doutrina Cristã.
NAS - NAS Exhaustive Concordance.
NVI – Nova Versão Internacional.
NTLH – Nova Tradução na Linguagem de Hoje.
OL – O Livro.
TGL - Thayer's Greek Lexicon.
TK – Timothy Keller – Gálatas para você.
TI – Tradução Interconfessional.
TNM – Tradução do Novo Mundo.
VC – Versão Católica.
WH – William Hendriksen – Comentário do Novo Testamento – Gálatas.
WM – William MacDonald – Comentário Bíblico Popular – Novo Testamento.

domingo, 18 de junho de 2017

A DEFESA DO VERDADEIRO EVANGELHO CONTRA OS FALSOS MESTRES - GÁLATAS 1.6-10

       O que se segue é uma exegese feita no texto de Gálatas 1.6-10. Nessa seção o apóstolo defende o evangelho da graça do nosso Senhor contra o ensino dos judaizantes de que o cristão deveria se submeter à Lei para ser salvo. Será feita uma análise versículo por versículo e no fim serão extraídas algumas aplicações a partir do texto.

6:  “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho,”
Θαυμάζω ὅτι οὕτως ταχέως μετατίθεσθε ἀπὸ τοῦ καλέσαντος ὑμᾶς ἐν χάριτι Χριστοῦ εἰς ἕτερον εὐαγγέλιον
       Há uma discussão se os gálatas a quem a epístola se destina se refere ao povo ético chamado de gálatas ou à província política maior da Galácia. Se adotarmos a primeira posição, os gálatas podem ser uma referência às igrejas de Antioquia (Psídia), Icônico (Frígia), Listra e Derbe (cidades da Licônica). Se isso for assim, os gálatas se referem aos primeiros convertidos à fé cristã (WH). O apóstolo evangelizou os gálatas em sua primeira viagem missionária. A epístola talvez seja a primeira carta de Paulo e por isso foi escrita não muito depois da conversão dos destinatários (Atos 13 – 14). A igreja se alegrou com a conversão dos gentios que abraçaram a fé na primeira viagem missionária do apóstolo, no entanto, alguns cristãos judaizantes, em geral fariseus nominalmente conversos, entendiam que era necessário muito mais que fé para ser salvo. Era preciso se submeter às leis judaicas, particularmente à circuncisão, para se obter a salvação. Foi realizado, então, o Concílio de Jerusalém que decidiu contra os judaizantes com a divulgação de um decreto escrito que deveria ser recebido pela igreja toda. No entanto, os judaizantes não se renderam e continuaram a perturbar os gálatas, questionando o apostolado paulino e exigindo a circuncisão dos gentios. É a fim de defender o evangelho da graça contra esses perturbadores que essa seção se destina (WH).
        Dois temas que são recorrentemente tratados na epístola são o apostolado e o evangelho pregado por Paulo. Paulo se estende na introdução da carta na apresentação de suas credenciais apostólicas. Desde sua visita à Galácia, as igrejas da região eram perturbadas por falsos mestres judaizantes (JS). Os falsos mestres ensinavam que os gentios deveriam viver de acordo com as leis judaicas, adotando a circuncisão, as leis alimentares e a guarda dos dias cerimoniais. Eles tentavam persuadir os gentios a adotarem o modo judaico de vida (FT).
      Glauber observa que a epístola é direcionada a uma província (plural: igrejas da Galácia). Paulo saúda a igreja da Galácia relembrando que Cristo se entregou por nossos pecados para livrar-nos do mundo perverso (E). A partir daí, o apóstolo passa a exortar os gálatas contra o falso evangelho e em seguida afirma firmemente ele é um apóstolo aprovado por Cristo. Segundo Glauber, a autoridade apostólica estava sendo questionado pelos falsos mestres. A partir daí, a epístola tratará do problema dos judaizantes, o que dá a entender que o falso evangelho, contra o qual o apóstolo Paulo se coloca, é a heresia ensinada pelos judaizantes de que ainda estamos debaixo da lei. Glauber nota que na igreja havia judaizantes que ensinavam a lei como meio de salvação (E).
        Segundo Glauber, essa é uma carta mais pessoal do que Romanos, por exemplo. Em Gálatas, o apóstolo expressa com mais clareza suas emoções e por isso ela é também uma carta mais dura. Paulo não traz ações de graça iniciais como nas outras cartas, ele vai direto ao assunto. Isso demonstra a importância que ele dá a uma teologia sadia. Erros doutrinários não devem ser tratados com desdém. Paulo também se mostra infeliz com os gálatas, pois ele próprio havia fundado a igreja e ela já estava sendo influenciada pelos falsos mestres (E). O apóstolo manifesta certa dureza nessa seção, mas não é algo como uma explosão de ira, é mais um espanto do que um ressentimento.  Embora os repreenda, Paula não os rejeita (WH)
        Paulo inicia dizendo que está “admirado” com o fato dos gálatas estarem passando tão “depressa” para um falso evangelho. O verbo “admirar” aparece em outra versão como “maravilhar” (ARC). A ideia parece ser de que Paulo está espantado, não só com o fato de que os gálatas passarem para um falso evangelho abandonando o Deus gracioso, mas que isso aconteceu muito depressa. Ou seja, foi algo que era inesperado para o apóstolo. O verbo “Θαυμάζω” traz a ideia de “impressionado” ou “surpreendido” (HWS). Glauber nota a surpresa de Paulo e cita Gálatas 3.1, ali o apóstolo chama os gálatas de insensatos. Os falsos mestres fascinavam (enfeitiçavam) os gálatas (E). O “tão depressa” mostra que o espanto do apóstolo está no fato de que os gálatas estavam em processo de mudança de posição logo após a conversão, pouco depois de terem sido evangelizados pelo apóstolo (WH)
        No entanto, para Glauber, o tempo verbal no presente (“estejais passando”) indica que a condição da igreja era transitória, não permanente. Ainda havia esperança. Ele pontua que o verbo para “passar” em grego era usado para falar da deserção de um soldado ou de pessoas que abandonavam algum partido filosófico. Os gálatas estavam desertando, traindo a Cristo e seu exército. A falsa teologia é uma deserção. Paulo afirma que os gálatas estavam abandonando o próprio Deus. Abandonar o evangelho é igual a abandonar a Deus. É impossível abandonar o evangelho sem abandonar a Deus (E).
       Em seguida lê-se:  “Aquele que vos chamou na graça de Cristo” (ARA) ou “Aquele que os chamou por meio da graça de Cristo” (NTLH), “Aquele que vos chamou pela graça de Cristo” (SBB), “Aquele que vos chamou à graça de Cristo” (ARC, VC), “Aquele que os chamou com a bondade de Cristo” (TNM) ou ainda “Deus, que na sua misericórdia vos chamou a participar da vida eterna através de Cristo.” (OL). O agente do chamado certamente é Deus Pai (v.4). Aqui já há uma ênfase no fato de que Deus é o autor da salvação e de que é Ele quem vocaciona ou chama seus eleitos. As versões parecem divergir sobre se Deus chama seus eleitos através da graça ou para a graça. A preposição usada no grego é “ἐν” que significa “em” e “χάριτι” está no dativo podendo indicar lugar. Assim, parece mais apropriada a tradução da ARA. O chamado aqui, provavelmente, se refere à vocação eficaz, e por isso, o apóstolo pode ser otimista quanto ao fato de que os gálatas receberiam suas exortações e não rejeitariam definitivamente o verdadeiro evangelho. No entanto, mesmo assim ele faz duras advertências, pois elas são os meios que Deus usa para preservar seus santos até o final (WH).
       Não obstante, está claro o fato de que o chamado de Deus é gracioso, o que significa que o mérito não é nosso. Desse modo, fica evidente que quando o apóstolo contrasta isso com o “outro evangelho”, ele está insinuando que esse outro evangelho se opõe à noção de que Deus é quem chama seus eleitos pela graça.

7: “o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo.”
ὃ οὐκ ἔστιν ἄλλο εἰ μή τινές εἰσιν οἱ ταράσσοντες ὑμᾶς καὶ θέλοντες μεταστρέψαι τὸ εὐαγγέλιον τοῦ Χριστοῦ
       O pronome relativo “ὃ” (“o qual”) retoma “ἕτερον εὐαγγέλιον” (“outro evangelho”).  No verso anterior, o apóstolo havia chamado o falso evangelho de “outro evangelho”, mas aqui ele ressalta que esse evangelho não é “outro”. Ao que parece, o apóstolo quer realçar que o falso evangelho, apesar de ser chamado “outro evangelho”, não é algo como mais um evangelho alternativo ao lado do evangelho de Cristo, ao contrário, é um evangelho oposto ao evangelho de nosso Senhor. Outras versões vertem: “que, na realidade, não é o evangelho.” (NVI), “que aliás nem sequer é evangelho algum.” (OL) ou “não há dois {evangelhos}” (VC), “não existe outro evangelho” (NTLH), “não que haja outras boas novas” (TNM). A TI faz um contraste entre “uma ‘boa nova’ diferente” (v.6) com “Não é que exista outra boa nova”. No grego, a palavra usada para “outro” no verso anterior (“ἕτερον”) é diferente da usada para outro neste verso (“ἄλλο”). As duas estão em contraste, enquanto a primeira significa “outro de tipo diferente” a segunda significa “outro do mesmo tipo”. Assim o ensino dos falsos mestres é outro evangelho de natureza diferente do verdadeiro evangelho e não outro evangelho do mesmo tipo. Aliás, uma heresia que negue que Deus chama seus eleitos de maneira graciosa não é uma boa nova, ou seja, não é evangelho algum. Glauber afirma que Paulo não está afirmando que existe outro evangelho. O evangelho seguido pelos gálatas era um evangelho de outra espécie um evangelho falso. O falso evangelho não é nem digno de ser chamado de evangelho. Não há outro evangelho além do evangelho da graça (E). Anunciar a pecadores incapazes de guardar a Lei de que eles são salvos pela Lei, não é boa nova (evangelho), mas uma notícia desesperadora.
       Paulo diz que os falsos mestres estão perturbando os gálatas querendo perverter o evangelho de Cristo. Ou seja, o falso evangelho não é outro evangelho ao lado do verdadeiro, mas uma perversão do verdadeiro evangelho. A TI diz que os falsos mestres “querem levar-vos a modificar a Boa Nova”, a ARC usa a forte expressão “transtornar o evangelho de Cristo”. Outras traduções vertem: “distorcer as boas novas a respeito de Cristo.” (TNM), “perturbar o evangelho de Cristo” (VC), “torcendo o sentido do evangelho de Cristo.” (OL). Algumas traduções usam uma conjunção aditiva como se os falsos mestres perturbassem (lançassem a confusão entre – TI, semear a confusão –VC, inquietassem - ARC, andassem a enganar - OL) os gálatas e quisessem perverter o evangelho de Cristo (TI, ARA, ARC, TNM, SBB, VC), outras dão a entender que os falsos mestres perturbavam os gálatas pervertendo o evangelho de Cristo (NVI, OL). Como no grego aparece a conjunção aditiva “καὶ” as traduções que usam a conjunção aditiva “e” parecem estar corretas. Porém, ainda podemos ler que os falsos mestres perturbavam e confundiam os gálatas e faziam isso por pregarem um evangelho pervertido.
        O verbo “ταράσσοντες” (pertubam) traz a ideia de algo que gera “agitação emocional” (HWS), ou que torna alguém ansioso ou angustiado deixando a mente da pessoa confusa por sugerir dúvidas (TGL). Ou seja, os falsos mestres estavam deixando os gálatas mentalmente confusos com seus ensinos. Segundo Glauber, o verbo grego para “perturbar” traz a ideia de sacudir ou agitar. Os irmãos da Galácia estavam intelectualmente confusos e a igreja facciosa. O mesmo verbo foi usado para descrever os judaizantes no Concílio de Jerusalém (Atos15.24). Uma igreja sujeita ao falso evangelho é uma igreja perturbada. E eles faziam isso por “perverterem”, “corromperem” (μεταστρέψαι) o evangelho de Cristo.
       Segundo John Stott, o verbo perverter no grego é mais enfático e poderia ser traduzido por “inverter”. Nesse sentindo, a perversão não era uma mera corrupção do evangelho, mas uma falsificação tal que alterava radicalmente o caráter do evangelho (JS). Eles estavam pregando, não um erro doutrinário periférico ou secundário, mas uma heresia completamente oposta ao evangelho da graça.

8: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema.”
ἀλλὰ καὶ ἐὰν ἡμεῖς ἢ ἄγγελος ἐξ οὐρανοῦ εὐαγγελίζηται ὑμῖν παρ’ ὃ εὐηγγελισάμεθα ὑμῖν ἀνάθεμα ἔστω
       O versículo inicia-se com a conjunção adversativa “ἀλλὰ” (“mas”), como se Paulo quisesse dizer que apesar dos falsos mestres serem um problema, mesmo se o próprio apóstolo pregasse algo contrário às doutrinas evangélicas, isso deveria ser rejeitado. Não só não deveriam aceitar uma doutrina falsa ainda que pregada pelos apóstolos, mas também deveriam rejeitar o falso evangelho mesmo que viesse de um anjo celestial. O critério para rejeitar ou não essas novas doutrinas era se elas já estivessem além do que já havia sido estabelecido pelos apóstolos até ali. É dito em outros lugares das Escrituras que a igreja está firmada na doutrina dos apóstolos (Atos 2.42; Efésios 2.20) e que essa fé apostólica foi dada de uma vez por todas aos santos (Judas.3). Em outro lugar, ao defender seu apostolado e pregar contra os falsos apóstolos, Paulo mostra que o falso evangelho deve ser rejeitado mesmo se pregado por anjos: “E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz.” – 2 Coríntios 11.14.
      John Stott nota, aduzindo a Allan Colle, que não é o mensageiro quem dá valor à mensagem. Stott afirma que se um anjo pregar um falso evangelho, devemos preferir os apóstolos aos anjos. Não devemos ficar encantados com dons, posição ou personalidade de um pregador. No entanto, se um pregador for devidamente aprovado, devemos abraçar sua mensagem (JS). Segundo Glauber, o evangelho exposto na Escritura é suficiente para refutar os hereges. Não é necessário acréscimos. Os mesmos problemas que a igreja viveu no passado ela vive hoje (E). Por isso, os cristãos não precisam de novas revelações.
        Aqueles que fossem além do ensino apostólico já estabelecido seriam considerados anátemas (NTLH, TNM, NVI: “amaldiçoado”, OL: “maldito”). O anátema (ἀνάθεμα) poderia significar tanto algo devotado a Deus como coisa sagrada, quanto algo amaldiçoado (SC). Originalmente se referia a algo posto no templo, é usada frequentemente na Septuaginta para se referir a algo devotado ao interdito para ser completamente destruído (NDB). Podendo se referir a uma pessoa ou coisa votada ao interdito seja por ser religiosamente sagrada, seja por dever ser excluída ou excomungada (SEC). Neste último sentido, designava algo comprometido destinado à destruição, podendo significar um homem amaldiçoado dedicado aos sofrimentos mais terríveis (TGL).
       A ideia de algo ou alguém votada ao interdito, seja no sentido de dedicado ao serviço sagrado ou de destinado à destruição é comum no Antigo Testamento. Quando tudo em Jericó deveria ser destruído, diz-se que a cidade foi votada ao anátema e aquele que violasse ao interdito ou tentasse reconstruir a cidade deveria ser amaldiçoado (Josué 6.17,18,26). E quando Acã transgrediu o anátema, toda a congregação foi punida com a derrota e Acã foi apedrejado até a morte e só assim a ira de Jeová foi aplacada (Josué 1.1,5,26). Ao serem anatematizados, os falsos mestres estavam sendo amaldiçoados e relegados ao inferno eterno (AN).
       Glauber nota que Paulo ficou indignado com os falsos mestres, amaldiçoando-os. Como dito, a ideia do anátema é de banimento divino, algo destinado à destruição (conferir Josué 7). Acã foi destinado ao banimento e Paulo está, aqui, invocando o juízo de Deus sobre os falsos mestres. Essa maldição de Paulo é universal – é lançada sobre todo e qualquer falso mestre e sobre todos aqueles que propagam seus ensinos (“se alguém” – qualquer pessoa). O anátema é aplicável, aos homens, aos anjos e até sobre o próprio apóstolo (E).
           Não está tão claro nas versões em português se o sentido da expressão “além” é simplesmente de algo que anuncie mais do que é pregado pelos apóstolos ou se o sentido é de algo que contradiga o ensino apostólico. Algumas versões, como a NVI e a TI, usam, ao invés de “evangelho que vá além”, a expressão “evangelho diferente”. A preposição παρ’ pode trazer a ideia de algo “contrário a” ou “em desacordo a” (TGL).
       Este verso reforça a ideia de que os apóstolos tinham uma autoridade peculiar em relação ao anúncio do evangelho. O que os apóstolos diziam tinham um peso especial de autoridade e o que eles pregavam ex cathedra deveria ser aceito como a palavra autorizada por Deus. Mas o verso ainda mostra que o fato de algo ser ensinado por um apóstolo não era o único critério para se aceitar um ensino como verdadeiro, a doutrina pregada deveria estar em harmonia com o ensino apostólico já estabelecido até ali. Visto que o texto exorta a igreja a não receber qualquer doutrina que vá além daqueles que foram firmadas pelo ensino apostólico, hoje, não podemos aceitar qualquer revelação ou ensino, senão aquele que se encontra na Escritura. Os gálatas deveriam rejeitar qualquer coisa que contradisse o que o apóstolo pregou em sua primeira viagem missionária (WH)

9: “Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema.”
 ὡς προειρήκαμεν καὶ ἄρτι πάλιν λέγω εἴ τις ὑμᾶς εὐαγγελίζεται παρ’ ὃ παρελάβετε ἀνάθεμα ἔστω
       Este verso repete o que já foi anunciado no anterior. O apóstolo faz questão de repetir que os gálatas devem rejeitar qualquer ensino que vá além das doutrinas recebidas pela Igreja. Tal repetição destaca a importância que o apóstolo dava à questão e o quanto era importante que os gálatas considerassem isso para não serem inconstantes. Segundo John Stott, Paulo sabia que era o bem estar da alma dos gálatas que estava em jogo. Não era uma questão de doutrina secundária, os falsos mestres estavam pervertendo o evangelho: “Corromper o evangelho portanto, era destruir o caminho da salvação, condenando a ruína almas que poderiam ser salvas através dele.” (JS, p. 27).
       Os gálatas deveriam ser fiéis ao ensino apostólico recebido pela igreja como palavra inspirada: “Por isso também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes” (1Tessalonissenses 2.13);  “Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu.” (2 Tessalonissenses 3.6). Assim, o evangelho deveria ser guardado, não só porque lhes foi pregado, mas porque os gálatas o haviam aceitado (WH).
       O apóstolo repete novamente a maldição. Stott observa, referenciando John Brown, que essa repetição evidencia o fato de que o anátema lançado pelo apóstolo não era uma declaração exagerada fruto de um sentimento explosivo, mas uma declaração deliberada advinda de uma opinião firme e inalterada (JS).   O anátema lançado pelo apóstolo não é um mero desejo, é uma invocação efetiva. Ele faz isso na condição de representante autorizado por Deus (WH).

10: “Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo.”
Ἄρτι γὰρ ἀνθρώπους πείθω ἢ τὸν Θεόν ἢ ζητῶ ἀνθρώποις ἀρέσκειν εἰ ἔτι ἀνθρώποις ἤρεσκον Χριστοῦ δοῦλος ἂν ἤμην
         A ARA começa esse verso com o advérbio “porventura” (grego: “Ἄρτι” : “Agora”) indicando que Paulo fará uma série de perguntas retóricas. Essas perguntas podem insinuar que os gálatas começaram a questionar a fidedignidade dos ensinos paulinos, de modo que o apóstolo precisa fazer uma defesa de seu apostolado. Ao mesmo tempo, essas perguntas podem ser acusações indiretas contra os falsos mestres. Se esse é o caso, Paulo está dizendo que os falsos mestres buscavam o favor dos homens, não de Deus, e por isso não eram servos de Cristo. Aliás, tornar o cristianismo uma seita judaica poderia fazer cessar a perseguição romana contra os cristãos. O apóstolo Paulo, em contraste com os falsos mestres, buscava agradar a Deus, não os homens.
      Pode ser que os falsos mestres acusassem Paulo de estar querendo agradar os gentios em não exigir a circuncisão deles. Mas o apóstolo deixa claro que seu objetivo não é agradar homens e isso ficou claro pelo seu anátema. O “ainda” é usado no verso no sentido de “apesar de”, isto é, se apesar dele se declarar servo de Cristo ele continuasse tentando agradar homens, sua pretensão seria falsa (WH).
      Aprendemos com essa passagem: (i) Que as Escrituras são suficientes: Rejeitamos novas revelações e aceitamos somente aquilo que se encontra nos profetas (Antigo Testamento) e nos apóstolos (Novo Testamento). A Escritura é suficiente para refutar as heresias contemporâneas, que na realidade são velhos erros com novas roupagens; (ii) Que devemos rejeitar qualquer ensino falso independente de quem seja o mensageiro: Não importa se é um teólogo conceituado, um pregador famoso ou uma grande autoridade – o anátema lançado pelo apóstolo recai sobre todo aquele que ousar pregar outro evangelho diferente daquele que a Igreja recebeu e; (iii) Que a salvação é pela graça somente: Traz alívio ao coração de nós, pecadores incapazes de obedecer a Lei, a notícia de que somos salvos sem obras da Lei. Não nos deixemos enganar por qualquer que queira impor sobre nós novamente um fardo que nem nossos pais foram capazes de suportar.

SIGLAS

AN – Augustus Nicodemus – Livres em Cristo.
ARA – Almeida Revista e Atualizada.
ARC – Almeida Revista e Corrigida.
E – Eltecom – Gálatas 1.6-10 – Os falsos mestres e a inconstância dos Gálatas. Na realidade o vídeo segue em linhas gerais o que é apresentado por John Stott (JS). 
FT – Frank Thielman – Teologia do Novo Testamento.
HWS - HELPS Word-studies
JS – John Stott – A Mensagem de Gálatas.
NDB – Novo Dicionário da Bíblia – J.D. Douglas (?).
NVI – Nova Versão Internacional.
NTLH – Nova Tradução na Linguagem de Hoje.
OL – O Livro.
SBB – Sociedade Bíblica Britânica.
SC – Strong´s Concordance.
SEC - Strong's Exhaustive Concordance.
TGL - Thayer's Greek Lexicon.
TI – Tradução Interconfessional.
TNM – Tradução do Novo Mundo.
VC – Versão Católica.
WH – William Hendriksen – Comentário do Novo Testamento – Gálatas.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

A METAPSICOLOGIA ATEÍSTA DE FREUD

       Existem, pelo menos, três grandes teorias ateístas que têm moldado fortemente a cultura contemporânea em oposição à cosmovisão cristã: o marxismo, o darwinismo e o freudianismo. Já tratei da sangrenta e herética ideologia marxista (aqui) e também fiz pontuações sobre o cientificismo do evolucionismo (neo)darwinista (aqui), cabe agora fazer algumas considerações sobre a psicanálise freudiana.

PRESSUPOSTOS DA PSICANÁLISE FREUDIANA

        O freudianismo se sustenta sobre três pressupostos básicos[1]:


1. Ontologia materialista: Segundo a metapsicologia freudiana, a natureza do mental é material. Os estados mentais inconscientes são, em última instância, estados cerebrais.
2. Epistemologia naturalista: A psicanálise freudiana está alinhada com o naturalismo científico. O homem é concebido a partir de um ponto de vista antropológico naturalista como uma espécie biológica e a psicanálise é entendida como uma ciência natural.
3. Metodologia pessimista: A técnica utilizada pela psicanálise é a associação livre, na qual o sujeito articula livremente a fala e o analista fica em atenção flutuante atento, não à fala em si, mas as manifestações do inconsciente. O pessimismo terapêutico do freudianismo questiona a possibilidade da felicidade, pois há uma tendência natural no psiquismo (a pulsão de morte) para a autodestruição.

        Ao assumir uma ontologia materialista e uma epistemologia naturalista, a psicanálise freudiana se coloca em contradição com a antropologia cristã, que concebe o homem como dotado de uma alma racional e imortal. O materialismo freudiano destrói o fundamento da dignidade humana ao conceber o homem como um mero amontoado de células.
        Era de se esperar que dessa antropologia naturalista viesse um pessimismo terapêutico. A morte é o único destino que resta ao homem. Não há esperança de cura para as patologias psíquicas e os desejos do homem são insaciáveis. Com base na insaciabilidade desses desejos, Freud argumentava contra a existência de Deus dizendo que Ele era apenas uma projeção dos fortes desejos internos do coração humano. O indivíduo se sentiria impotente na idade adula criando uma figura paterna semelhante aquela que lhe protegeu na infância:

“A psicanálise dos seres humanos de per si, contudo, ensina-nos com insistência muito especial que o deus de cada um deles é formado à semelhança do pai, que a relação pessoal com Deus depende da relação com o pai em carne e osso e oscila e se modifica de acordo com essa relação e que, no fundo, Deus nada mais é que um pai glorificado.”[2]

           O argumento de Freud poderia ser colocado assim: (1) Uma ilusão é uma projeção dos nossos desejos sem bases no real; (2) Deus é uma projeção dos nossos desejos sem bases no real; (3) Logo, Deus é uma ilusão. A verdade, por outro lado, é que a paternidade de Deus na Trindade é o arquétipo das paternidades humanas, não o contrário. [3] Freud comete uma falácia genética por querer invalidar a verdade de uma crença com base em sua possível origem.
       Além disso, como o próprio Freud reconhece, a relação com o pai reserva uma ambivalência de amor/ódio em que a criança deseja a proteção do pai e ao mesmo tempo deseja a morte do pai. Neste caso, mesmo o ateísmo poderia ter alguma base no desejo. A rejeição de uma Autoridade Última poderia ter bases no desejo de que ninguém interferisse nas nossas vidas. Podemos observar também, como disse C.S. Lewis, que a existência em nós de um desejo que não pode ser saciado neste mundo indica a existência de uma Satisfação além mundo para esse desejo [4].      

COMPLEXO DE ÉDIPO E MORALIDADE

       O freudianismo busca fornecer uma solução para o problema da moralidade no ateísmo. Se não existe Deus, como explicar a culpa que o homem sente por suas transgressões da lei? Nesse sentido, a psicanálise desenvolveu a ideia de um conflito universal chamado “Complexo de Édipo”.
     Freud acreditava que existiram hordas primitivas nas quais o patriarca detinha sob o seu poder todas as mulheres da horda. Isso levou a uma revolta por parte dos filhos que mataram o pai. A morte do pai deu origem ao sentimento de culpa, pois os filhos alimentavam um sentimento ambivalente de ódio/amor pelo pai, visto que o patriarca também era fonte de proteção.
       Ninguém teve coragem de substituir o lugar do Pai. O Pai foi substituído, então, por um símbolo religioso (totem) e foram instauradas duas leis: “Não matar o pai” (proibição do parricídio) e “Não tomar as mulheres da horda” (tabu do incesto). Essas duas proibições fundaram a civilização humana, de modo que essas leis estão presentes em todas as culturas: “A cultura totêmica baseia-se nas restrições que os filhos tiveram de impor-se mutuamente, a fim de conservar esse novo estado de coisas. Os preceitos do tabu constituíram o primeiro ‘direito’ ou ‘lei’.” [5]
        Essa ocorrência fundante da cultura ocorre também em cada homem individualmente. Para Freud, a criança, desde o nascimento, experimenta vários prazeres sexuais. Primeiro ela se excita oralmente com o seio materno, depois com o prazer anal da defecação, até chegar a uma fase em que começa a teorizar sobre o pênis.
       Toda criança acreditaria, a princípio, que o pênis é universal. Para o menino, tudo e todos possuem pênis, até que ele descobre que meninas não o possuem. Essa descoberta geraria uma angústia na criança que, imaginando que as meninas perderam seu pênis, teme perder o seu também. O menino teme ser castrado pelo pai e por isso passa a desejar que o pai morra para que ele possa ficar com a mãe.
       A percepção e aceitação das diferenças sexuais anatômicas pela criança seria o que proporcionaria a formação de uma agência psíquica moral reguladora (superego) possibilitando que a criança se converta de um pequeno selvagem para um adulto civilizado. Civilizar-se, no entanto, exige o recalcamento dos desejos incestuosos pela mãe e do desejo da morte do pai, o que torna o homem civilizado um neurótico angustiado.
       A consciência moral (superego), portanto, seria formada com a dissolução do complexo edípico. A agência de censura psíquica se construiria na infância a partir da relação com os pais:

“O longo período da infância, durante o qual o ser humano em crescimento vive na dependência dos pais, deixa atrás de si, como um precipitado, a formação, no ego, de um agente especial no qual se prolonga a influência parental. Ele recebeu o nome de superego. Na medida em que este superego se diferencia do ego ou se lhe opõe, constitui uma terceira força que o ego tem de levar em conta.” [6]

        O Cristianismo, por outro lado, defende que todos já nascem com a lei gravada em seus corações. E, novamente aqui, a psicanálise freudiana está em oposição à antropologia cristã: “Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Romanos 2.15).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

       A psicanálise freudiana é uma teoria materialista, naturalista, determinista e reducionista, cujos pressupostos estão em evidente oposição à Cosmovisão cristã. A concepção de moral da Psicanálise, como baseada numa instância psíquica formada com a dissolução do complexo edípico, é oposta ao ensino bíblico de que Deus imprimiu a lei na natureza do homem. Sendo assim, a metapsicologia freudiana, assim como a ideologia marxista e o darwinismo cientificista, é uma teoria ateísta.

Fontes:

 [1] Pressupostos de algumas abordagens da Psicologia. Compactação que eu fiz do capítulo “Freud e a Psicanálise: Uma visão de Conjunto –Richard Theisen Simanke & Fátima Caropreso” do livro   “História e filosofia da psicologia: perspectivas contemporâneas. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2012” organizado por Saulo de Freitas Araújo.
[2] Totem e Tabu e outros trabalhos– Sigmund Freud.
[3]Teologia Sistemática I – Norman Geisler, CPAD, 2015, página 533.
[4] Deus em Questão: C.S.Lewis e Sigmund Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida – Armand M. Nicholi Jr, páginas  55 e 56..
[5]  O mal estar na civilização – Sigmund Freud.
[6] Esboço de Psicanálise – Sigmund Freud.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

COMO LER LIVROS (ADLER)

       Como Ler Livros é um guia indispensável para uma leitura inteligente de livros que valem a pena ler. Em um tempo em que a maior parte dos brasileiros, mesmo dos acadêmicos, é analfabeta funcional (confira), conhecer a arte da leitura inteligente se faz urgente. Este post esboça as regras que Adler e Van Dorien apresentam no guia prático “Como ler livros”. Espero que este esboço estimule os leitores a adquirirem o livro (aqui) a fim de aprimorarem-se na arte da leitura.



DIMENSÕES DA LEITURA


*Objetivos da Leitura: (i) Informar= leitura de algo imediatamente inteligível; (ii) Entender= tentativa de ler algo que a princípio não se entende completamente e, (iii) Divertir= leitura para entretenimento.

NÍVEIS DE LEITURA

* Elementar= Leitura feita por qualquer pessoa alfabetizada.
*Inspecional= Extrair o máximo possível de um livro num período limitado de tempo.
*Analítica= A mais completa leitura possível.
*Sintópica= Leitura de muitos livros, ordenando-os mutuamente sobre o assunto comum.


PERGUNTAS BÁSICAS

Leitura Inspecional= O livro é sobre o que? O que exatamente está sendo dito e como?
Leitura Analítica = O livro é verdadeiro em todo ou em parte? E daí?
Leitura Sintópica = E daí?


ANOTAÇÕES

*Tipos de anotações= (i) Estruturais= Voltadas à estrutura do livro (leitura inspecional); (ii) Conceituais= Ocupam-se dos conceitos do autor e do leitor (leitura analítica); (iv) Dialéticas= notas sobre o perfil do debate (leitura sintópica).

*Técnicas de Anotações
1. Sublinhar os trechos principais;
2. Traçar limites verticais na margem;
3. Fazer asteriscos em partes importantes;
4. Inserir números nas páginas referenciando outras páginas;
5. Inserir números nas margens para indicar os passos do raciocínio;
6. Circular palavras-chaves;
7. Escrever nas margens.


LEITURA ELEMENTAR

Estágios de Alfabetização

1. Prontidão para a leitura= desenvolvimento de habilidades que possibilitem o aprendizado da leitura.
2. Domínio vocabular= aprendizagem de leitura de materiais simples.
3. Desenvolvimento vocabular e utilização de contextos= progresso rápido na construção vocabular e na identificação de significados com base no contexto.
4. Leitura Fundamental = Capacidade de comparar visões de diferentes autores sobre o mesmo assunto.


LEITURA INSPECIONAL

* Sondagem Sistemática: (i) Exame da folha de rosto e do prefácio; (ii) Exame do Sumário; (iii) Consulta do índice remissivo; (iv) Leitura da capa e contracapa; (v) Exame dos capítulos centrais e, (vi) folheio do livro.
*Leitura Superficial= Ler o livro continuamente e rápido.


LEITURA ANALÍTICA

ESTÁGIO I – REGRAS PARA DESCOBERTA DO CONTEÚDO

Regra 1 – Classifique o livro de acordo com o título e assunto.

*Obras de Ficção= Romances, épico, poema, peça.
*Obras Expositivas= (i) Práticas= economia (algumas), oratória, ética, política, engenharia, negócio, direito (alguns), medicina (alguns), guia; (ii) Teóricas= ciência, filosofia, história-narração.


Regra 2 – Expresse a unidade do livro da maneira mais breve possível (O livro como um todo é sobre o que?)

Regra 3 – Enumere suas partes principais em ordem e relação e as esboce (partes>seções>pontos).

Regra 4 – Defina o(s) problema(s) que o autor busca resolver (Qual a principal pergunta do livro? Quais as perguntas secundárias?)

ESTÁGIO II – REGRAS PARA INTERPRETAR O CONTEÚDO

Regra 5 – Encontrar as palavras-chaves e entrar em acordo com o autor.
*As palavras-chaves são as que (i) incomodam; (ii) são destacadas pelo autor; (iii) são importantes dentro do vocabulário técnico de uma área do conhecimento; (iv) o autor se esforça para mostrar que a usou em sentido diferente do usado por outros autores.

Regra 6 – Capte as proposições (unidades de pensamento e conhecimento ou unidades lógicas) principais, encontrado as frases (unidades de linguagem ou unidades gramaticais) mais importantes.
* As frases-chaves sãos as que exigem esforço interpretativo do leitor e expressam julgamentos básicos do autor.

Regra 7 – Identifique os argumentos, encontrado-os ou construindo-os com base em sequências de frases.

Regra 8 – Determine quais problemas o autor conseguiu e quais ele não conseguiu resolver; neste caso decida-se se o autor sabe que fracassou ao resolvê-los.

ESTÁGIO III – REGRAS PARA CRITICAR O CONTEÚDO

A. Preceitos de Etiqueta Intelectual

Regra 9 – Você precisa entender antes de emitir um julgamento.
*Retórica = Saber convencer ou persuadir (para o autor) e saber como reagir quando alguém tenta nos convencer ou persuadir de algo (para o leitor.

Regra 10 – Quando discordar, faça-o de maneira sensata, sem gerar disputas ou discussões (não faz sentido vencer um debate se souber ou suspeitar que esteja errado).

*Tipos de Discórdia: (i) Aparente= resulta de simples desentendimento; (ii) Por desigualdade de conhecimento= O ignorante discorda do culto por questões que ultrapassam seu conhecimento; (iii) Sob o domínio da razão = Suscita a aprendizagem.
*ATITUDES CRITICAS POSSÍVEIS= Concordar, discordar ou suspender o juízo.

Regra 11 – Respeite a diferença entre conhecimento (é baseado em evidências) e opinião (julgamento não justificado) fornecendo razões para o seu juízo.

B. Critérios Especiais para o Exercício da Crítica

Regra 12 – Mostre onde o autor está desinformado.
Regra 13 – Mostre onde o autor está mal informado.
Regra 14 – Mostre onde o autor foi ilógico.
Regra 15 – Mostre onde a análise ou a explicação do autor está incompleta.

*Condições para uma boa controvérsia= (i) Identificar suas emoções; (ii) Reconhecer seus preconceitos; (iii) ser imparcial.

MATERIAIS DE APOIO PARA A LEITURA

*Comentários e Resumos= Devem ser usados raramente. Um comentário só pode ser lido depois que o livro foi lido. Resumos podem ser lidos antes (para auxiliar na decisão de se vale a pena ler o livro) ou depois (para ajudar a lembrar o que foi lido).
*Obras de Referência= Você tem de saber o que quer saber, em qual obra buscar, como encontrar essa informação e entender que os autores da obra consideram que tal informação pode ser conhecida.
*Dicionários = Não se deve ler um livro com um dicionário ao lado o tempo todo e não tente adquirir vocabulário rico memorizando o dicionário. Deve-se ter em mente que dicionários não são autoridades de sabedoria.


LEITURA SINTÓPICA

ETAPA I – INSPEÇÃO DO CAMPO PREPARATÓRIA PARA A LEITURA SINTÓPICA

1. Prepare uma bibliografia provisória de seu assunto lançando mão de catálogos de bibliotecas, orientadores e bibliografias de livros.
2. Inspecione todos os livros da bibliografia provisória a fim de averiguar quais têm a ver com o assunto que lhe interessa e para formar uma ideia mais clara do assunto.,

ETAPA II – LEITURA SINTÓPICA DA BIBLIOGRAFIA REUNIDA NA FASE I

1. Inspecione os livros que já foram identificados como relevantes para o assunto da fase I a fim de encontrar passagens mais relevantes.
2. Forje um consenso entre os autores por meio da construção de uma terminologia neutra do assunto que, segundo a sua interpretação, todos, ou grande maioria, pudesse empregar, quer eles efetivamente empreguem tais palavras, quer não.
3. Estabeleça uma série de proposições neutras para todos os autores por meio de uma série de perguntas que, segundo sua interpretação, os autores respondem, quer eles tratem explicitamente dessas questões, quer não.
4. Delimite as divergências, grandes e pequenas, demarcando as respostas contrárias dos autores ás diversas perguntas, estando eles de um lado ou de outro na divergência. Deve-se lembrar que nem sempre há uma divergência explícita entre dois ou mais autores e que ás vezes é preciso construí-la por meio da interpretação das opiniões dos autores sobre assuntos que podem ter figurado entre seus interesses básicos ou não.
5. Analise a discussão ordenando as perguntas e divergências de modo a esclarecer o máximo do assunto. As divergências mais gerais devem vir antes das menos gerais, e as relações entre as divergências têm de ser indicadas com clareza.



FONTE: Adler, Mortimer J. & Van Doren. Como Ler Livros – O Guia Clássico da Leitura Inteligente. É Realizações.