segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

ESCATALOGIA DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ

        O objetivo deste artigo é apresentar a escatologia das Testemunhas de Jeová a fim de ilustrar o papel central que a doutrina dos últimos dias tem para as seitas. As seitas costumam ter uma escatologia própria a fim de justificar a descontinuidade histórica que há entre elas e o Cristianismo primitivo. Para isso, as igrejas pseudocristãs colocam a si mesmas como um grupo religioso, cujo surgimento e história foram profetizados nas Escrituras.
       Os adventistas, por exemplo, afirmam que a Bíblia profetizou o surgimento de um movimento que anunciaria uma data errada para a Volta de Jesus gerando um grande desapontamento, pregaria a guarda do sábado, anunciaria o Juízo investigativo, teria uma profetisa e que surgiria no final do século XIX e assim identificam a si mesmos como a única igreja verdadeira, a “igreja da profecia”. Veremos que o mesmo se dá em relação aos russelitas, além de evidenciar outras funções que a escatologia cumpre dentro das seitas.

1914 – O INÍCIO DOS ÚLTIMOS DIAS

       Para as Testemunhas de Jeová os últimos dias começaram em outubro de 1914. Nesse ano, algumas coisas aconteceram [1]:

1.      Jesus foi empossado Rei no Céu: Jesus começou a reinar no céu como Rei do Reino de Jeová.
2.      Satanás foi expulso do Céu: Quando começou a reinar, Jesus expulsou Satanás do céu para a terra.
3.      Os sinais da vinda de Cristo começam a se manifestar na Terra: A vinda de Jesus é sua presença invisível como rei celestial, como Satanás e os demônios foram lançados a Terra, as coisas no mundo começaram a ficar ruins, fazendo surgir guerras, fomes, terremotos e doenças.
4.      Iniciou-se a ressurreição espiritual dos ungidos: Jesus passou a ressuscitar (na verdade “recriar em espírito”), os salvos que vão morar no céu (cujo número exato é de 144.000 pessoas). Assim, os fiéis apóstolos foram recriados invisivelmente em espírito e levados para o céu, e a partir de então, todo cristão ungido, ao morrer, é recriado em espírito e levado para o Céu, passando a governar com Jesus, como poderosa criatura espiritual.

A PURIFICAÇÃO DOS CRISTÃOS UNGIDOS

       De acordo com a organização, a partir do ano 100 d.C., começou o cativeiro babilônico, um longo período em que o povo de Deus estaria em inatividade espiritual [2]. Depois que se tornou Rei em 1914, Jesus veio a Terra para fazer uma inspeção, a fim de começar a separar o trigo do joio, visto que os poucos cristãos verdadeiros estavam ocultos desde 100 d.C., quando Satanás teria começado a semear os “cristãos nominais”. [3]  
       Mas antes que Jesus viesse para fazer a inspeção, Jeová levantou o mensageiro que prepararia o caminho do Senhor: Charles Taze Russel e seus associados, estudantes da Bíblia que começaram a obra de restauração da verdade na Terra, os fundadores da religião das Testemunhas de Jeová. Assim, quando Jesus veio invisivelmente fazer sua inspeção, ele encontrou um grupo de estudantes da Bíblia que já pregavam a verdade há 30 anos. [4]
       No entanto, esse grupo ainda era cheio de imperfeições e precisava ser purificado, assim de Dezembro de 1914 a Junho de 1918, cumpriram-se os três tempos e meios ou 1260 dias, durante os quais os cristãos passariam por um processo de purificação por meio de perseguições sofridas pelos salvos que vão morar no céu. [5] Terminada a purificação, em 1919, Jesus designou esses salvos para serem “o escravo fiel e discreto”, o qual deveria ser “o canal de comunicação” entre Jesus e os cristãos. Este grupo é formado pelos cristãos ungidos que fazem parte dos 144.000, seu dever é fornecer “alimento espiritual”, por meio das revistas a Sentinela e Despertai. Hoje, o “escravo fiel” é a liderança da religião – O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová com sede em Brooklin, NY. [6]
        Além dos salvos que vão morar no céu, existem os Testemunhas de Jeová comuns. Eles não têm um número definido, além disso, não têm os mesmos privilégios dos 144000. Diferente dos que compõem o Corpo Governante, os Testemunhas de Jeová comuns, não são regenerados, nem adotados como filhos de Deus, não reinarão com Cristo e não podem participar da Santa Ceia. Jesus fez uma Nova Aliança apenas com os cristãos ungidos e por isso, Cristo é mediador somente entre Jeová e os 144.000. No entanto, os Testemunhas de Jeová comuns, por ajudarem os cristãos ungidos na obra da pregação, vão viver para sempre na Terra sob o governo dos 144.000.
       O grupo dos “comuns” emergiu e se multiplicou ao sair vitorioso ao fim da Segunda Guerra Mundial, ocorrida no período profético das 2300 tardes e manhãs, que vai de 1 ou 15 de junho de 1938 a 8 ou 22 de outubro de 1944.[7] Enquanto os salvos que vão morar no céu são chamados “o escravo fiel e discreto”, os Testemunhas de Jeová comuns formam o grupo dos “domésticos”. Hoje existem cerca de 8 milhões de domésticos no mundo. [8] Um doméstico deve ser fiel aos ensinos do escravo fiel, mesmo quando eles são contrários à Bíblia [9]. Eles poderão viver para sempre no paraíso na Terra por terem auxiliado os 144.000 e por isso, são representados, por Jesus, como ovelhas à direita que deram de comer, beber e vestir aos “pequeninos de Jesus” (os cristãos ungidos). [10]

O ARMAGEDOM

      De acordo com a seita, a última geração que não passará sem que aconteça o Armagedom, é formada por dois grupos: (i) os cristãos que foram ungidos em 1914, ou antes disso e (ii) os cristãos ungidos que foram contemporâneos aos do primeiro grupo. Alguns desse segundo grupo estarão vivos na Grande Tribulação. Esses cristãos já estão envelhecendo [11]  assim, o Armagedom deve acontecer por volta de 2034 [12].
       Antes que comece a Grande Tribulação, haverá um tempo de “paz e segurança” pronunciado pelas nações e pelas religiões falsas. Em seguida, a Organização das Nações Unidas atacará as organizações religiosas do mundo, destruindo a cristandade e demais religiões falsas. A única religião que sobreviverá aos ataques da ONU será as Testemunhas de Jeová.  Em seguida, provavelmente ocorrerão manifestações sobrenaturais no céu, então quando os perversos estiverem a ponto de iniciar um ataque contra as Testemunhas de Jeová, os cristãos ungidos que ainda estiverem na Terra serão arrebatados para o Céu. Em seguida, Jesus virá junto com os 144.000 e com seus anjos e aniquilará os maus da existência. Os que rejeitaram a Jeová no passado foram aniquilados assim que morreram (a morte natural é aniquilação da existência, segundo a escatologia das Testemunhas de Jeová), já os ímpios vivos no Armagedom serão eliminados da existência por Jesus. Ninguém sofrerá num inferno, mas somente as Testemunhas de Jeová sobreviverão ao extermínio. A sobrevivência ao extermínio que ocorrerá no Armagedom dependerá da obediência à Organização Torre de Vigia. [13]

O PARAÍSO RESTAURADO
    
       As Testemunhas de Jeová sobreviventes ao Armagedom darão início à restauração da Terra. Elas terão a tarefa de transformar gradualmente toda a Terra em um paraíso. [14] Jesus e os 144.000 governarão, a partir do Céu, os súditos domésticos na Terra. O governo de Jeová promoverá diversos programas sociais para os habitantes da Terra, incluindo programas de saúde, moradia, alimento, educação e emprego. [15]
       Ainda será possível perder a salvação durante os primeiros mil anos no paraíso. Quem for infiel a Jeová no paraíso será eliminado da existência. Jeová ressuscitará pessoas que nunca tiveram a oportunidade de ouvir o evangelho e elas terão de cumprir as exigências que Jeová der a elas. Os que não estiverem dispostos a se ajustar às exigências de Jeová serão exterminados. Depois de 1.000 anos de paraíso, as pessoas ainda terão que passar por um teste final – uma tentação do Diabo. Somente aqueles que resistirem aos enganos de Satanás poderão continuar vivendo para sempre no paraíso na Terra, os demais serão eliminados da existência para sempre. [15]

CONSIDERAÇÕES FINAIS

       A escatologia das Testemunhas de Jeová ilustra bem as características de uma seita. Entre elas podemos citar:

1.Autoritarismo: As Testemunhas de Jeová comuns estão debaixo da autoridade de um Corpo Governante privilegiado, ao qual são obrigadas a auxiliar caso queiram sobreviver ao extermínio do Armagedom.
2. Exclusivismo: Somente sendo fiel à Organização Torre de Vigia será possível ser salvo. Elas são a única religião verdadeira. Jeová usará a Organização das Nações Unidas para eliminar todas as religiões, menos a Torre de Vigia.
3. Legalismo: A condição para sobreviver ao Armagedom e até mesmo para não ser exterminado no paraíso, é ser obediente aos requisitos e exigências de Jeová. As Testemunhas de Jeová devem ser fiéis aos mandamentos da liderança, pois ela é o canal de comunicação que Jesus designou. [17]

       A escatologia das seitas também é o meio que elas usam para explicar como um grupo que surgiu no século XIX pode ser a única religião verdadeira, mesmo estando em total descontinuidade com o Cristianismo primitivo.  As Testemunhas de Jeová ensinam que o povo de Deus permaneceu oculto por 1819 anos (de 100 d.C. a 1919 d.C.) até que Jeová ressuscitasse do “vale de ossos secos”, a única religião verdadeira, colocando o “trigo” em evidência ao separá-lo do “joio” (Cristandade). Ainda, a Sociedade Torre de Vigia mantém a fidelidade de seus “domésticos” à organização, por meio do medo de que Jeová as extermine no Armagedom se não obedecerem ao escravo fiel e discreto:

“Elas acreditam que Jesus pagou pelo pecado de Adão, no jardim, mas cabe a elas trabalhar para a “perfeição”, seguindo as regras da organização Torre de Vigia. Embora as Testemunhas de Jeová sorriam quando apresentam a sua mensagem porta-a-porta, elas não têm a verdadeira paz e alegria no fundo de seus corações. Elas não têm certeza da salvação, porque a sua religião ensina que devem cumprir todos os regulamentos da organização Torre de Vigia, a fim ser achadas dignas o suficiente para sobreviver ao Armagedom (futura batalha de Deus para acabar com o governo dos ímpios). Em seu esforço para ter a aprovação de Deus, a organização domina-os através do medo e da culpa, concentrando-se na sua incapacidade de cumprir o que lhes é exigido. Isso deixa as Testemunhas de Jeová espiritualmente vazias, lutando arduamente pela aprovação de Deus, sem nenhuma garantia de onde elas vão acabar após a morte. É verdade que enquanto elas parecem felizes por fora, por dentro estão morrendo, ansiando a paz e alegria que só Cristo pode fornecer.” [18]  
      

FONTES:

[1] Testemunhas de Jeová (2016). Você pode entender a Bíblia. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 219, 91, 94-97, 80.
[3] Testemunhas de Jeová (2014). O Reino de Deus já Governa. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 10, 100.
[4] A Sentinela (Edição de Estudos) de Julho de 2013: “Eis que estou convosco todos os dias”. Disponível em: https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/w20130715/jesus-parabola-trigo-e-joio/#?insight[search_id]=f7fb3014-b94f-475e-aad4-7655113de756&insight[search_result_index]=1
[5] Testemunhas de Jeová (2004). Preste Atenção à PROFECIA DE DANIEL! – Edição de tipo grande. . Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 183 -187, 389.
[6]A Sentinela (Edição de Estudo) de Julho de 2013: “Quem é realmente o Escravo Fiel e Discreto?”. Disponível em: https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/w20130715/quem-e-o-escravo-fiel-e-discreto/#?insight[search_id]=150b039c-2df8-4126-927d-112aa0570807&insight[search_result_index]=0
[7] Testemunhas de Jeová (2004). Preste Atenção à PROFECIA DE DANIEL! – Edição de tipo grande. . Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 227 -231, 389.
[10] Testemunhas de Jeová (2006). O Maior Homem que Já Viveu. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, seção 111.
[13] Testemunhas de Jeová (2014). O Reino de Deus já Governa. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 222 – 230.
[14] Testemunhas de Jeová (1985). A Vida – Qual a sua origem? A Evolução ou a Criação. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 235 – 238.
[15] Testemunhas de Jeová (2014). O Reino de Deus já Governa. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, p. 27.
[16] O que a Bíblia Realmente Ensina. Apêndice: Dia do Julgamento: O que é? – Disponível em: https://www.jw.org/pt/publicacoes/livros/biblia-ensina/o-que-e-dia-do-julgamento-reinado-de-mil-anos/
[17] Ferreira, F. & Myatt (2007). Teologia Sistemática - VIDA NOVA, p. 917.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

RESPOSTA AO QUESTIONÁRIO ANIQUILACIONISTA DE LUCAS BANZOLI


   

       Meu objetivo com este texto é apresentar uma breve e introdutória explicação aos textos supostamente aniquilacionistas, citados por Lucas Banzoli em seu “Questionário de Interpretação de Textos”. Quero lembrar que meu objetivo não é propriamente fornecer uma exegese dos textos, mas apenas explicações a título de introdução em resposta aos argumentos do aniquilacionismo banzoliano.

Texto 1 “Volta-te, Senhor, e livra-me; salva-me por causa do teu amor leal. Quem morreu não se lembra de ti. Entre os mortos, quem te louvará?” (Salmos 6:4-5)
       Essa declaração faz parte de um lamento que vai do verso  3 ao 7, portanto, o texto, estritamente falando, não está fazendo declarações doutrinárias, mas sim declarações de alguém angustiado. O fato de Davi clamar “Não quero ser morto pelos inimigos, pois quero continuar te louvando” é um clamor de um angustiado, não uma declaração doutrinária sobre estado pós-morte. Pode até ser que “em sua situação de angústia”, Davi entendesse que morreria sem esperança de continuar louvando a Deus. Sua oração é uma confissão de pecado, é natural que ele estivesse angustiado e com medo de perecer sem esperança de louvar a Deus (vv.1-3), ele revela temer ser castigado com a ira de Deus (v.1). É obvio que alguém nessa condição, consciente dos seus pecados e temendo a ira divina. não esperava morrer e ser levado ao céu. Qualquer um que lê o livro de Salmos perceberá o perigo de se confundir algumas expressões pessoais de oração com doutrinas completas, não que as declarações sejam falsas, mas sim que elas devem ser entendidas com base no significado que elas têm dentro da oração. Um clamor angustiado numa oração não é o mesmo que um texto sobre doutrina nas epístolas de Paulo.

Texto 2 - “Os mortos não louvam o Senhor, tampouco nenhum dos que descem ao silêncio” (Salmos 115:17)
       O texto só reflete a crença veterotestamentária do Sheol – um lugar onde a alma consciente se encontraria em melancolia e inatividade (2 Samuel 22.6, Salmos 6.6, Eclesiastes 9.10). Novamente, o Salmo é uma oração que expressa o conceito ainda incompleto do povo do Antigo Testamento sobre o estado intermediário. Mas é importante repetir – o texto é uma oração, não uma afirmação doutrinária completa. O salmista não pretende fazer uma teologia da morte, mas apenas dizer que Deus o livrou da morte e por isso ele poderia louvá-Lo. Temos aqui uma simples expressão de louvor.

Texto 3“Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, mas a sua memória fica entregue ao esquecimento” (Eclesiastes 9:5)
       Eclesiastes é um livro que descreve como seria a vida sem Deus. Ele diz que tudo seria sem sentido, até trabalhar ou estudar. Em Eclesiastes 9.5-10 Salomão declara que sem Deus nada haveria além desta vida. Na verdade, o texto não diz que com a morte tudo acaba, mas sim que, com a morte não temos mais participação neste mundo ("debaixo do sol"). Depois que morrermos não participaremos mais dos sentimentos, dos trabalhados e das atividades que se fazem na terra.

Texto 4 - “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente” (Gênesis 2:7)
       As expressões “alma” e “espírito” são palavras polissêmicas, podendo se referir a aspectos psicológicos, a princípios vitais, a substância imaterial ou a própria pessoa. É neste ultimo sentido que nephesh é usada nesse texto. Isso não significa que em outras passagens ela não assuma outros significados (veja psyché como elemento substancial ao lado do corpo, em Mateus 10.28). Para uma avaliação sobre a natureza humana confira meu artigo sobre esse assunto: http://brunosunkey.blogspot.com.br/2016/12/o-problema-mente-alma-corpo.html . 

Texto 5“Se o Senhor não tivesse sido o meu auxílio, já a minha alma estaria habitando no lugar do silêncio” (Salmos 94:17)
Ver explicação sobre o texto 2.

Texto 6“O que as suas mãos tiverem que fazer, que o faça com toda a sua força, pois no além, para onde vais, não há atividade alguma e nem planejamento, não há conhecimento e nem sabedoria” (Eclesiastes 9:10)
Ver explicação sobre o Texto 3. Observação: Neste texto, a palavra "além" é Sheol, e pode ser traduzida simplesmente como "sepultura".

Texto 7 “Quando eles morrem, voltam para o pó da terra, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (Salmos 146:4)
       O verso anterior (v.3) diz “não confiem nos príncipes, nem nos filhos dos homens que não podem trazer salvação". Esse Salmo fala de homens de alta posição que soberbamente pensavam que estavam seguros em sua grandeza. O salmista expressa, em sua oração, que não se deve confiar neles para salvação pois, quando eles morrem seu “espírito” sai - v.4 – e que então, seus pensamentos acabam. Ou seja, suas ideias soberbas chegam ao fim com a morte. Não devemos confiar nos grandes da Terra porque seus desígnios (pensamentos) perecem quando eles morrem, isto é, aquilo que os homens podem nos prometer nesta terra só dura até que eles morram, por isso devemos confiar em Deus, cuja salvação é eterna.

Texto 8“Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior” (Jó 19:25-27)
       Esse texto é difícil no hebraico (ū·mib·bə·śā·rî ’e·ḥĕ·zeh ’ĕ·lō·w·ah. - http://biblehub.com/interlinear/job/19-26.htm ), ele pode se referir tanto a visão beatífica de Deus na eternidade (depois da ressurreição – “em minha carne verei a Deus”) quanto ao estado intermediário (“sem carne verei a Deus” - NVI) ou ainda pode estar tão-somente falando da restauração de sua saúde.

Texto 9“Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face; quando despertar, ficarei satisfeito em ver a tua semelhança” (Salmos 17:15)
      Se “despertar” for uma referência a ressurreição, o texto fala da visão beatifica de Deus no estado eterno, após a ressurreição, mas nada no texto nega o estado intermediário. A ideia de que o texto fala da ressurreição ou de alguma esperança pós-morte é reforçada pelos versos precedentes que falam do materialismo dos ímpios, cuja esperança  se restringe a esta vida (v.14). No entanto, devemos lembrar que  afirmar o estado eterno não é negar o estado intermediário. Por outro lado, o texto pode estar simplesmente dizendo que o salmista fica satisfeito ao acordar na presença de Deus. Exigir que “despertar” (quwts), aqui, signifique “ressuscitar”, com base em Daniel 12.2 e Isaías 26.19, é cometer a falácia do parelelismo verbal (presumir que uma mesma palavra tenha o mesmo significado quando os contextos são diferentes e não paralelos).

Texto 10 – “Pois Davi não subiu ao céu, mas ele mesmo declarou: ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita’” (Atos 2:34)
       O contexto relaciona isso com a Ressurreição e Ascenção corpórea de Jesus e o texto ainda observa que Davi ainda está no túmulo (v.29), uma alusão ao seu corpo que é parte ontológica de seu ser. Assim, Davi, em seu ser completo (corpo e alma), não subiu ao céu, o que não significa que sua alma não tenha subido.

Texto 11“E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa. Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados” (Hebreus 11:39-40)
       Ninguém, nem as almas que estão no céu alcançaram ainda a promessa final ou o estado eterno, que é a redenção de toda a criação material (“nova Terra”) e do corpo (“ressurreição”).

Texto  12 - “Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e juntamente com ele, aqueles que nele dormiram. Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois disso, os que estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre. Consolem-se uns aos outros com estas palavras” (1ª Tessalonicenses 4:13-18)
        Paulo os consolou com a ressurreição e com a promessa escatológica da segunda vinda. Ele destacou aspectos escatológicos finais, não porque não cresse na imortalidade da alma, mas sim porque seu objetivo era corrigir, na mente dos leitores, as ideias erradas que eles tinham sobre a Segunda Vinda. Paulo está corrigindo as heresias escatológicas dos tessalonicenses, o texto precisa ser entendido dentro do propósito do livro. É importante observar também que "dormir" é um eufemismo para falar da morte, não uma descrição da condição dos mortos no estado intermediário. O contexto reforça a ideia de que "os que dormem" estão conscientes na presença de Cristo: "...[Jesus] morreu por nós para que, quer estejamos acordados, quer estejamos dormindo, vivamos em união com ele." (1 Tessalonicenses 5.10).
Texto 13 – “Se foi por meras razões humanas que lutei com feras em Éfeso, que ganhei com isso? Se os mortos não ressuscitam, ‘comamos e bebamos, porque amanhã morreremos’” (1ª Coríntios 15:32-32)
       No capítulo 15, Paulo está se opondo a ideia gnóstica de que a matéria é má e que por isso a ressurreição não existiria. Paulo diz aos coríntios que a implicação lógica disso seria a negação da ressurreição de Cristo. Ele então liga a ressurreição a todo plano de salvação, de modo que negá-la tem como implicação negar a salvação. O objetivo da ressurreição é redimir o corpo. As almas dos salvos que morreram estão justamente aguardando a redenção de seus corpos. A ressurreição é profundamente importante. Paulo argumenta que se não houvesse ressurreição, não haveria redenção alguma: “também Cristo não ressuscitou” (1 Coríntios 15.13-14), o que tornaria nossa existência neste mundo totalmente sem sentido (1 Coríntios 15.29-34). A ressurreição é essencial para o processo de regeneração, justificação e glorificação (Romanos 4.25; 5.10; 6 4-9; 8.11; 1 Coríntios 6.14; 15.20-22; 2 Coríntios 4.10-14; Efésios 1.20; Filipenses 3.10; Colossenses 2.12; 1 Tessalonissenses 4.14; 1 Pedro 1.3). Sem ressurreição, não há redenção. As almas não poderiam nem mesmo gozar de um estado intermediário no céu sem a redenção, a regeneração, a justificação e a esperança da glorificação. Portanto, é um mito achar que crer no estado intermediário consciente das almas signifique negligenciar a verdade da ressurreição, ao contrário, o estado intermediário depende da ressurreição.

Texto 14“A qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, e único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; ao único que possui a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém” (1ª Timóteo 6:15-16)
       O texto mostra que Deus é o único que possui imortalidade inerente, todos os outros seres que não morrerão recebem a imortalidade como dom de Deus. É importante colocar que “existência eterna” não é o mesmo que “vida eterna”, pois a existência continuada no inferno não pode ser chamada corretamente de “vida”. Desse modo, somente os salvos recebem de Deus o dom da imortalidade, mas só Deus possui “vida em si mesmo”, imortalidade inerente e não imortalidade doada (João 5.26).

Texto 15. “Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade” (Romanos 2:7)
       Novamente, imortalidade é um dom somente para os salvos, que será consumado na ressurreição glorificada, em que todo o ser (corpo e alma) não estará mais sujeitos à morte. Os ímpios terão existência continuada, mas não imortalidade ou vida eterna.

Texto 16. “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2ª Timóteo 4:7-8)
       Em certo sentido, é verdade que os salvos só estarão no céu após a segunda vinda de Cristo. Se “céu” for entendido como o estado final em que todas as coisas, corpo, alma e criação, já estarão restaurados, de fato, estaremos lá só quando Cristo vier segunda vez. No entanto, não se deve confundir a expressão “céu” em referência ao estado intermediário e a expressão “céu” em referência ao estado eterno. Do mesmo modo que não se pode confundir a ideia de inferno intermediário (Hades) com a de inferno eterno (Geena). O “céu” no qual as almas estão sem corpo, é provisório, o estado final em que os santos viverão eternamente em alma e corpo numa terra renovada é eterno. Essa é a coroa final.

Texto 17. “Porque sabemos que aquele que ressuscitou ao Senhor Jesus dentre os mortos, também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará com vocês” (2ª Coríntios 4:14)
       Paulo simplesmente diz que, na ressurreição, Deus apresentará os salvos juntos.  O encontro dos salvos no estado final não anula seu encontro provisório no estado intermediário.

Texto 18. “Houve mulheres que, pela ressurreição, tiveram de volta os seus mortos. Alguns foram torturados e recusaram ser libertados, para poderem alcançar uma ressurreição superior” (Hebreus 11:35)
Ver comentário ao texto 13.

Texto 19. “Mas, quando der um banquete, convide os pobres, os aleijados, os mancos, e os cegos. Feliz será você, porque estes não têm como retribuir. A sua recompensa virá na ressurreição dos justos" (Lucas 14:13-14)
      Novamente, o estado intermediário não é a recompensa final, ele é provisório e incompleto. A recompensa final, com a redenção plena inclusive do universo e corpos materiais, só se dará com a ressurreição.

Texto 20. “Todos estes ainda viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-nas de longe e de longe as saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Os que assim falam mostram que estão buscando uma pátria. Se estivessem pensando naquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, pois preparou-lhes uma cidade” (Hebreus 11:13-16)
Ver comentário ao texto 11.

Texto 21. “Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites” (Lucas 12:47-48)
       A Bíblia também diz que haverá, em algum sentido, gradação de recompensas no céu sem que isso negue a eternidade  da bem-aventurança dos eleitos (1 Coríntios 3.8), portanto é perfeitamente possível que haja gradação de castigos no inferno sem que isso negue a sua eternidade. Nesse caso, a diferença estaria na intensidade da percepção subjetiva do castigo e não na duração objetiva do castigo.

Texto 22. “Também condenou as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos ímpios” (2ª Pedro 2:6-6)
       É importante notar que "destruir" e "aniquilar" são coisas distintas. Por exemplo, quando o fogo destrói algo, esse algo deixa de ser o que ele era e se torna cinzas, mas não deixa de existir.  Ele continua existindo como cinzas. Na aniquilação as coisas deixam de existir. O texto fala de “destruição”, não de “aniquilação”. Aqui vale colocar o que CS Lewis escreveu sobre a destruição no inferno:

“O que pode ser então aquilo de que três imagens são símbolo? A destruição, podemos, naturalmente presumir, significa a eliminação ou aniquilação dos destruídos. E as pessoas falam com frequência como se ‘aniquilação’ de uma alma fosse possível. Em nossa experiência, porém, a destruição de uma coisa significa a emergência de outra. Queime um pedaço de madeira e terá gases, calor e cinzas. Ter sido um pedaço de madeira significa agora ser essas três coisas. Se a alma pode ser destruída, não haverá um estado de ter sido uma alma humana? E não é esse, talvez, o estado que é  igualmente bem descrito como tormento, destruição e privação? Você estará lembrado de que, na parábola, os salvos vão para um lugar preparado para eles, enquanto os perdidos vão para um lugar que não foi absolutamente feito para homens. (Mt 25:34,41) Entrar no céu é tornar-se mais humano do que jamais alguém o foi na terra; entrar no inferno é ser banido da humanidade. O que é lançado (ou se lança) no inferno não é um homem: são 'refugos'. Ser um homem completo significa ter as paixões obedientes à vontade e essa vontade oferecida a Deus: ter sido um homem – ser um ex-homem ou um 'fantasma perdido' - iria presumivelmente significar consistir de uma vontade completamente voltada para o Eu e paixões não controladas pela vontade. Torna-se, naturalmente, impossível imaginar com o que a consciência de tal criatura – já então um agregado indefinido de pecados mutuamente antagônicos em lugar de um pecador - poderia comparar-se. Pode haver grande parte de verdade no ditado: 'o inferno é  inferno, não de seu próprio ponto de vista, mas do ponto de vista celestial'. Não acredito que isto interprete mal a severidade das palavras  de Nosso Senhor. Somente aos condenados é que seu destino poderia parecer menos do que insuportável.  E deve ser admitido que, nestes últimos capítulos, à medida que pensamos na eternidade, as categorias de dor e prazer, que nos prenderam por tanto tempo, começam a retroceder, enquanto bens e males mais vastos surgem no horizonte. Nem a dor nem o prazer como tais têm a última palavra. Mesmo se fosse possível que a experiência (se pode ser chamada assim) dos perdidos não contivesse dor mas muito prazer; ainda assim, esse prazer negro seria de um tipo tal que faria qualquer alma, ainda não condenada, voar para as suas orações num terror de pesadelo: mesmo que houvesse sofrimentos no céu, todos os que têm entendimento os desejariam.”

Observações: Eu já fui aniquilacionista por um tempo, no entanto, alguns motivos foram suficientes para eu abandonar o aniquilacionismo, tais como (i) inconsistências exegéticas: a maior parte dos argumentos bíblicos aniquilacionistas são baseados em paralelismo verbais,  prescrições semânticas falaciososas e citações prolixas de passagens descontextualizadas, além de sua falha em fornecer interpretações satisfatórias para passagens obviamente imortalistas (ii) inconsistências teológicas: o aniquilacionismo é inconsistente com a doutrina ortodoxa da união hipostática de Cristo, podendo desembocar em uma espécie de apolinarianismo, é difícil, também explicar o "estado intermediário" de Jesus, um aniquilacionista consistente teria de dizer que Jesus deixou de ser homem por um tempo ou algo assim, além do aniquilacionismo ser inconsistente com um conceito sadio de justiça divina e com a doutrina da expiação. (iii) inconsistências filosóficas: a antropologia holista desemboca nos mesmos problemas do materialismo e problemas filosóficos com a ideia de aniquilação como punição. Mas não dá para tratar aqui de todos esses problemas, pois fugiria do escopo do artigo.

*Em alguns casos eu apenas copiei e colei refutações que apresento neste artigo: http://bereianos.blogspot.com.br/2016/11/refutando-o-aniquilacionismo.html

*Link do Questionário: http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2016/07/responda-ao-questionario-de.html






quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

REFLEXÕES EXISTENCIAIS SOBRE A ANGÚSTIA

"Quando não podemos mais mudar uma situação,
 somos desafiados a mudar a nós mesmos."
 - Viktor Frankl

       Algumas questões na vida parecem sem significado, e ficamos assustados e confusos diante delas. Podemos definir significado como as interpretações que fazemos dos fenômenos existenciais a partir de uma Weltanschauung. A Cosmovisão cristã (Christliche Weltanschauung) é a única que fornece os elementos corretos para elaborar uma interpretação correta das coisas, por isso, em sofrimento, devemos recorrer à interpretação que as Escrituras fornecem sobre o mesmo.


A LINGUAGEM VAZIA DE SIGNIFICADO

       Iniciemos por Isaías 22.7-13:

“Os vales mais férteis de Judá ficaram cheios de carros, e cavaleiros tomaram posição junto às portas das cidades; Judá ficou sem defesas. Naquele dia vocês olharam para as armas do palácio da Floresta e viram que a cidade de Davi tinha muitas brechas em seus muros. Vocês armazenaram água no açude inferior, contaram as casas de Jerusalém e derrubaram algumas para fortalecer os muros. Vocês construíram um reservatório entre os dois muros para a água do açude velho, mas não olharam para aquele que fez estas coisas, nem deram atenção àquele que há muito as planejou. Naquele dia o Soberano, o Senhor dos Exércitos, os chamou para que chorassem e pranteassem, arrancassem os seus cabelos e usassem vestes de lamento. Mas, ao contrário, houve júbilo e alegria, abate de gado e matança de ovelhas, muita carne e muito vinho! E vocês diziam: ‘Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos’".

        Vemos que Judá, diante da turbulência, buscou com diversos esforços lutar contra a mesma. Sim, fizeram tudo, menos o que deviam - buscar a Deus. O resultado foi a desesperança "Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos". De fato, a angústia nos confunde muito, justamente, talvez, por sua marca ser aquilo que nenhuma palavra pode abarcar.
       A linguagem da angústia é o silêncio. Nesse sentido, vale considerar o pensamento do fenomenólogo existencial Martin Heidegger, segundo o qual, a angústia (angst) é a condição que emerge da experiência de rompimento da trama semântica do mundo. Ela é a disposição afetiva da indeterminação de nós mesmos e da realidade colocada pelo rompimento com o mundo, a suspensão (epokhé) do mundo e dos significados a ele doados e a percepção da incerteza da existência a partir da perspectiva humana. A angústia é a condição de desalojamento existencial que emerge de uma ruptura do mundo semântico. A angústia surge quando o mundo e as nossas vivências perdem o significado, daí dizemos "Meu mundo caiu".
       Existem duas formas de lidar com "o sofrimento de uma vida sem sentido", para usar o título de um livro do logoterapeuta Viktor Frankl (as frases dele citadas neste artigo foram extraídas desse livro). Podemos nos paralisar e ficar presos e desalojados do mundo, ou podemos aproveitar a angústia para romper com um modo impróprio de existir e construir um novo significado para a existência, uma apropriação da nossa condição de ser. Quando o mundo ilusório que construímos perde o significado, é que podemos encontrar o verdadeiro significado da vida. Geralmente, o desejo de se matar expressa, na verdade, o desejo de matar a vida inautêntica ou o mundo impróprio no qual se vive (Beisichselbstsein). O suicídio impõe o fim das possibilidades existenciais, mas a mente atenta aproveita as possibilidades que se abrem ante a ruptura com o seu modo impróprio de viver.
       Mas são necessárias algumas observações sobre essa elaboração de uma nova trama significativa autêntica a partir do rompimento com o mundo impróprio. Não devemos pensar como poderia imaginar um seguidor de Sartre, que esse significado é criado arbitrariamente pelo homem. Também não podemos pensar que esse significado está em uma hermenêutica subjetiva-etimológica a la Heidegger. Também não quero apoiar as ideias de uma teologia existencialista que rompe com a ortodoxia conservadora, como em Rudolf Bultmann e Paul Tillich. A vida autêntica cristã está fundamentada em fatos existenciais reais, históricos e objetivos, como a morte e ressurreição de Cristo, e não em símbolos mitológicos. Assim, o significado da existência não pode ser separado da Heilsgeschichte, isto é, dos atos salvíficos de Deus na História, no tempo e no espaço literais. 
       Assim, o significado existencial, já está dado. Ele é doado pela Consciência absoluta, isto é, Deus. Ao nos depararmos com a angústia, devemos romper com a nossa vida imprópria e nos apropriar de uma vida autêntica (eigentlich), cujo significado existencial está na união mística com Cristo Jesus. Quando o homem faz de si mesmo o criador do seu significado existencial, ele está vivendo na impropriedade.

O SENTIDO EXISTENCIAL É CRISTOLÓGICO

       Falta, agora, uma interrogação acerca do sentido. Enquanto o significado (Bedeutung) é a interpretação existencial dos fenômenos do mundo, o sentido (Sinn)  diz respeito a direção (Richtung) de nossa trajetória existencial. É verdade que na angústia há uma ruptura com o significado, mas não há com o sentido. Pode parecer que a angústia é sem sentido, apenas quando nos esquecemos de Cristo. Assim, como toda seta aponta para um sentido, todos os eventos do Universo tem um sentido teleológico que se direciona a Cristo. É por isso que, de acordo com Guilherme de Carvalho, o Universo é um sorriso de Deus Pai para o Filho, de modo que as coisas só fazem sentido em Cristo. O mundo foi criado pelo Pai para a glória de Deus Filho, manifestando o amor intertrinitário. A criação tem como origem e fim a Trindade. Somente numa Cosmovisão Trinitária (Trinitarischen Weltanschauung) é possível compreender o sentido existencial de nossa trajetória.
       O apóstolo Paulo expressa isso assim: "Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente." (Romanos 11:36). A angústia faz parte do plano de Deus para nós, as palavras do apóstolo dos gentios são fortalecedoras: "E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito." (Romanos 8:28). Agora que a trama significativa que nos aprisionava foi rompida, é necessário um redirecionamento existencial rumo ao nosso sentido teleológico: "...uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus." -Filipenses 3.13-14.
       O sentido de uma coisa precisa estar além dessa coisa, pois a flecha não pode ser seu próprio alvo. É por isso que o sentido do Universo está além do Universo. Como disse Viktor Frankl:

"Tomemos o exemplo de um macaco em que se aplicam injeções dolorosas com o intuito de obter um soro capaz de curar numerosas doenças. O macaco pode compreender por que tem de sofrer? A partir do seu ambiente ele é incapaz de compreender as intenções do homem empregadas em seus experimentos, uma vez que o mundo humano lhe é inacessível. Ele não alcança esse mundo, não consegue penetrar em sua dimensão; não podemos então supor que o mundo humano é também, por seu turno, superado por outro mundo, que, por sua vez, não é acessível ao homem, um mundo, cujo suprassentido, é o único capaz de dar sentido à sua dor?" 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Podemos finalizar nossas reflexões com uma passagem bíblica:

“Amados, não se surpreendam com o fogo que surge entre vocês para os provar, como se algo estranho lhes estivesse acontecendo. Mas alegrem-se à medida que participam dos sofrimentos de Cristo, para que também, quando a sua glória for revelada, vocês exultem com grande alegria. Se vocês são insultados por causa do nome de Cristo, felizes são vocês, pois o Espírito da glória, o Espírito de Deus, repousa sobre vocês. Se algum de vocês sofre, que não seja como assassino, ladrão, criminoso ou como quem se intromete em negócios alheios. Contudo, se sofre como cristão, não se envergonhe, mas glorifique a Deus por meio desse nome. Pois chegou a hora de começar o julgamento pela casa de Deus; e, se começa primeiro conosco, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus? E, ‘se ao justo é difícil ser salvo, que será do ímpio e pecador?’ Por isso mesmo, aqueles que sofrem de acordo com a vontade de Deus devem confiar suas vidas ao seu fiel Criador e praticar o bem.” - 1 Pedro 4.12-19

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