quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

EVOLUCIONISMO É CIÊNCIA?

       O objetivo deste artigo é interrogar sobre a "cientificidade"  da Teoria da Evolução naturalista-(neo)darwinista (que designaremos a partir de agora simplesmente como "Evolucionismo"). Para tanto, será feita uma ensaio investigativo do conceito de "ciência" por meio de um questionamento da definição moderna de ciência, em suas bases ontológicas e epistemológicas originárias.
      Sendo assim, primeiro é preciso definir o que é ciência. Sem uma definição prévia e rigorosa do que vem a ser "ciência" não é possível avaliar adequadamente se o Evolucionismo é "Ciência" ou não. Em geral, boa parte das definições de Ciência têm sido sustentadas sobre a base de um evidencialismo-essencialista aristotélico. Segundo essa perspectiva, o objetivo da Ciência seria classificar as coisas a partir de uma retirada do fenômeno de seu campo natural de manifestação para um campo experimental de observação, a fim de, por meio de testes de hipóteses de uma rede de conexões de causalidade, poder apreender a essência objetiva da coisa em si a fim de classificá-la em um conjunto rigoroso e delimitado de categorizações.
       A concepção essencialista é a base da taxonomia biológica moderna que exerce um papel fundamental quando se discute a Teoria Evolucionista. A ideia de “espécie”, “gêneros”, “famílias”, etc. está alicerçada sobre as noções aristotélicas de substância primária e secundária, enquanto “o que” estático e faticídio dos entes. A Ciência Evolucionária tem um método próprio de classificação: partindo de pressupostos neodarwinistas, ela tira o ser vivo de seu campo natural de monstração e o classifica com base em um sistema taxonômico parcial. Podemos chamar essa classificação como “taxonomia biológica”. Ela não é o único modo de classificar as espécies.
       Essas observações das influências aristotélicas por traz da taxonomia biológica, já revelam a ingenuidade da definição essencialista-evidencialista de Ciência. Não há algo como essências objetivistas nas coisas que encerrem em si mesmas um significado passível de ser apreendido neutralmente e imparcialmente pela consciência através da observação empírica. Nenhuma evidência possui objetivamente um significado auto-incluso em si mesmo. Evidências têm seus significados doados por uma Weltanschauung (Cosmovisão), a qual possui uma articulação teórica sobre a base de hipóteses apriorísticas que interferem, para bem ou para mal, na visualização do fenômeno.
       A questão é: Evidências não falam por si só, e por isso, o essencialismo-aristotélico-evidencialista está equivocado. Não é possível perguntar "Será que a Evolução ocorreu?" e então "imparcialmente" e de maneira "neutra", amontoar as evidências numa balança e pesar os argumentos. Não há nem mesmo como provar só com base nas evidências, por exemplo, (i) que o mundo existe; (ii) que o mundo é tal qual o conhecemos; (iii) que existe causalidade no mundo; ou (iv) que o tempo e o espaço existem na realidade.
       O evidencialismo-essencialista é incapaz de por si mesmo, sustentar qualquer afirmação sobre a realidade. Não há como saber, por evidências somente, se tudo é criação da nossa mente ou se tempo, espaço e causalidade são só categorias da nossa consciência e, mesmo que o Universo exista, é impossível provar por evidências que nós temos capacidade de percebê-lo como ele realmente é ou se o Universo se manifesta a nós tal qual ele é. Um cartesiano rígido poderia apelar para a suficiência do ego cogito e descartar totalmente a existência do Universo externo, reduzindo tudo ao eu cognoscente. Um kantiano poderia argumentar que a realidade em si (noumena) é incognoscível e que apreendemos somente o phenomenal. Tempo, espaço e causalidade seriam somente categorias a priori da mente. A despeito dos problemas filosóficos que possam haver nessas abordagens, elas ilustram como as evidências não falam por si só. Todas essas crenças precisam ser pressupostas como verdadeiras, isto é, assumidas por fé.
        Na verdade, o Evolucionismo depende do método científico que toma emprestado noções desenvolvidas pelo pensamento escolástico. Concepções como, termos uma mente capaz de interpretar a realidade, a existência de um mundo logicamente organizado passível de ser conhecido e a existência de uma rede de conexões reais de causalidade a serem explicadas, foram desenvolvidas pela filosofia escolástica – tomista. Essas noções só faziam sentido em uma Cosmovisão que admitia Deus como fundamento referencial. Assim, o Evolucionismo abraça implicitamente pressupostos cristãos a fim de pervertidamente construir uma filosofia com implicações epistemológicas, metafísicas e éticas anticristãs.
       Que o Evolucionismo é produto de um contexto filosófico, e não de evidências e dados brutos, fica claro se olharmos o espírito dos séculos que precederam a Primeira Guerra Mundial. Há, no zeitgeist , a doutrina do progresso, segundo a qual a humanidade, agora livre da religião medieval, estava destinada a evoluir para um futuro glorioso. O Evolucionismo (evolução das espécies) é mais uma filosofia do progresso ao lado do Positivismo (evolução da ciência), do Marxismo (evolução histórico-econômica), do Kardecismo (evolução dos espíritos) e do Darwinismo social (evolução das culturas). Assim, há fundamentos filosóficos, anteriores à evidência, sobre os quais o Evolucionismo, como qualquer outra teoria, se sustenta.
       Alguns podem arguir e dizer que o evidencialismo não necessariamente nega os fundamentos a priori do conhecimento. Certamente isso pode ser verdade, mas aqui o evidencialista-essencialista precisará admitir que não se pode provar esses fundamentos apriorísticos por meio da evidência. Mas a questão é que uma investigação mais apurada dos "pressupostos" por traz do Evolucionismo revela que eles são mais propriamente pré-conceitos supra-teóricos do que axiomas fundamentais.
       Quando se pensa que se pode olhar para as evidências e com base unicamente nelas definir se o Evolucionismo está ou não correto, cai-se praticamente num indutivismo ingênuo. O Evolucionismo pretende-se uma teoria universal sobre a origem das espécies, mas é impossível estabelecer verdades ou teorias universais com base na observação empírica. Uma teoria universal não pode ser deduzida da observação, isso seria uma falácia de generalização conforme apresentou David Hume com as ilustrações da observação de só cisnes pretos não refutar que existam cisnes brancos e do fato de que observar o sol nascer todos os dias não garante que ele nascerá amanhã, não importa por quantos anos a humanidade observe isso. Além disso, há o problema das delineações epistemológicas - o que define quantas observações são suficientes? E como e em quais circunstâncias se deve fazer essas observações? Outro problema é como saber quando se deve rever a teoria para que ela se adéque à evidência e quando se deve rever a interpretação da evidência para que ela se adéque à teoria?
       O fato de que o significado da evidência é doado por uma teoria hermenêutica, não existindo encerrada na evidência mesma, pode ser exemplificada de alguns modos, por exemplo, o Archaeopteryx lithographica, pode se ajustar, tanto ao conceito neodarwinista de espécie transicional, quanto à ideia de espécie mosaica; a similaridade genética e até fenotípica entre algumas espécies, poderia ser entendida tanto como evidência de ancestralidade comum como de design comum. As evidências são como pontos que podem ser ligados coerentemente por diferentes traçados (teorias).
       Para salvar o evidencialismo-essencialista, poder-se-ia argumentar que seria possível testar essa teoria por meio da falsificação e determinar sua validade. Mas isso ainda está pressupondo que as evidências têm significado auto-incluso independente da Consciência significante. Há outros problemas no falsificacionismo. Logicamente não há como provar que se deve rejeitar uma teoria falível com base na observação, isso porque a observação também é falível. Em alguns casos a Ciência precisa rejeitar proposições de observação, ao invés de revisar uma teoria. Teorias geralmente consistem em um complexo muito maior de afirmações. Assim, uma teoria não poderia simplesmente ser solapada por outra, porque o erro pode estar numa parte da complexa situação do teste que seria necessário para falsificá-la. A ideia falsificacionista de progresso da Ciência, também, não se mostra muito exata. A Ciência muitas vezes teve que continuar sustentando teorias mesmo indo contra as observações, e isso posteriormente se mostrou algo bom.
       Outro argumento a favor de uma visão evidencialista-essencialista de Ciência poderia ser que, embora não possamos determinar absolutamente, pela evidência, a validade de uma teoria, poderíamos fazê-lo probabilisticamente. A ideia do probabilismo é que quanto maior o número de observações mais provável e verossímil será uma teoria ou generalização dela resultante. Mas aqui entramos num raciocínio circular, a afirmação de que quanto maior o número de observações mais provável e verossímil será uma teoria ou generalização dela resultante, já é uma teoria que está pressupondo o probabilismo, por pretender ser uma teoria universal ou geral. O argumento está empregando um tipo de justificação que é justamente o que precisaria ser justificado. Além disso, a probabilidade de qualquer teoria universal é sempre 0 (zero).
       Estabelecido que não é possível avaliar rigorosamente a "cientificidade" de uma teoria pela evidência empírica somente, é necessária uma análise pressuposicional rigorosa que deve determinar a validade dos pressupostos teóricos que estão por traz do Evolucionismo. Uma ilustração pode ajudar: Um castelo está construído sobre alguma base. Vamos considerar que esse castelo são os argumentos e evidências. Os evidencialistas-essencialistas avaliam os tijolos do Castelo, mas o que eles deveriam era investigar os pressupostos dos quais dependem esses argumentos e evidências. Não é necessário atacar cada “tijolo” do Castelo, basta “puxar seu tapete” ou sua “base” para que ele desmorone.
       A apologética precisa ir além do que atacar só tijolos. A apologética clássica, também baseada no evidencialismo-essencialista, acaba por fornecer apenas uma "certeza empírica" para a existência de Deus. No entanto, uma "certeza empírica", diferente de uma "certeza apodítica", nunca é uma certeza absoluta. A apologética reformada, por outro lado, admite Deus como pressuposto absoluto e necessário para o conhecimento, isso porque é logicamente impossível conhecer qualquer coisa sem pressupor o Deus cristão.
       Por fim, podemos definir Ciência, inicialmente e grosso modo, como aquela hermenêutica sistemática da realidade que tem clareza dos seus pressupostos e que se fundamenta sobre bases estabelecidas firmemente por uma rigorosa investigação ontológica, “arqueológica” e epistemológica. A Ciência é aquele conhecimento que contempla os fenômenos da realidade a partir da Cosmovisão correta, cujos fundamentos lhes estão "à mesa". Esta interpretação só é possibilitada por uma visão de mundo que doe os significados corretos. E esta Cosmovisão é a visão de mundo fornecida pela Escritura. Portanto, sendo mais específico. Ciência é a interpretação da realidade conforme a Cosmovisão fornecida pela Escritura. Essa noção de Ciência não despreza as evidências, nem deslegitima as ciências ônticas (biologia, física, química, geografia, psicologia, sociologia, etc.), antes lhes estabelece justificativa epistêmica na única base ontológica fundamental capaz de possibilitá-las.

       Podemos concluir dizendo que o Evolucionismo não é Ciência. Evolucionistas não têm clareza dos seus pressupostos, que lhes permanecem inconscientes, seus axiomas são, na verdade, pré-conceitos supra-teóricos e eles partem de um pensamento evidencialista-essencialista que, como demonstrado, é falso. 


NOTAS:

1. Quanto à questão do evidencialismo-essencialista e a teoria evolucionária, fui inspirado pelo artigo: "Can we trust the Bible over Evolutionary science?" 
2. Observações epistemológicas sobre  o Indutivismo ingênuo, o Falsificacionismo e o Probabilismo foram baseadas em: Chalmers, Alan Francis. O Que é Ciência afinal?


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

PROLEGÔMENA A UMA ANÁLISE ONTOLÓGICA -EXISTENCIAL DA ANGÚSTIA

       O objetivo deste artigo é oferecer uma prolegômena à questão do ser para uma hermenêutica existencial do fenômeno a-semântico da angústia (angst). A questão é apenas fazer um ensaio a fim de estabelecer indagações iniciais para futuros estudos e análises existenciais a partir de algumas leituras. Logo, minha pretensão não é estabelecer uma análise fenomenológica exaustiva sobre a ontologia da angústia, mas sim colocar algumas questões e suspeitas existenciais a título de introdução.

ESSÊNCIA E EXISTÊNCIA 

       Quando se fala de angústia, a verdadeira questão que precisa ser posta é a "questão do ser". O problema da existencialidade humana não é a luta de classes (marxismo), nem o mal-estar advindo da repressão das pulsões sexuais (psicanálise), nem a insuficiência filogenética (darwinismo), o problema humano é o que homem é. A relação entre essência e existência é de grande relevância para uma análise ontológico-existencial da angústia, visto que a questão do ser é profundamente significativa para a compreensão da disposição afetiva que é, por sua própria natureza, sem significado. É preciso perguntar sobre a ordem e relação que há entre essência e existência.
       A primeira questão que se coloca é: essência e existência são a mesma coisa? Em Kant a essência parece ser algo em separado e próprio, incognoscível ao sujeito, de modo que a fenomenologia do mundo não corresponde ao mundo em si mesmo, isto é, em sua essência. A distinção entre essência e existência aparece também no tomismo, quando se fala de ato (existência) e potência (essência). Em Sartre, a existência precede a essência. Heidegger, por outro lado, identifica a essência do Dasein com a própria existência.
       A minha suspeita é que a ideia heideggeriana de que a essência do Dasein é a existência, é um equívoco, a menos que se fale do único Ser absoluto, o qual destituído de potência, permanece como Ato Puro, no qual essência e existência coincidem-se. A verdadeira questão existencial, dolorosa da vida humana, é que a essência do Dasein é a in-existência. A ontologia do nada é o verdadeiro motivo que angustia (angst) o homem em sua trajetória existencial.
       O problema da identificação da essência e da existência do Dasein provocaria uma deificação do mesmo. Até Heidegger dizia que Deus é, mas só o Dasein existe. Pior ainda é pensar, como em Sarte, que a existência precede a essência, como se o homem fosse o próprio criador de seu significado ou o seu próprio deus. Aqui já vemos que as ontologias existenciais seculares caem no erro de ter como ponto modal um ídolo, elas são antropo-referentes.
      Numa perspectiva aristotélica teríamos que afirmar que a essência do homem precede sua existência. Primeiro, existe a possibilidade de ser (essência), potência que se atualiza em ato de ser (existência). Somente Deus, enquanto Ato puro, sem qualquer composição de potência, tem como essência a existência. E por isso. não é possibilidade de ser, mas o próprio Ser em ato, cuja essência é a existência. Por isso, Yahweh é Ser: "Eu sou o que sou". Ele não tem, Ele é. Nesse caso, temos de ver Deus como o Ser absoluto, cuja essência é a existência.
       Na medida em que o Dasein precisa ter sua existência sustentada pelo Absoluto, temos de concluir que ontologicamente sua tendência ou potência natural é não-ser. Essencialmente o Dasein não existe em si mesmo, ele existe contingencialmente. Suspeito, então, que a essência do Dasein é a in-existência.

SIGNIFICADO ESCATOLÓGICO DO SER-PARA-A-MORTE

      Se a essência do Dasein é a in-existência, ou seja, se sua tendência natural é o não-ser, faz todo sentido afirmar que o Dasein é ser-para-a-morte. Não só no sentido de que Ele pode morrer, mas sim que ele depende ontologicamente do Ser (essência-existência) para ser (essência em existência). É nesse sentido que para a questão: "O que é o ser?" A resposta ontológica-existencial-hermenêutica-semântica é: "Nada!"
       Existe uma incompletude do Dasein, pois a potencialidade de não-ser está sempre presente no seu horizonte de possibilidades existenciais enquanto ser contingente. O Dasein é o ente que sempre sendo pode deixar de ser. É um presente da presença na presença do presente que pode simplesmente vir a ser presente sem presença. A tendência ontológico-existencial do Dasein é a possibilidade da impossibilidade da existência.
      Ao dar-se conta dessa resposta à questão do Ser, o Dasein toma consciência pela ação do Transcendente, de sua própria incompletude e contingencialidade. O reconhecimento da ontologia do nada na essência da existência do Dasein, é o motivo pelo qual ele deve reorientar o sentido de sua trajetória existencial para o Ser absoluto que sustenta seu ser-no-mundo, embora o homem natural fique paralisado nesse estágio.
      Por isso, é uma ilusão do imanentismo progressista e humanista acreditar que o Dasein tem sua trans-cendência de si mesmo. Não existe soteriologia imanente que redima o homem da impropriedade e o contate com o Ser. A tendência natural do Dasein é o não-ser, por isso, sua busca pelo Ser deve ser movida pela ação transcendente do Ser absoluto.
      Daí a consciência do ser-para-a-morte produzir a angústia que possibilita esperança escatológica. Escatologia que é concretizada na Heilsgeschichte que encontra-se no âmago, não em um mero findar da História. O Transcendente se apresenta na realidade imanente, a atemporalidade adentra o tempo e a vida imortal morre a morte eternal. O encontro paradoxal mais fantástico ocorrido e, por isso, existencialmente mais profundo do que tudo. A impropriedade é tragada pela autenticidade, a recriação do Ser decaído e a manifestação da eternidade inteira ocorre em cada segundo.
       Há uma representação paradoxal da rejeição da humanidade no Logos, mas a aceitação de uma nova humanidade por meio do mesmo Logos representante, numa tríplice configuração, desconfiguração e reconfiguração existencial. A fenomenologização da repulsa da corrupção humana é manifesta no castigo expiador, ao mesmo tempo que a aceitação da oferta do Logos é justificadora à uma nova humanidade. Este é o paradoxo existencial que efetua uma vida autêntica naqueles nos quais o Parecleto opera. Assim, a humanidade é reconciliada "através de", "no", e "pelo" Logos com o Absoluto que lhes era "Inimigo" e os leva a paradoxal vivência escatológica do "já, mas ainda não".

O FENÔMENO DA ANGÚSTIA

     Já fiz algumas pontuações existenciais iniciais sobre o mesmo ( aqui ). Observei que há uma distinção importante entre significado e sentido. Mostrei como na angústia há um rompimento com o significado (trama hermenêutico-semântica), sem que haja uma perda de sentido (telos cristológico). Vale fazer uma analítica prolegômena da questão da angústia no interior da ontologia do nada e da escatologia do ser-para-a-morte.
       A reorientação da trajetória existencial a um sentido só é possível em meio à crise de angústia. A possibilidade do rompimento semântico com uma sintaxe ídolo-referente tem de necessariamente passar pela queda do mundo. É necessário ouvir o silêncio sem palavras da angústia, que nos chama a um redirecionamento existencial. É necessário que o sofrimento existencial provoque uma des-ontologização hermenêutica da trama aprisionante da impropriedade, reposicionando-nos perante o não-ser, isto é, o nada.
      É algo como um grito apavorante e desesperador: “Agora tudo está acabado, nada mais deve restar. Derrube o mundo ao chão, anuncie seu fim catastrófico, se depare com a ausência do ser na ontologia do nada. O cordão umbilical psicológico da inautenticidade da existência em sua decadência do Ser, precisa ser cortado de uma vez por todas.” Mas isso são só indicativos, não há linguagem nesse estágio, ele é semanticamente vazio e silencioso, hermeneuticamente inexprimível. O parto é angustiante, ele é o estreito e obscuro caminho recolocando o sujeito perante o vazio do nada que possibilita o paradoxal desvelamento da Plenitude das possibilidades.
       É na ausência do ser que o horizonte de múltiplas possibilidades de direcionamento, se abre no ato fenomenológico de desvelamento da realidade em si. A morte é o destino, que a reorientação precisa transcender pelo sentido do além-ser. O Dasein se realoca a partir do nada ao orientar-se para o Tudo, pois a porta do vazio abre a perspectiva da plenitude. Essa é a tra-dução, ou trans-dução, ou ainda trans-cendência da linguagem do silêncio. É a isso que sua voz vazia vocaciona. Assim, aquilo que foi configurado, agora desconfigurado, é então progressivamente reconfigurado à sua autenticidade original. Após decair da autenticidade e mergulhar-se na impropriedade, da qual é imanentemente inábil para sair, o Dasein se ergue pela ação transcendente do Outro, cuja essência e existência coincidem, para percorrer a trajetória existencial rumo ao Sentido autentico que é o Logos.

CONCLUSÃO

       Uma questão ontológica-existencial precisa ser posta ao Dasein na crise de angústia. Aquilo que estava velado sob a casca da onticidade manifesta-se fenomenologicamente como não-ser, absolutamente nada. Ontologicamente, na essência do Dasein, há um espanto com a própria nulidade e com a contingencialidade do ser. Por isso, a angústia é a disposição afetiva que nos coloca perante o nada, o vazio, o não-ser. Nenhuma trama semântica é capaz de "mun-dar", não se trata de uma possibilidade de ser, mas sim do que é o ser, isto é, nada. Daí reconhecer que o Dasein, não é só ser-com-outros ou ser-no-mundo, mas mais propriamente ser-para-a-morte, ser cuja essência é não-ser. Na angústia não há ontologia semântica, nem hermenêutica da co-presença, mas a in-existência que possibilita a transcendência do nada no recorrer do Absoluto. Lembrando, este delineamento ontológico-existencial não é uma análise final, mas um ensaio analítico para futuras reflexões e leituras.