sexta-feira, 17 de março de 2017

ANALÍTICA EXISTENCIAL DO FENÔMENO DA PORNOGRAFIA




      Já escrevi um artigo tratando da questão da masturbação (aqui) e futuramente pretendo escrever um abordando de maneira mais abrangente a questão da pornografia. Antes disso, porém, decidi fazer um ensaio analítico com reflexões pessoais, a partir da existencialidade humana, do fenômeno da pornografia. Aqueles que anseiam por uma análise mais profunda da questão, com observações bíblico-teológicas, neurológicas e psicossociais, terão de aguardar. Não obstante, creio eu que esse ensaio já trará relevantes reflexões sobre essa problemática.
       Precisamos, a princípio, ter em mente que a pornografia é imoral. Ela é um ente que pode estar à mão no espaço intramundano e que o ego pode acessá-la a fim de obter uma autossatisfação. Aqui já há algo no qual podemos nos deter. O “eu”, em muitos casos, tem sido concebido como uma instância substancial auto inclusa. Não obstante, considerando a constitutividade ontológica da relação “eu-mundo”, podemos ver a consciência (ego cogito) como direcionamento (intencionalidade). Na pornografia, há um direcionamento, um movimento (ex-movere) do ego, um “lançar-se para fora”, como em qualquer outro ato humano. No entanto, esse lançar-se é mais propriamente um direcionamento para si mesmo, mas não o si-mesmo da existência autêntica, mas um direcionar-se para a impessoalidade de si mesmo. O eu se move para fora de si, não para o outro, mas para um ser-si-mesmo despersonalizado.
         A despersonalização é um elemento constitutivo na experiência contemplativa da pornografia. Ser pessoal é ser-com-outros. A vivência autêntica é constituída ontologicamente por uma correlação com a alteridade, na co-presença, no partilhar-com e no compartilhar mundo. Esse modo de ser-com é um olhar para o outro como uma subjetividade real, dotada de intencionalidade que também se direciona ao outro. A intencionalidade mútua e recíproca é um elemento que não pode estar ausente no gozo sexual, senão esse passaria a ser uma gozação ilegítima.
       Notemos a questão da intencionalidade. Duas modalidades podem estar presentes na vivência sexual, uma delas é a modalidade venal, ela pode ser entendida como o encontro de dois entes substancialmente materiais ou falando de modo mais claro, o sexo venal é um encontro de corpos. Na medida em que, mesmo os animais são capazes desse tipo de contactação, fica evidente a natureza animalesca do ato. Uma forma superior e mais excelsa de vivência da sexualidade, embora inclua também o substrato venal, o transcende construindo um clima-dispositivo-afetivo erótico, no qual emerge um espaço de encontro de duas subjetividades intencionais, que se direcionam uma-a-outra. Na medida em que na pornografia não há um encontro real de subjetividades intencionais num espaço existencial de mundo compartilhado, ela não é erótica. Pornografia não é erotismo, mas sim sexo venal, um mero encontro de corpos, e por isso animal e des-humana.
        Quando o ser que nós mesmos somos se relaciona com o outro, denominamos essa relação da copresença de pre-ocupação ou cuidado. O sexo, constituído pela co-presença, é uma relação de cuidado. Por outro lado, quando nos relacionamos com os objetos, como caneta, martelo, etc. falamos de ocupação. A ocupação é um modo instrumental de usar os entes-a-mão com um fim utilitário. É uma relação de manualidade, na qual o instrumento é destituído do caráter da presença, como no caso de usar uma caneta para escrever. Dito isso, não podemos chamar a pornografia de pre-ocupação com o outro, mas sim de ocupação. Obter prazer por meio da pornografia é tratar o outro à maneira das coisas. Não é que a imagem seja usada como ela é, um ente à mão, mas sim que a pessoa da imagem é destituída de seu caráter pessoal e instrumentalizada ao mesmo nível de uma caneta que se usa. O outro é tido como um ente-a-mão não-humano que serve de manual instrumental para o gozo sexual.
         Facilmente nos esquecemos que as pessoas que compõem as imagens de uma cena pornográfica são pessoas. Elas possuem subjetividade, alma, presença e consciência. A des-humanização do outro e a instrumentalização das relações humanas caracterizam a nossa sociedade pansexual e pornográfica. Tratamos as pessoas como coisas, como entes-a-mão. A pornografia é só um sintoma de que nossa sociedade está substituindo relações humanas, por relações objetais, e isso não só no âmbito sexual. Uma analítica da problemática da pornografia deve considerá-la, não como um fenômeno isolado, mas como um sintoma de algo muito maior, como a denúncia de um mundo de relações des-personalizadas, do qual cada um de nós é pessoalmente responsável e culpado.



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