sexta-feira, 21 de abril de 2017

A METAPSICOLOGIA ATEÍSTA DE FREUD

       Existem, pelo menos, três grandes teorias ateístas que têm moldado fortemente a cultura contemporânea em oposição à cosmovisão cristã: o marxismo, o darwinismo e o freudianismo. Já tratei da sangrenta e herética ideologia marxista (aqui) e também fiz pontuações sobre o cientificismo do evolucionismo (neo)darwinista (aqui), cabe agora fazer algumas considerações sobre a psicanálise freudiana.

PRESSUPOSTOS DA PSICANÁLISE FREUDIANA

        O freudianismo se sustenta sobre três pressupostos básicos[1]:


1. Ontologia materialista: Segundo a metapsicologia freudiana, a natureza do mental é material. Os estados mentais inconscientes são, em última instância, estados cerebrais.
2. Epistemologia naturalista: A psicanálise freudiana está alinhada com o naturalismo científico. O homem é concebido a partir de um ponto de vista antropológico naturalista como uma espécie biológica e a psicanálise é entendida como uma ciência natural.
3. Metodologia pessimista: A técnica utilizada pela psicanálise é a associação livre, na qual o sujeito articula livremente a fala e o analista fica em atenção flutuante atento, não à fala em si, mas as manifestações do inconsciente. O pessimismo terapêutico do freudianismo questiona a possibilidade da felicidade, pois há uma tendência natural no psiquismo (a pulsão de morte) para a autodestruição.

        Ao assumir uma ontologia materialista e uma epistemologia naturalista, a psicanálise freudiana se coloca em contradição com a antropologia cristã, que concebe o homem como dotado de uma alma racional e imortal. O materialismo freudiano destrói o fundamento da dignidade humana ao conceber o homem como um mero amontoado de células.
        Era de se esperar que dessa antropologia naturalista viesse um pessimismo terapêutico. A morte é o único destino que resta ao homem. Não há esperança de cura para as patologias psíquicas e os desejos do homem são insaciáveis. Com base na insaciabilidade desses desejos, Freud argumentava contra a existência de Deus dizendo que Ele era apenas uma projeção dos fortes desejos internos do coração humano. O indivíduo se sentiria impotente na idade adula criando uma figura paterna semelhante aquela que lhe protegeu na infância:

“A psicanálise dos seres humanos de per si, contudo, ensina-nos com insistência muito especial que o deus de cada um deles é formado à semelhança do pai, que a relação pessoal com Deus depende da relação com o pai em carne e osso e oscila e se modifica de acordo com essa relação e que, no fundo, Deus nada mais é que um pai glorificado.”[2]

           O argumento de Freud poderia ser colocado assim: (1) Uma ilusão é uma projeção dos nossos desejos sem bases no real; (2) Deus é uma projeção dos nossos desejos sem bases no real; (3) Logo, Deus é uma ilusão. A verdade, por outro lado, é que a paternidade de Deus na Trindade é o arquétipo das paternidades humanas, não o contrário. [3] Freud comete uma falácia genética por querer invalidar a verdade de uma crença com base em sua possível origem.
       Além disso, como o próprio Freud reconhece, a relação com o pai reserva uma ambivalência de amor/ódio em que a criança deseja a proteção do pai e ao mesmo tempo deseja a morte do pai. Neste caso, mesmo o ateísmo poderia ter alguma base no desejo. A rejeição de uma Autoridade Última poderia ter bases no desejo de que ninguém interferisse nas nossas vidas. Podemos observar também, como disse C.S. Lewis, que a existência em nós de um desejo que não pode ser saciado neste mundo indica a existência de uma Satisfação além mundo para esse desejo [4].      

COMPLEXO DE ÉDIPO E MORALIDADE

       O freudianismo busca fornecer uma solução para o problema da moralidade no ateísmo. Se não existe Deus, como explicar a culpa que o homem sente por suas transgressões da lei? Nesse sentido, a psicanálise desenvolveu a ideia de um conflito universal chamado “Complexo de Édipo”.
     Freud acreditava que existiram hordas primitivas nas quais o patriarca detinha sob o seu poder todas as mulheres da horda. Isso levou a uma revolta por parte dos filhos que mataram o pai. A morte do pai deu origem ao sentimento de culpa, pois os filhos alimentavam um sentimento ambivalente de ódio/amor pelo pai, visto que o patriarca também era fonte de proteção.
       Ninguém teve coragem de substituir o lugar do Pai. O Pai foi substituído, então, por um símbolo religioso (totem) e foram instauradas duas leis: “Não matar o pai” (proibição do parricídio) e “Não tomar as mulheres da horda” (tabu do incesto). Essas duas proibições fundaram a civilização humana, de modo que essas leis estão presentes em todas as culturas: “A cultura totêmica baseia-se nas restrições que os filhos tiveram de impor-se mutuamente, a fim de conservar esse novo estado de coisas. Os preceitos do tabu constituíram o primeiro ‘direito’ ou ‘lei’.” [5]
        Essa ocorrência fundante da cultura ocorre também em cada homem individualmente. Para Freud, a criança, desde o nascimento, experimenta vários prazeres sexuais. Primeiro ela se excita oralmente com o seio materno, depois com o prazer anal da defecação, até chegar a uma fase em que começa a teorizar sobre o pênis.
       Toda criança acreditaria, a princípio, que o pênis é universal. Para o menino, tudo e todos possuem pênis, até que ele descobre que meninas não o possuem. Essa descoberta geraria uma angústia na criança que, imaginando que as meninas perderam seu pênis, teme perder o seu também. O menino teme ser castrado pelo pai e por isso passa a desejar que o pai morra para que ele possa ficar com a mãe.
       A percepção e aceitação das diferenças sexuais anatômicas pela criança seria o que proporcionaria a formação de uma agência psíquica moral reguladora (superego) possibilitando que a criança se converta de um pequeno selvagem para um adulto civilizado. Civilizar-se, no entanto, exige o recalcamento dos desejos incestuosos pela mãe e do desejo da morte do pai, o que torna o homem civilizado um neurótico angustiado.
       A consciência moral (superego), portanto, seria formada com a dissolução do complexo edípico. A agência de censura psíquica se construiria na infância a partir da relação com os pais:

“O longo período da infância, durante o qual o ser humano em crescimento vive na dependência dos pais, deixa atrás de si, como um precipitado, a formação, no ego, de um agente especial no qual se prolonga a influência parental. Ele recebeu o nome de superego. Na medida em que este superego se diferencia do ego ou se lhe opõe, constitui uma terceira força que o ego tem de levar em conta.” [6]

        O Cristianismo, por outro lado, defende que todos já nascem com a lei gravada em seus corações. E, novamente aqui, a psicanálise freudiana está em oposição à antropologia cristã: “Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Romanos 2.15).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

       A psicanálise freudiana é uma teoria materialista, naturalista, determinista e reducionista, cujos pressupostos estão em evidente oposição à Cosmovisão cristã. A concepção de moral da Psicanálise, como baseada numa instância psíquica formada com a dissolução do complexo edípico, é oposta ao ensino bíblico de que Deus imprimiu a lei na natureza do homem. Sendo assim, a metapsicologia freudiana, assim como a ideologia marxista e o darwinismo cientificista, é uma teoria ateísta.

Fontes:

 [1] Pressupostos de algumas abordagens da Psicologia. Compactação que eu fiz do capítulo “Freud e a Psicanálise: Uma visão de Conjunto –Richard Theisen Simanke & Fátima Caropreso” do livro   “História e filosofia da psicologia: perspectivas contemporâneas. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2012” organizado por Saulo de Freitas Araújo.
[2] Totem e Tabu e outros trabalhos– Sigmund Freud.
[3]Teologia Sistemática I – Norman Geisler, CPAD, 2015, página 533.
[4] Deus em Questão: C.S.Lewis e Sigmund Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida – Armand M. Nicholi Jr, páginas  55 e 56..
[5]  O mal estar na civilização – Sigmund Freud.
[6] Esboço de Psicanálise – Sigmund Freud.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

COMO LER LIVROS (ADLER)

       Como Ler Livros é um guia indispensável para uma leitura inteligente de livros que valem a pena ler. Em um tempo em que a maior parte dos brasileiros, mesmo dos acadêmicos, é analfabeta funcional (confira), conhecer a arte da leitura inteligente se faz urgente. Este post esboça as regras que Adler e Van Dorien apresentam no guia prático “Como ler livros”. Espero que este esboço estimule os leitores a adquirirem o livro (aqui) a fim de aprimorarem-se na arte da leitura.



DIMENSÕES DA LEITURA


*Objetivos da Leitura: (i) Informar= leitura de algo imediatamente inteligível; (ii) Entender= tentativa de ler algo que a princípio não se entende completamente e, (iii) Divertir= leitura para entretenimento.

NÍVEIS DE LEITURA

* Elementar= Leitura feita por qualquer pessoa alfabetizada.
*Inspecional= Extrair o máximo possível de um livro num período limitado de tempo.
*Analítica= A mais completa leitura possível.
*Sintópica= Leitura de muitos livros, ordenando-os mutuamente sobre o assunto comum.


PERGUNTAS BÁSICAS

Leitura Inspecional= O livro é sobre o que? O que exatamente está sendo dito e como?
Leitura Analítica = O livro é verdadeiro em todo ou em parte? E daí?
Leitura Sintópica = E daí?


ANOTAÇÕES

*Tipos de anotações= (i) Estruturais= Voltadas à estrutura do livro (leitura inspecional); (ii) Conceituais= Ocupam-se dos conceitos do autor e do leitor (leitura analítica); (iv) Dialéticas= notas sobre o perfil do debate (leitura sintópica).

*Técnicas de Anotações
1. Sublinhar os trechos principais;
2. Traçar limites verticais na margem;
3. Fazer asteriscos em partes importantes;
4. Inserir números nas páginas referenciando outras páginas;
5. Inserir números nas margens para indicar os passos do raciocínio;
6. Circular palavras-chaves;
7. Escrever nas margens.


LEITURA ELEMENTAR

Estágios de Alfabetização

1. Prontidão para a leitura= desenvolvimento de habilidades que possibilitem o aprendizado da leitura.
2. Domínio vocabular= aprendizagem de leitura de materiais simples.
3. Desenvolvimento vocabular e utilização de contextos= progresso rápido na construção vocabular e na identificação de significados com base no contexto.
4. Leitura Fundamental = Capacidade de comparar visões de diferentes autores sobre o mesmo assunto.


LEITURA INSPECIONAL

* Sondagem Sistemática: (i) Exame da folha de rosto e do prefácio; (ii) Exame do Sumário; (iii) Consulta do índice remissivo; (iv) Leitura da capa e contracapa; (v) Exame dos capítulos centrais e, (vi) folheio do livro.
*Leitura Superficial= Ler o livro continuamente e rápido.


LEITURA ANALÍTICA

ESTÁGIO I – REGRAS PARA DESCOBERTA DO CONTEÚDO

Regra 1 – Classifique o livro de acordo com o título e assunto.

*Obras de Ficção= Romances, épico, poema, peça.
*Obras Expositivas= (i) Práticas= economia (algumas), oratória, ética, política, engenharia, negócio, direito (alguns), medicina (alguns), guia; (ii) Teóricas= ciência, filosofia, história-narração.


Regra 2 – Expresse a unidade do livro da maneira mais breve possível (O livro como um todo é sobre o que?)

Regra 3 – Enumere suas partes principais em ordem e relação e as esboce (partes>seções>pontos).

Regra 4 – Defina o(s) problema(s) que o autor busca resolver (Qual a principal pergunta do livro? Quais as perguntas secundárias?)

ESTÁGIO II – REGRAS PARA INTERPRETAR O CONTEÚDO

Regra 5 – Encontrar as palavras-chaves e entrar em acordo com o autor.
*As palavras-chaves são as que (i) incomodam; (ii) são destacadas pelo autor; (iii) são importantes dentro do vocabulário técnico de uma área do conhecimento; (iv) o autor se esforça para mostrar que a usou em sentido diferente do usado por outros autores.

Regra 6 – Capte as proposições (unidades de pensamento e conhecimento ou unidades lógicas) principais, encontrado as frases (unidades de linguagem ou unidades gramaticais) mais importantes.
* As frases-chaves sãos as que exigem esforço interpretativo do leitor e expressam julgamentos básicos do autor.

Regra 7 – Identifique os argumentos, encontrado-os ou construindo-os com base em sequências de frases.

Regra 8 – Determine quais problemas o autor conseguiu e quais ele não conseguiu resolver; neste caso decida-se se o autor sabe que fracassou ao resolvê-los.

ESTÁGIO III – REGRAS PARA CRITICAR O CONTEÚDO

A. Preceitos de Etiqueta Intelectual

Regra 9 – Você precisa entender antes de emitir um julgamento.
*Retórica = Saber convencer ou persuadir (para o autor) e saber como reagir quando alguém tenta nos convencer ou persuadir de algo (para o leitor.

Regra 10 – Quando discordar, faça-o de maneira sensata, sem gerar disputas ou discussões (não faz sentido vencer um debate se souber ou suspeitar que esteja errado).

*Tipos de Discórdia: (i) Aparente= resulta de simples desentendimento; (ii) Por desigualdade de conhecimento= O ignorante discorda do culto por questões que ultrapassam seu conhecimento; (iii) Sob o domínio da razão = Suscita a aprendizagem.
*ATITUDES CRITICAS POSSÍVEIS= Concordar, discordar ou suspender o juízo.

Regra 11 – Respeite a diferença entre conhecimento (é baseado em evidências) e opinião (julgamento não justificado) fornecendo razões para o seu juízo.

B. Critérios Especiais para o Exercício da Crítica

Regra 12 – Mostre onde o autor está desinformado.
Regra 13 – Mostre onde o autor está mal informado.
Regra 14 – Mostre onde o autor foi ilógico.
Regra 15 – Mostre onde a análise ou a explicação do autor está incompleta.

*Condições para uma boa controvérsia= (i) Identificar suas emoções; (ii) Reconhecer seus preconceitos; (iii) ser imparcial.

MATERIAIS DE APOIO PARA A LEITURA

*Comentários e Resumos= Devem ser usados raramente. Um comentário só pode ser lido depois que o livro foi lido. Resumos podem ser lidos antes (para auxiliar na decisão de se vale a pena ler o livro) ou depois (para ajudar a lembrar o que foi lido).
*Obras de Referência= Você tem de saber o que quer saber, em qual obra buscar, como encontrar essa informação e entender que os autores da obra consideram que tal informação pode ser conhecida.
*Dicionários = Não se deve ler um livro com um dicionário ao lado o tempo todo e não tente adquirir vocabulário rico memorizando o dicionário. Deve-se ter em mente que dicionários não são autoridades de sabedoria.


LEITURA SINTÓPICA

ETAPA I – INSPEÇÃO DO CAMPO PREPARATÓRIA PARA A LEITURA SINTÓPICA

1. Prepare uma bibliografia provisória de seu assunto lançando mão de catálogos de bibliotecas, orientadores e bibliografias de livros.
2. Inspecione todos os livros da bibliografia provisória a fim de averiguar quais têm a ver com o assunto que lhe interessa e para formar uma ideia mais clara do assunto.,

ETAPA II – LEITURA SINTÓPICA DA BIBLIOGRAFIA REUNIDA NA FASE I

1. Inspecione os livros que já foram identificados como relevantes para o assunto da fase I a fim de encontrar passagens mais relevantes.
2. Forje um consenso entre os autores por meio da construção de uma terminologia neutra do assunto que, segundo a sua interpretação, todos, ou grande maioria, pudesse empregar, quer eles efetivamente empreguem tais palavras, quer não.
3. Estabeleça uma série de proposições neutras para todos os autores por meio de uma série de perguntas que, segundo sua interpretação, os autores respondem, quer eles tratem explicitamente dessas questões, quer não.
4. Delimite as divergências, grandes e pequenas, demarcando as respostas contrárias dos autores ás diversas perguntas, estando eles de um lado ou de outro na divergência. Deve-se lembrar que nem sempre há uma divergência explícita entre dois ou mais autores e que ás vezes é preciso construí-la por meio da interpretação das opiniões dos autores sobre assuntos que podem ter figurado entre seus interesses básicos ou não.
5. Analise a discussão ordenando as perguntas e divergências de modo a esclarecer o máximo do assunto. As divergências mais gerais devem vir antes das menos gerais, e as relações entre as divergências têm de ser indicadas com clareza.



FONTE: Adler, Mortimer J. & Van Doren. Como Ler Livros – O Guia Clássico da Leitura Inteligente. É Realizações.