segunda-feira, 10 de julho de 2017

A DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ - GÁLATAS 2.15-21

Fiz uma exegese em Gálatas 1.6-10 e já foi observado que Paulo escrevia para pessoas que ele havia evangelizado em sua primeira viagem missionária. No entanto, falsos mestres judaizantes estavam perturbando os gálatas, negando o apostolado paulino e exigindo a submissão dos gentios às leis judaicas. Agora, será apresentada uma análise do texto de Gálatas 2.15-21, no qual o apóstolo Paulo trata do tema da justificação pela fé:
15 Nós, judeus por natureza e não pecadores dentre os gentios,
Ἡμεῖς  φύσει Ἰουδαῖοι καὶ οὐκ ἐξ ἐθνῶν ἁμαρτωλοί
A carta aos gálatas recorrentemente trata de dois temas: o evangelho de Cristo e o apostolado de Paulo. Por exemplo, Paulo saúda os gálatas defendendo seu apostolado (1.1-5), exorta os gálatas contra os judaizantes (1.6-9) e defende novamente seu apostolado e o evangelho de Cristo com sua própria biografia (1.10-17). O apóstolo defende que recebeu seu evangelho por revelação divina, e não de homens, nem mesmo de outros apóstolos e nesse sentido, o evangelho por ele pregado não dependia da aprovação humana. O evangelho pregado por Paulo se mantinha de pé mesmo contra um dos colunas da Igreja, Pedro (WH).
Em seguida, o texto narra uma divergência entre o apóstolo Paulo, pregador para os gentios e o apóstolo Pedro, pregador para os judeus (2.1-10). Paulo repreende Pedro por se deixar influenciar pelos judaizantes (2.11-14). A controvérsia entre os dois ocorreu provavelmente logo depois do Concílio de Jerusalém - Atos 15.1-21 (WH).
Pedro havia ido à Antioquia e ao chegar lá se alinhara ao comportamento dos membros (judeus e gentios) daquela igreja, que seguindo a decisão do Concílio de Jerusalém, comiam em unidade nas festas de amor - ágape (confira: 1 Coríntios 11.17-22). No entanto, ocorreu que alguns indivíduos judaizantes se introduziram na congregação insistindo que os gentios comessem com os gentios e os judeus comessem com os judeus por causa das proibições dietéticas. Então, Pedro começou a hesitar de sua posição e a se afastar dos gentios. Isso mostra que mesmo que o processo de santificação seja progressivo, cristãos podem cometer falhas durante sua caminhada. E aqui, como já havia ocorrido antes, Cefas novamente deixou ser levado pelo medo e pela inconstância como quando negou a Cristo (Mateus 26.69-75). Por causa disso, Paulo repreende a Pedro publicamente (WH).
As exortações dos versículos 15 ao 21 passam a se dirigidas não só a Pedro, mas também aos gálatas, aos judaizantes e até ao próprio Paulo (WH). O apóstolo observa que eles eram “judeus” por natureza em oposição aos pecadores gentios.
A aplicação do adjetivo “pecadores” aos gentios pode refletir o modo como os judeus costumavam encarar as pessoas de outros povos em oposição ao povo eleito. A TI traz: “não somos pecadores como os outros”. A NVI usa aspas, vertendo: “‘gentios pecadores’” e a NTLH faz o mesmo: “ ‘pecadores não-judeus’”, o que pode insinuar que Paulo faz uso de uma expressão que era usada pelos judeus. Essa ideia fica ainda mais insinuada na OL: “não fazemos parte daqueles a que chamam os pecadores gentios”. Desse modo, Paulo sabia que todos, judeus e gentios, eram pecadores, mas ao usar a expressão “gentios pecadores” ele está aduzindo à visão que os judeus em geral tinham sobre os gentios. William MacDonald entende que o apóstolo também poderia estar usando de uma ironia para denunciar que o comportamento de Pedro evidenciava a noção de uma superioridade dos judeus em relação aos gentios (WM).

16 sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado.
 εἰδότες δὲ ὅτι οὐ δικαιοῦται ἄνθρωπος ἐξ ἔργων νόμου ἐὰν μὴ διὰ πίστεως Χριστοῦ Ἰησοῦ καὶ ἡμεῖς εἰς Χριστὸν Ἰησοῦν ἐπιστεύσαμεν ἵνα δικαιωθῶμεν ἐκ πίστεως Χριστοῦ καὶ οὐκ ἐξ ἔργων νόμου ὅτι ἐξ ἔργων νόμου οὐ δικαιωθήσεται πᾶσα σάρξ
Paulo prossegue dizendo que apesar de (“δέ”) ser judeu por nascimento, e, portanto não estar entre os ditos “pagãos pecadores” (“ἐθνῶν ἁμαρτωλοί), ele não tinha as obras da lei como base de sua justificação. E, assim, embora fosse parte do “povo da lei”, ele sabia que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas sim mediante a fé. E essa não era uma questão particular, o apóstolo afirma categoricamente que ser justificado por obras da lei é impossível para qualquer um.
            Na medida em que o apóstolo fala de “justificação mediante a fé”, ele parece ter em mente a justificação subjetiva. Isto é, quando o pecador deposita por meio (“διὰ”) da fé sua confiança na obra justificadora de Cristo Jesus. A justificação objetiva ou ativa seria a declaração, no tribunal de Deus, da imputação da justiça de Cristo ao pecador, enquanto a justificação subjetiva seria quando o pecador aceita ou se apropria dessa declaração por meio da fé (LB).
Outras versões traduzem a ideia de justificação como: “declarar justo” (TNM); “ser aceito por Deus” (NTLH); “entrar em boas relações com Deus” (TI); “torna-se justa” (OL) e “se justificar” ou “tirar sua justificação de” (VC). Desse modo, algumas traduções dão a entender um ato de Deus de declarar justo o pecador e assim aceitá-lo para que o mesmo entre em boas relações com Ele (TNM, NTLH, TI), enquanto outras parecem entender por justificação um ato do pecador de se justificar ou tornar-se justo, insinuando uma mudança subjetiva no pecador (OL, VC). Esse último entendimento parece opor-se ao que o próprio texto está dizendo, isto é, que a justificação não é um ato ou obra do pecador.  
O verbo “δικαιόω” tem o sentido de julgar, declarar ou pronunciar algo como justo, e, por conseguinte, aceitável (TGL). J.I. Packer em God’s Words, pp.139-140 define justificar como: “declarar [...], acerca de um homem levado a julgamento, que ele não está sujeito a nenhuma penalidade, mas tem direito a todos os privilégios devidos a quem guarda a lei. Justificar é o ato do juiz que pronuncia sentença oposta à condenação – de indulto e imunidade legal” (apud TK, p.62).
Já o termo “πίστις” (fé) fala de alguém que foi persuadido a confiar em algo. Mas é distinto de uma mera confiança humana embora a inclua também, pois se refere a uma dádiva que só pode ser concedida por Deus e nesse sentido, é uma “persuasão divina” que traz consigo um elemento de garantia, certeza e confiança baseados na revelação divina (HWS). A fé pística é um poder que se apodera da alma, é a firme convicção de que Jesus é o Messias por meio de quem obtemos a salvação (TGL). Nesse sentido, a justificação seria a declaração de que somos aceitáveis a Deus mediante uma firme convicção e confiança operada pelo próprio Deus em nós.
            William Hendriksen define justificação como “aquele ato gracioso de Deus pelo qual, tão-somente com base na obra mediadora que Cristo consumou, ele declara justo o pecador, e este aceita tal benefício com um coração crente” (WH, p.120).  A fé é como a mão que se estende e aceita essa dádiva. Mas, como visto na análise do termo “πίστις”, esse próprio estender a mão é um dom de Deus (WH). Se o estender da mão fosse uma mera ação do homem, como parece sugerir algumas ilustrações arminianas, tal fé seria uma obra, e isso é exatamente o oposto do que o apóstolo está ensinando.
            John Stott, por sua vez, define justificação como o “ato imerecido do favor de Deus através do qual ele coloca diante de si o pecador, não apenas perdoando-o ou isentando-o de culpa, mas também aceitando-o e tratando-o como justo” (JS, p.58). No entanto, a crença comum do povo e de todas as religiões em todos os tempos, com exceção do Cristianismo, é a doutrina da justificação pelas obras (JS). Todos sabem, ainda que neguem em suas especulações teóricas, que transgrediram a Lei de Deus e que precisam prestar satisfação à justiça. Todos os homens entram neste mundo sob um pacto de obras que diz: “Obedeça integralmente à Lei e receberás a vida eterna.” e ao mesmo tempo, nenhum deles pode cumprir essa condição. Assim, nenhum sistema de justificação por obras pode resolver esse problema. Somente a doutrina da justificação pela fé provê um meio de atender a essa necessidade.
            É importante observar os tempos e modos verbais neste texto. O verbo “οἶδα” (“saber”) está no particípio perfeito na voz ativa, o que enfatiza uma primeira ação foi concluída antes de uma segunda ação ter começado (ET). E, assim, primeiro Paulo teve logicamente que conhecer a doutrina da justificação para que então pudesse crer nela. Desse modo, a fé pressupõe a comunicação do evangelho: “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10.14). Além disso, ao afirmar que além de saber da doutrina da justificação, ele também cria em Cristo, Paulo mostra que a certeza do seu ensino não era meramente intelectual, mas também provada por sua própria experiência pessoal (JS).
            Já o verbo “δικαιόω” (ser justificado) está no presente do indicativo, e não no pretérito, o que reforçaria a interpretação de que o texto se refere à justificação subjetiva que ocorre sempre que alguém exerce fé no Senhor e não à justificação objetiva realizada de uma vez por todas por Cristo no passado.
            O verbo “πιστεύω” (crer), por sua vez, está no aoristo o que pode sugerir uma ação que ocorre uma única vez ou uma vez por todas e corresponde mais ou menos a um gerúndio + particípio - "tendo crido" (W). Desse modo, a crença para justificação seria um ato ocorrido simples e isoladamente. Não se crê várias vezes ou se continua crendo continuamente para ser justificado. Tendo crido, a pessoa é justificada de uma vez por todas. E, assim, o verbo “δικαιόω” também é usado no aoristo. Em seguida “δικαιόω” aparece no futuro do indicativo a fim de afirmar que ninguém (grego: “nenhuma carne”: πᾶσα σάρξ), jamais, será justificado por obras da Lei.
           
17 Mas se, procurando ser justificados em Cristo, fomos nós mesmos também achados pecadores, dar-se-á o caso de ser Cristo ministro do pecado? Certo que não!
 εἰ δὲ ζητοῦντες δικαιωθῆναι ἐν Χριστῷ εὑρέθημεν καὶ αὐτοὶ ἁμαρτωλοί ἆρα Χριστὸς ἁμαρτίας διάκονος μὴ γένοιτο
Este versículo e o seguinte parecem um pouco confusos na ARA. Outras traduções podem clarear o significado do versículo 17. A TI traz: “Então se nós que procuramos estar em boas relações com Deus por nossa relação com Cristo ainda continuamos pecadores, quer isso dizer que é Cristo quem nos torna pecadores?”; a NVI diz: "Se, porém, procurando ser justificados em Cristo descobrimos que nós mesmos somos pecadores, será Cristo então ministro do pecado?”; a NTLH verte: “Ao procurarmos ser aceitos por Deus por estarmos unidos com Cristo, fica claro que somos ‘pecadores’ como os não-judeus. Mas será que isso quer dizer que Cristo trabalha em favor do pecado?”; já a OL traduz da seguinte forma: “Se viessem agora dizer-nos - a nós que confiamos em Cristo para nos perdoar e salvar - que errámos, e que não podemos tornarmo-nos justos diante de Deus se não for pela obediência à lei, teríamos que concluir daí que Cristo afinal nos levou ao erro!”
            Desse modo, o texto pode estar se opondo a espantalhos da doutrina da justificação que poderiam ser feitos pelos falsos mestres, por exemplo. O texto poderia estar dizendo que a doutrina da justificação realça o fato de que somos pecadores e que por isso tal doutrina tornava Cristo ministro (“διάκονος”) do pecado. Ou ainda poderia ser argumentado pelos opositores que apesar de se declarar justificado, o indivíduo continua pecador e que por isso tal doutrina colocava Cristo a serviço do pecado. E, assim, tais objeções seriam muito similares ou as mesmas que aquelas que geralmente se ouve contra a doutrina reformada da justificação pela fé. Isto é, que o ensino de que somos salvos sem obras da Lei promove a impiedade e o pecado. Também poderia ser o caso de o apóstolo estar conjecturando a acusação de pregar um sistema falso de justificação e que nesse sentido, o “Cristo” por ele pregado estava conduzindo-o ao erro.
            William MacDonald entende essa passagem como se o apóstolo estivesse dizendo que se ele buscasse a justificação pelas obras estaria colocando Cristo na posição de um ministro do pecado (WM). Timothy Keller parafraseia este versículo e o seguinte assim: “Se alguém que sabe ser justificado pela fé comete pecado, é porque a justificação pela fé em Cristo promove o pecado? Absolutamente, não! Mas, se alguém que professa fé em Cristo mantêm o mesmo estilo de vida pecaminoso, restaurando sua condição de pecador, cuja penalidade Cristo morreu para destruir, não se esforço nada para mudar, isso prova que essa pessoa nunca entendeu de fato o evangelho. Ele estava só procurando uma desculpa para viver em desobediência a Deus” (TK, p.63).
William Hendriksen defende a posição de que o texto deveria ser entendido assim: “ ‘Se os judaizantes estão no caminho certo, ao sustentar que nós, ao buscarmos a justificação unicamente em Cristo, assim negligenciamos a lei e acabamos nos tornando rudes pecadores tais como os gentios, diríamos então que Cristo, que nos ensinou essa doutrina, é promotor do pecado?” (WH, p.123).
John Stott, por sua vez, entende a passagem em questão da seguinte forma: “ ‘A sua doutrina da justificação através da fé em Cristo somente, à parte das obras da lei, é uma doutrina altamente perigosa. Fatalmente enfraquece o senso de responsabilidade moral do homem. Ao afirmar que ele pode ser aceito confiando em Cristo, sem qualquer necessidade de boas obras, você o está encorajando a transgredir a lei, que é a vil heresia do ‘antinomismo’’” (Js, p.62). Parece coerente, entender, assim como Stott, que Paulo está refutando os oponentes que acusavam a dourina da justificação pela fé de promover o pecado.

18 Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, a mim mesmo me constituo transgressor.
εἰ γὰρ ἃ κατέλυσα ταῦτα πάλιν οἰκοδομῶ παραβάτην ἐμαυτὸν συνιστάνω
A NTLH traz: “Se eu, depois de ter destruído a lei, começar a construí-la de novo como meio de ser aceito por Deus, aí, sim, fica claro que eu havia quebrado a lei.” Neste caso, não seria a doutrina da Justificação pela fé que tornaria Cristo ministro do pecado por evidenciar que somos pecadores, mas sim a doutrina da justificação pelas obras da Lei. O esforço inútil por tentar guardar a lei para ser aceito por Deus é o que deixaria claro o fato de sermos transgressores da Lei. Já na OL lemos: “Evidentemente que se me ponho a construir de novo um sistema de justificação, o qual antes tinha sido destruído, torno-me transgressor.” Neste caso, o sentido do verso seria que se Paulo abandonasse a doutrina da justificação pela fé por causa do argumento dos opositores de que ela promove o pecado, ele se tornaria culpado por isso. Esse último sentido me apetece mais. O termo παραβάτης descreve alguém que transgride deliberadamente a Lei de Deus (TGL). Essa atitude de reconstruir um sistema de justificação que havia sido demolido, teria sido a atitude de Pedro quando influenciou-se pelos judaizantes, deixando de confiar em Cristo ao voltar-se para a Lei (WM).

19 Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo;
ἐγὼ γὰρ διὰ νόμου νόμῳ ἀπέθανον ἵνα Θεῷ ζήσω  Χριστῷ συνεσταύρωμαι
Paulo afirma que através da própria lei morreu para a lei. Isso parece ter o sentido de que a Lei cumpriu o papel de servir de espelho para que o apóstolo se percebesse como pecador, descobrisse que é incapaz de obedecer a lei e buscasse a graça de Cristo a fim de viver para Deus. O termo “νόμος” é empregado em diversos sentidos pelo apóstolo em suas epístolas. Aqui provavelmente νόμος é usado em um sentindo mais amplo para se referir à Lei de Moisés e a todo o volume de mandamentos humanos que os judeus acrescentaram a ela (WH).
Algo importante de ser observado no versículo é a expressão “Estou crucificado com Cristo” que destaca a união mística do crente com o Senhor. O verbo “συσταυρόω” está no perfeito do indicativo denotando algo que aconteceu no passado, mas cujos efeitos continuam no presente. Paulo foi crucificado com Cristo, mas ainda experimenta os efeitos dessa crucificação. Estamos unidos com nosso Representante, Cristo Jesus, e por isso nos identificamos com ele em sua morte. Mas essa expressão não deve ser entendida, como fazem alguns místicos, como a fusão da personalidade do Cristão em Cristo. Paulo continua tendo uma existência individual e separada (“vida que tenho na carne” v.20), o que o apóstolo trata aqui é de uma união por meio da fé. Sendo assim, a justificação insere o crente numa relação pessoal com Cristo (WH). Morrer em Cristo significa morrer para um modo de vida no qual se busca ganhar a salvação por méritos próprios.

20 logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.
ζῶ δὲ οὐκέτι ἐγώ ζῇ δὲ ἐν ἐμοὶ Χριστός ὃ δὲ νῦν ζῶ ἐν σαρκί ἐν πίστει ζῶ τῇ τοῦ Υἱοῦ τοῦ Θεοῦ τοῦ ἀγαπήσαντός με καὶ παραδόντος ἑαυτὸν ὑπὲρ ἐμοῦ
Este verso explora mais a identificação do crente com Cristo. Paulo afirma que não é ele quem vive, mas é Cristo quem vive nele. Ele também destaca o fato de que Cristo o amou e morreu por ele. Assim, a justificação deve ser entendida à luz da obra sacrifical de Cristo e da união mística do crente com o Senhor.
            Essa união entre o crente e Cristo faz com que Paulo descreva a mudança que acontece com uma pessoa justificada em termos de morte e ressurreição. A justiça divina foi satisfeita na morte de Cristo, e nela nossa vida passada é crucificada e ressuscitamos para uma nova vida. Assim, é absurdo que alguém que tenha morrido para a vida antiga queira voltar a ela (JS).
O termo usado no grego para “carne” (σάρξ) parece denotar, aqui, a vida humana natural, destacando contra os místicos que a união com Cristo não anula nossa existência humana individual e real (v.16). O verbo ἀγαπάω empregado na passagem no aoristo traz a ideia de ser cheio de boa-vontade e exibi-la realmente. É a boa-vontade exibida na cruz, é o amor que levou Cristo a sofrer e morrer para nos salvar (TGL).

21 Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.
Οὐκ ἀθετῶ τὴν χάριν τοῦ Θεοῦ εἰ γὰρ διὰ νόμου δικαιοσύνη ἄρα Χριστὸς δωρεὰν ἀπέθανεν
Por fim, o apóstolo mostra que ao crer na justificação pela fé está pregando o evangelho da graça, ao contrário dos falsos mestres judaizantes que ao ensinar a justificação pelas obras da Lei tornavam a morte de Cristo em vão. Se o crente pode ser salvo pela obediência das ordenanças, logo não haveria necessidade de que Cristo tivesse se entregado para nos salvar.
O verbo “ἀθετέω” tem o sentido de rejeitar, recusar, diminuir, destruir (TGL), acabar com o que já está estabelecido, romper com a fé, invalidar, ignorar (SC) ou ainda desprezar como algo espúrio (HWS). Assim, negar a doutrina da justificação pela fé somente é rejeitar a graça. Pois, se a justificação pode ser por obras, Cristo morreu em vão (“δωρεὰν”), isto é, como uma oferta sem propósito (NAS).

Desse modo, o apóstolo deixa claro que a doutrina da justificação pela fé é uma doutrina fundamental e essencial do evangelho. É o próprio fundamento da religião cristã, pois se no final o destino de nossa salvação é decidido por nós, a graça de Deus é anulada e torna-se inútil o sacrifício de Cristo (JS). Todos os sistemas soteriológico antiagostinianos (anticalvinistas), ao fazerem o destino final ultimamente definido por uma decisão do homem, caem nesse erro. Mas não só isso, quando nós mesmos olhamos para os nossos pecados como se eles ainda precisassem ser punidos ou trouxessem condenação e quando buscamos justificar as nossas falhas, estamos agindo como Pedro, esquecendo-nos da graça de Cristo e reconstruindo um sistema de justificação com base em obras.
SIGLAS


ARA – Almeida Revista e Atualizada.
ARC – Almeida Revista e Corrigida.
HWS - HELPS Word-studies
JS – John Stott – A Mensagem de Gálatas.
LB – Louis Berkhof – Manual de Doutrina Cristã.
NAS - NAS Exhaustive Concordance.
NVI – Nova Versão Internacional.
NTLH – Nova Tradução na Linguagem de Hoje.
OL – O Livro.
TGL - Thayer's Greek Lexicon.
TK – Timothy Keller – Gálatas para você.
TI – Tradução Interconfessional.
TNM – Tradução do Novo Mundo.
VC – Versão Católica.
WH – William Hendriksen – Comentário do Novo Testamento – Gálatas.
WM – William MacDonald – Comentário Bíblico Popular – Novo Testamento.